“É o Brasil! Brasil, Brasil, Brasil”. Você deve ter ouvido esse verso, acompanhado de uma batida forte e marcada, incontáveis vezes ao rolar feeds de redes sociais como Instagram e TikTok. Principalmente em dia de jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.
Esse verso é da música “Brasil com S”, produzida por Guilherme Maia (vulgo “M4IA”) e lançada em 19 de março. Como o apelido do produtor musical de 31 anos já sugere, tanto o processo criativo quanto os de produção e divulgação envolveram o uso pesado de inteligência artificial (IA).
O Olhar Digital conversou com Maia, que também é publicitário, sobre como ele usou a tecnologia, quais foram suas referências e o que ele vê no horizonte da sua carreira na música.
‘Brasil com S’: Como a IA ajudou um publicitário a realizar seu sonho na música
Confira abaixo a entrevista completa com Guilherme Maia sobre a “Brasil com S” e outras empreitadas suas no mundo da música (perguntas e respostas foram editadas para facilitar a leitura):
O que te levou a compor a “Brasil com S” e a usar IA para isso?
Eu produzi essa música em 19 de março, quando estava marcado um jogo amistoso entre Brasil e França, após notar que uma canção francesa feita por IA tinha viralizado e intimidava os torcedores brasileiros. Como sou produtor musical há mais de 15 anos, decidi usar a IA para criar uma resposta rápida a poucos dias do jogo. Analisei a estrutura da faixa rival, adotei o formato de call and response (chamada e resposta da multidão) e selecionei o ritmo phonk, muito popular em edits do TikTok. Para aumentar o potencial de viralização, compus a música com 52 segundos de duração. Isso impulsionou a replicação. Dados da gravadora apontam uma média de sete reproduções por pessoa. É um comportamento típico de grandes hits no mercado.
O desenvolvimento técnico exigiu repertório porque a IA precisa de background. Não existe um botão ‘criar hit da Copa’. Eu alimentei um software online de produção musical com mais de cem músicas que eu havia produzido de forma tradicional. Isso forneceu à ferramenta o background da minha sonoridade. Mesmo assim, o sistema falhou em entregar o que eu queria mais de 15 vezes. Então, selecionei os melhores fragmentos entre os resultados gerados pela IA e montei o arranjo e a composição final no meu software de produção. Esse processo de produção da música e do vídeo de divulgação levou entre duas e três horas.
Para o lançamento, adotei uma estratégia de marketing digital baseada nos comentários mais curtidos de outras publicações. A música “estourou” cinco vezes. A primeira ocorreu por meio de vídeos de react. A segunda, com a inserção da música em postagens sobre pacotes de figurinhas nas redes sociais. A terceira, através de uma trend de dança. A quarta, com o retorno de Neymar à Seleção Brasileira. Inclusive, inclui intencionalmente o gancho “Respeita o manto, o rei voltou” três meses antes da Copa, quando ele sequer estava convocado. A quinta veio agora na Copa de 2026, com o compartilhamento orgânico de grandes influenciadores e jogadores, como Virgínia, Lucas Paquetá e o próprio Neymar com a sua família.
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Quais plataformas de IA você usou no seu processo criativo e de produção? E qual sua resposta para críticas sobre usar IA em projetos artísticos e criativos?
Combinei diversas plataformas de IA disponíveis on-line. Usei o Claude, por exemplo, para mapear os maiores hits virais no YouTube, o que me direcionou ao estilo phonk. Usei o Gemini para analisar padrões estruturais em vídeos de referência, o que me levou a definir o formato de call and response e a métrica de 52 segundos. Também usei o Gemini para estruturar a base dos prompts que eu enviaria ao Suno, que é uma plataforma voltada para produção musical. Para evitar resultados genéricos no Suno, alimentei o sistema com mais de cem músicas autorais. Isso criou um perfil sonoro personalizado que gerou a identidade autêntica da “Brasil com S”. Por fim, extraí as stems (faixas separadas) e finalizei a produção da música no FL Studio. Já a produção e edição do vídeo viral, que alcançou 2,5 milhões de visualizações no TikTok, foi feita no Adobe Premiere e After Effects. Também sou editor de vídeos há mais de 15 anos.
Após o lançamento, passei a usar a IA, especialmente o Claude, para monitorar vídeos em alta de outras seleções e aplicar estratégias de marketing nos comentários. Esse fluxo ágil me permitiu emplacar três músicas numa única semana, incluindo a “Nunca Serão”, criada após a derrota do Brasil [por 2 a 1 para a França], que também contou com IA na produção visual. Até o videoclipe oficial desenvolvido pela gravadora incorporou a tecnologia. Usamos um modelo humano apenas para a coreografia e substituímos as pessoas digitalmente por meio de IA. Considerei que um clipe com pessoas reais seria incoerente com a proposta de uma música digital produzida com bastante uso de IA.
Inclusive, decidi assumir e defender publicamente o uso da IA para combater o tabu no mercado musical, no qual muitos profissionais já usam a ferramenta, mas omitem isso por receio de retaliação. A tecnologia é uma realidade irreversível em diversos setores e funciona como ferramenta democrática. Ela inaugura uma forma de compor e fazer arte. Embora haja quem diga que a IA desmerece o trabalho artístico, ela foi o que me abriu portas para oportunidades de trabalho e collabs com grandes nomes da cena. A ferramenta não diminui minha experiência profissional. Sem conhecimento técnico e repertório de quem a usa, não sai nada que presta.
Como foi para você ver sua música “estourar” dessa forma? O que você pensou, o que você sentiu?
Desde o lançamento nas plataformas digitais, a forte comoção pública gerou debates intensos sobre o ritmo e a escalação dos jogadores. Atingir a média de 50 mil a 100 mil reproduções diárias cumpriu meu objetivo inicial de viralização. Esse desempenho atraiu a Spinnin Records, grande gravadora holandesa, que entrou em contato pelo meu Instagram. O avanço nas negociações, respaldado por bons contatos, resultou na minha assinatura com a Spinnin e também com a Warner Music da Holanda. Esse marco realizou um sonho de adolescência, após anos de rejeições. E provou o valor de uma faixa 100% digital que, embora produzida com IA, dependeu inteiramente do meu background em marketing e produção musical para funcionar.
A estratégia de disseminação foi orgânica e baseada na resposta direta da comunidade. Nem precisou de investimento em grandes criadores de conteúdo. A música explodiu e se reinventou semanalmente em diversas trends nas redes sociais. Atualmente, mantemos três versões da “Brasil com S” online: a original, uma estendida e uma com os atletas atualizados. Mas o público parece gostar mais da primeira opção, mesmo com a escalação desatualizada. Esse engajamento espontâneo escalou até alcançar o topo da pirâmide de influência: o DJ Pedro Sampaio e a influenciadora Virgínia fizeram postagens com a música, Neymar postou um vídeo dançando com a filha Mavi ao som da minha música e até mesmo atores de Hollywood, do elenco do novo filme do He-Man, aderiram à trend brasileira com o meu som.
Eu produzi um fonograma adaptado para 17 países. Desse total, a faixa “estourou” em seis ou sete mercados estrangeiros, por exemplo: Portugal, Argentina, Colômbia e Turquia. Esses países adotaram a minha base musical em suas redes sociais. Consolidar esse projeto como “A Música da Copa de 2026 do Brasil” transformou o que antes era um hobby não remunerado numa guinada na minha carreira. Esse sucesso abriu portas para collabs com grandes artistas da cena. E viabilizou o meu retorno a apresentações como DJ pelo país, agora com o suporte de uma equipe de gestão de carreira.

O que você vislumbra no horizonte da sua carreira?
Além de voltar a me apresentar pelo Brasil, estou fechando parceria com muitas outras pessoas da música que gostaram dos meus sons. Eu já lancei 17 músicas pela Spinnin’ Records. E tem mais um monte que vai vir. Vou fazer collabs com gente muito grande do mercado a partir de agora. A IA me ajudou a retomar um sonho antigo, de adolescente, que era ter uma música relevante, que toca as pessoas, voltar a essa carreira de DJ, de produtor musical, que antes era somente um hobby. Então, a IA me ajudou a realizar o meu sonho, que era viver disso.
De maneira muito tranquila, agora posso falar que eu vou seguir carreira, vou conseguir estar em mais lugares, levar meus novos trabalhos para mais pessoas. E é só o começo. É o começo de uma trajetória nova, na qual vou levantar junto essa bandeira da IA. Não como forma de penalizar quem não usa. Mas no sentido de: se em algum momento existir alguma dúvida, algum bloqueio, se eu conseguir ajudar e mostrar que dá para encurtar algum caminho, que dá para clarear alguma estrada com uso da IA, eu estarei ali para poder ajudar.
O post Entrevista: a mente (e as IAs) por trás do hit da Copa ‘Brasil com S’ apareceu primeiro em Olhar Digital.