Estudo revela aquecimento oculto nas profundezas do Atlântico

Estudo revela aquecimento oculto nas profundezas do Atlântico

Um artigo publicado na revista Geology revela que águas localizadas a cerca de 800 metros de profundidade no Atlântico equatorial passaram por um forte aquecimento ao longo de milhares de anos. 

O mais surpreendente é que esse processo ocorreu sem deixar sinais evidentes na superfície do oceano.

Em resumo:

  • Estudo revela aquecimento profundo oculto no Atlântico equatorial;
  • Sedimentos marinhos registraram temperaturas de 11 mil anos;
  • Águas profundas aqueceram 5°C sem afetar a superfície;
  • Fenômeno começou há 5.700 anos e atingiu o pico;
  • Mudanças próximas à Antártida podem explicar o aquecimento;
  • Calor oculto influencia o clima, mares e previsões futuras.
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Águas do Atlântico equatorial guardam sinais de aquecimento intenso a 800 metros de profundidade – Crédito: Johan Holmdahl/Shutterstock

Sedimentos revelam passado térmico do Atlântico equatorial

A descoberta surgiu a partir da análise de um núcleo de sedimento retirado do fundo do mar. Esses depósitos se acumulam lentamente ao longo do tempo e preservam informações sobre as condições ambientais do passado. Entre os materiais encontrados estão minúsculas conchas de organismos marinhos, cuja composição química funciona como um registro natural das temperaturas existentes quando foram formadas.

Utilizando esse método, o pesquisador Syee Weldeab, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, EUA, reconstruiu a história térmica de uma região do Atlântico equatorial situada cerca de 800 metros abaixo da superfície. O registro obtido cobre aproximadamente 11 mil anos, abrangendo quase todo o Holoceno, período geológico iniciado após o fim da última era glacial.

Os resultados mostraram uma diferença marcante entre a superfície e as águas mais profundas. Enquanto os registros superficiais permaneceram relativamente estáveis ao longo de milênios, o interior do oceano apresentou mudanças significativas. Isso indica que processos importantes podem ocorrer em profundidade sem serem detectados pelas medições tradicionais realizadas na superfície.

Segundo o estudo, o aquecimento começou há cerca de 5.700 anos. A temperatura das águas profundas aumentou gradualmente até atingir seu pico em torno de 2.500 anos atrás. No total, a elevação foi de aproximadamente 5 graus Celsius. Para os pesquisadores, trata-se de uma mudança expressiva, especialmente por ter ocorrido sem reflexos claros nas camadas superiores do oceano.

A ausência de sinais na superfície chamou a atenção da equipe. Normalmente, alterações térmicas dessa magnitude deixam algum tipo de marca detectável nas águas mais rasas. Nesse caso, porém, o calor permaneceu praticamente escondido. Em um comunicado, Weldeab afirmou ter ficado surpreso com os resultados e revisado os dados diversas vezes antes de aceitar as conclusões.

A principal questão passou a ser a origem desse calor. Como ele não parecia ter sido gerado pelas águas tropicais superficiais, os cientistas buscaram explicações em regiões distantes. A hipótese mais provável envolve mudanças ocorridas no Hemisfério Sul, especialmente nas áreas próximas à Antártida, milhares de quilômetros longe do local estudado.

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Variações na incidência de radiação solar durante o verão no Hemisfério Sul podem ter influenciado correntes oceânicas e padrões atmosféricos – Crédito: PandorasLens – Shutterstock

De acordo com os pesquisadores, alterações na quantidade de radiação solar recebida pelas regiões austrais durante o verão podem ter modificado a circulação atmosférica e oceânica. Um dos efeitos teria sido o fortalecimento dos ventos de oeste, correntes atmosféricas que circulam ao redor da Antártida e exercem grande influência sobre as correntes do Oceano Antártico.

Quando esses ventos se intensificam, eles favorecem o deslocamento de águas superficiais mais quentes para camadas mais profundas. A partir daí, essa energia pode ser transportada por longas distâncias através do interior dos oceanos. Segundo a interpretação dos autores, esse mecanismo levou calor para o Atlântico tropical profundo ao longo de séculos, sem aquecer de forma significativa a superfície da região.

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Descoberta reforça a importância dos oceanos no sistema climático global

Estudos anteriores mostram que eles absorvem a maior parte do excesso de calor acumulado na Terra. Entre 1970 e 2020, aproximadamente 90% da energia adicional associada ao aquecimento climático foi armazenada nos mares, reduzindo os impactos imediatos sobre a atmosfera.

Pesquisas recentes indicam ainda que grande parte desse calor não permanece próxima à superfície. As camadas intermediárias e profundas dos oceanos funcionam como enormes reservatórios de energia. Por isso, compreender o que acontece nessas regiões é fundamental para melhorar as previsões climáticas e entender como o planeta responde às mudanças ambientais de longo prazo.

Os autores destacam que uma superfície oceânica estável não significa necessariamente que todo o oceano esteja em equilíbrio. Quantidades significativas de calor podem permanecer escondidas em profundidade durante séculos. Esse calor armazenado pode influenciar a elevação do nível do mar e outros processos ambientais que se manifestam lentamente ao longo das gerações.

A equipe pretende agora investigar se o fenômeno identificado no Atlântico também ocorreu em outros oceanos. Caso isso seja confirmado, a descoberta poderá revelar um mecanismo global de redistribuição de calor ainda pouco compreendido. Para os pesquisadores, o estudo mostra que algumas das mudanças mais importantes do sistema climático terrestre podem estar acontecendo muito abaixo da superfície, longe dos olhos e dos instrumentos que monitoram apenas as águas superficiais.

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