Uma equipe de pesquisadores liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) encontrou evidências de que o fungo conhecido por controlar o comportamento de formigas e transformá-las em “zumbis” possui uma fase até então desconhecida de seu ciclo de vida. O estudo identificou que organismos do gênero Ophiocordyceps também vivem escondidos no interior de musgos da Floresta Amazônica, além de infectarem insetos.
A descoberta foi feita a partir da análise de amostras coletadas na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, e foi publicada na revista científica IMA Fungus. Segundo os pesquisadores, o resultado amplia a compreensão sobre a biologia desses fungos e indica que a relação entre fungo, inseto e planta é mais complexa do que se imaginava.
Estágio oculto do fungo foi identificado em musgos
O gênero Ophiocordyceps reúne mais de 350 espécies de fungos capazes de infectar diversos insetos. Algumas delas são conhecidas por alterar o comportamento de formigas, levando os animais a abandonar a colônia, subir na vegetação e prender as mandíbulas em um ponto específico antes de morrerem. Esse comportamento, chamado de “mordida da morte”, favorece a dispersão dos esporos do fungo.
Ao analisar o DNA de musgos coletados na floresta, os cientistas encontraram o mesmo fungo presente tanto nos insetos infectados quanto nas plantas onde essas formigas realizam a mordida característica. A evidência indica que o organismo possui duas fases distintas: uma parasitando insetos e outra vivendo de forma endofítica, ou seja, dentro dos tecidos das plantas.

Em 2020, pesquisas realizadas na China já haviam demonstrado que uma espécie do mesmo gênero, O. sinensis, conhecido como “ouro do Himalaia”, podia viver de forma endofítica em plantas de regiões alpinas. O novo trabalho mostra que esse comportamento também ocorre em espécies capazes de manipular insetos, associando esse estágio oculto justamente às plantas utilizadas pelas formigas durante a infecção.
Análises de DNA reforçam a descoberta
A pesquisa utilizou a técnica de metabarcoding, que permite identificar simultaneamente o DNA de todos os fungos presentes em uma amostra ambiental.
Os resultados revelaram que o Ophiocordyceps estava presente não apenas nas formigas infectadas, mas também de forma consistente nos musgos ao redor, inclusive em plantas localizadas a mais de 10 metros de qualquer inseto parasitado.
Os pesquisadores também verificaram que linhagens altamente especializadas do fungo, como O. camponoti-nidulantis, que infecta Camponotus nidulans, e O. kniphofioides, associado à espécie Cephalotes atratus, também estavam abrigadas em briófitas presentes na vegetação.
Relação entre fungo, formiga e planta pode ser mais complexa
Segundo os autores, a descoberta modifica a compreensão sobre o ciclo de vida desses fungos e sobre as estratégias utilizadas para sobreviver e evoluir. A associação com plantas pode permitir que o organismo permaneça no ambiente durante períodos em que há escassez de insetos hospedeiros.
Tales Alves Jr., biólogo, mestre em Botânica pelo INPA e autor principal do estudo, explicou ao Phys.org que os resultados mostram que o fungo parece estar amplamente distribuído nas comunidades de musgos ao redor das formigas manipuladas, indicando uma ligação muito mais próxima entre os ciclos de vida das plantas e dos fungos envolvidos nesse processo.
Já João Paulo Machado de Araújo, coautor do trabalho e pesquisador do Museu de História Natural da Dinamarca, da Universidade de Copenhague, afirma que a manipulação comportamental causada pelo Ophiocordyceps pode não depender apenas da interação entre fungo e formiga, mas de uma relação mais ampla envolvendo também a planta onde o fungo permanece silenciosamente como um endófito.
O fungo estudado é o mesmo que inspirou The Last of Us?
O fungo analisado na pesquisa pertence ao gênero Ophiocordyceps, da mesma ordem do gênero Cordyceps, nome que se popularizou entre o grande público por causa da franquia The Last of Us. Durante muitos anos, espécies hoje classificadas como Ophiocordyceps eram incluídas no gênero Cordyceps, até serem reclassificadas com base em análises genéticas.
Foi esse grupo de fungos parasitas que serviu de inspiração para o organismo fictício nos jogos e na adaptação para a TV da HBO. Na natureza, entretanto, essas espécies são especializadas em infectar principalmente insetos, como formigas, e não seres humanos.
O post Fungo que transforma formigas em “zumbis” também vive em musgos da Amazônia apareceu primeiro em Olhar Digital.