Fusão nuclear: como funciona a tecnologia que pode transformar a energia — e o papel do Brasil nessa corrida

Fusão nuclear: como funciona a tecnologia que pode transformar a energia — e o papel do Brasil nessa corrida

A fusão nuclear é considerada uma das maiores promessas para o futuro da energia. Capaz de gerar quantidades gigantescas de eletricidade com baixo impacto ambiental e alto nível de segurança, ela está no centro de uma corrida tecnológica global que envolve governos, universidades e empresas privadas. Apesar do potencial, ainda enfrenta desafios científicos importantes antes de se tornar uma realidade comercial.

Como funciona a fusão nuclear

A fusão nuclear é o processo em que dois núcleos atômicos leves se unem para formar um núcleo mais pesado, liberando uma enorme quantidade de energia — o mesmo fenômeno que alimenta o Sol e todas as estrelas.

Como explica o físico Gustavo Canal, professor da USP, em entrevista ao Olhar Digital, trata-se do processo inverso ao das usinas nucleares atuais: em vez de quebrar átomos pesados (fissão), a fusão une átomos leves. Segundo ele, “ao invés de você pegar um núcleo grande e partir em dois pequenos, você pode pegar dois núcleos pequenos, por exemplo de hidrogênio, e fundi-los para gerar um núcleo maior”. O resultado é impressionante: por quilograma de combustível, a fusão libera cerca de 3 a 4 vezes mais energia do que a fissão — e milhões de vezes mais do que os combustíveis fósseis.

Para que isso aconteça, é necessário vencer a repulsão natural entre os núcleos, que possuem carga positiva. No interior do Sol, essa condição é garantida pela enorme força gravitacional. Já na Terra, cientistas precisam recriar artificialmente esse ambiente — o que exige temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius.

Na imagem, uma estrela comum, como o Sol, que gera energia por fusão nuclear. – Crédito: Nazarii_Neshcherenskyi – Shutterstock

Nessas condições, a matéria entra em um estado chamado plasma, um gás extremamente quente e carregado eletricamente. O grande desafio é manter esse plasma estável e sem contato com qualquer superfície sólida.

Canal explica que isso só é possível com tecnologia sofisticada: “nós temos que dominar plasmas muito quentes (…) usamos campos magnéticos fortíssimos para conter esses plasmas em uma câmara de vácuo; o plasma não toca essa parede em momento algum”.

Outro fator decisivo é o combustível. O deutério pode ser extraído da água do mar, enquanto o trítio pode ser produzido a partir do lítio, o que torna a fusão uma fonte praticamente inesgotável de energia.

Os desafios da fusão nuclear

Transformar esse potencial em realidade comercial ainda é um desafio científico e tecnológico complexo. O principal obstáculo está em reproduzir e manter as condições extremas necessárias para a fusão.

Além das temperaturas elevadíssimas, o controle do plasma é uma das maiores dificuldades. Pequenas instabilidades podem comprometer todo o sistema.

Como destaca Canal, “quando você tenta aumentar a temperatura do plasma, a pressão acaba aumentando (…) o problema é que uma ejeção massiva desse gás tem o poder de destruir as paredes do reator”. Segundo ele, essas instabilidades ainda não são totalmente compreendidas pela física atual.

Outro desafio central é alcançar o chamado “ganho energético líquido” de forma sustentável — ou seja, produzir mais energia do que a necessária para iniciar e manter a reação por longos períodos. Um marco importante foi alcançado em dezembro de 2022, quando o National Ignition Facility (NIF), nos Estados Unidos, obteve pela primeira vez ganho energético líquido em um experimento de fusão por confinamento inercial. Desde então, o resultado foi repetido e aperfeiçoado, mas ainda está longe de uma operação contínua e comercial.

fusão nuclear
Marco de ignição da National Ignition Facility impulsiona o desenvolvimento – Imagem: Divulgação

Há também obstáculos de engenharia, como o desenvolvimento de materiais capazes de suportar condições extremas, e desafios econômicos, já que os projetos exigem investimentos bilionários e infraestrutura altamente especializada.

A corrida global — e o papel do Brasil

A fusão nuclear deixou de ser apenas um tema acadêmico e passou a ocupar o centro de uma nova corrida tecnológica global. Mais de 50 países investem na área, enquanto projetos como o ITER, na França — atualmente em construção e com operação completa prevista para a década de 2030 — tentam demonstrar a viabilidade da tecnologia em larga escala.

Nos últimos anos, o setor privado passou a acelerar esse processo. O investimento global em startups de fusão já ultrapassa US$ 7 bilhões, e mais de 50 empresas disputam o desenvolvimento do primeiro reator comercial.

Canal resume esse momento como uma mudança de paradigma: “virou uma nova corrida espacial, só que agora tudo sendo feito com recursos privados”, com gigantes da tecnologia investindo bilhões de dólares.

Entre as empresas mais avançadas está a Commonwealth Fusion Systems (CFS), ligada ao MIT, que aposta em reatores compactos com ímãs supercondutores de alta temperatura e planeja construir o primeiro reator comercial chamado SPARC. Já a TAE Technologies segue uma abordagem alternativa, com reatores lineares e uso de inteligência artificial. A Helion Energy, por sua vez, trabalha com reatores modulares e já firmou acordos para fornecer energia à rede elétrica nos próximos anos.

Commonwealth Fusion Systems (CFS) a
Teste de bobina no Commonwealth Fusion Systems (CFS) – Imagem: Divulgação

Além das empresas, governos também ampliaram seus investimentos, com programas bilionários nos Estados Unidos, Europa e Ásia. A China, por exemplo, tem investido pesadamente e opera o EAST (tokamak supercondutor avançado experimental), que recentemente alcançou recordes de duração de plasma.

No Brasil, o cenário ainda é mais restrito e concentrado no setor público. “Aqui no Brasil é puramente público (…) não temos nenhuma empresa apostando em fusão”, afirma Canal.

Mesmo assim, o país possui ativos importantes. O Brasil abriga três tokamaks — equipamentos usados para estudar plasmas — incluindo o TCABR, na USP, que é o único tokamak em operação no Hemisfério Sul.

Tokamak
Tokamak TCABR no Laboratório de Física de Plasmas do IFUSP. – Foto: Malu Tippi

Para estruturar a área, foi criado o Programa de Fusão Nuclear (vinculado ao MCTI e à Rede Nacional de Fusão Nuclear), que busca formar especialistas, construir infraestrutura e estimular o surgimento de empresas no setor.

Por que a fusão é uma aposta para o futuro

O interesse global pela fusão nuclear está ligado às suas vantagens em relação às fontes atuais de energia.

Uma das principais é a segurança. Diferentemente da fissão, a fusão não gera reações em cadeia fora de controle. Como explica Canal, “usinas de fusão são intrinsecamente seguras (…) o máximo que pode acontecer é o plasma apagar”.

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Outro ponto fundamental é o impacto ambiental. A fusão não emite gases de efeito estufa e não produz resíduos radioativos de longa duração (embora alguns materiais do reator possam se tornar ativados pelos nêutrons gerados, exigindo gerenciamento). Seu principal subproduto direto é o hélio.

A abundância de combustível também reforça esse potencial. “Quando você pega o volume absoluto do oceano, é um reservatório virtualmente infinito”, diz o pesquisador ao se referir ao deutério presente na água do mar.

“Sol artificial coreano”: o reator de fusão KSTAR (sigla em inglês para Pesquisa Avançada de Tokamak Supercondutor da Coreia). – Crédito: Instituto Coreano de Energia de Fusão (KFE)

A tecnologia também pode mudar o modelo de geração de energia, com reatores menores e descentralizados. Segundo Canal, “se você tiver reatores de fusão de pequeno porte (…) você produz aonde você consome”.

Diante disso, ele resume o impacto esperado: “vai ser algo disruptivo na humanidade. Vai ser um divisor de águas”.

Uma tecnologia em construção

Apesar dos avanços — incluindo o histórico ganho energético líquido do NIF em 2022 — a fusão nuclear ainda é um dos maiores desafios da engenharia do século XXI. A expectativa é que as primeiras usinas comerciais entrem em operação entre 2040 e 2050, embora empresas privadas como a CFS e a Helion Energy tentem antecipar esse prazo para o final dos anos 2020 ou início dos 2030.

Laboratório Nacional Lawrence Livermore
National Ignition Facility (NIF) nos EUA alcançou um marco histórico na fusão nuclear ao conseguir “ignição” pela primeira vez – Imagem: Laboratório Nacional Lawrence Livermore

Enquanto isso, o desenvolvimento da fusão já gera efeitos concretos, impulsionando tecnologias como supercondutores, novos materiais e sistemas avançados de energia.

No Brasil, o avanço nessa área pode representar mais do que uma nova fonte energética: pode ser uma oportunidade estratégica de inserção em uma indústria global de alta tecnologia.

Se os desafios forem superados, a fusão nuclear pode redefinir a forma como o mundo produz energia — oferecendo uma fonte limpa, segura e praticamente inesgotável para as próximas gerações.

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