Grupo de WhatsApp com 500 engenheiros ajuda a guiar resgate no Nepal

Grupo de WhatsApp com 500 engenheiros ajuda a guiar resgate no Nepal

A Nepal Electricity Authority confirmou nesta sexta-feira (04) o resgate com vida de duas pessoas presas em um túnel da usina hidrelétrica Upper Trishuli 3A, nove dias após uma enchente destruir parte do vale de Trishuli. Uma das vítimas relatou que pode haver mais sobreviventes nos túneis.

O resgate foi possível, em parte, graças a um grupo de WhatsApp criado por engenheiros antes da tragédia. A ferramenta se tornou peça-chave nas buscas, ao lado de helicópteros e máquinas pesadas, segundo apurou a Reuters.

Grupo já reunia especialistas antes da tragédia

A enchente – provocada pelo colapso de uma geleira – atingiu o vale de Trishuli em 26 de agosto. Ela arrastou um volume de 2,2 milhões de toneladas entre lama, rochas e detritos.

Seis usinas hidrelétricas foram atingidas, três delas ainda em construção. Cerca de 900 trabalhadores dessas usinas seguem no total de desaparecidos.

O grupo de WhatsApp, formado antes do desastre, foi ampliado para incluir mais especialistas de apoio ao resgate. Hoje reúne mais de 500 membros, segundo mensagens vistas pela Reuters.

Em um exemplo obtido pela reportagem, um funcionário do governo pediu no sábado (30) plantas da usina de Chilime. Minutos depois, um integrante do grupo enviou os desenhos da casa de força e detalhes dos túneis de acesso.

Buscas em Chilime e Rasuwagadhi continuam

A Associação Independente de Produtores de Energia do Nepal informou na segunda-feira (31) que ao menos oito pessoas podem estar presas em Chilime. Um funcionário da Nepal Electricity Authority afirmou que outras 46 podem estar presas na usina de Rasuwagadhi.

Em Rasuwagadhi, equipes avançaram 250 metros dentro de um túnel antes de encontrá-lo bloqueado. Amshu Kiran Shahi, membro do conselho da Nepal Electricity Authority, disse à Reuters que as tentativas continuam.

“Estamos tentando entrar novamente para procurar as pessoas”, afirmou Shahi, acrescentando que os 46 trabalhadores podem estar em uma câmara com acesso a comida e água.

O porta-voz do Exército nepalês, Raja Ram Basnet, disse à Reuters que a enchente alterou o terreno ao redor dos túneis. “A lama, rochas, solo e outros detritos se acumularam dentro deles (…) Este não é um fechamento normal de túneis”, afirmou.

Relatos de quem escapou pelos túneis

Na usina Upper Trishuli 1, o engenheiro civil Jan Jiwan Thakur contou à Reuters que um colega o avisou da enchente segundos antes de ela atingir o local. Ele e cerca de 100 pessoas conseguiram subir a um ponto mais alto.

“Só corremos em direção à encosta e, depois de dois ou três minutos, quando olhamos para baixo, tudo tinha sumido”, disse Thakur. “Os detritos da enchente cobriram totalmente a área do nosso escritório.”

Dhan Bahadur Tamang escapou por um túnel no momento em que a água invadiu o local, arrastando tubos e equipamentos. Ele contou à Reuters ter visto corpos durante a fuga pelo sistema subterrâneo.

No grupo de WhatsApp, integrantes também compartilharam nomes e números de telefone de desaparecidos, pedindo a funcionários do governo que os repassassem às operadoras de telecomunicações para tentar localizar a última posição registrada dos aparelhos.

Mais de 1.200 mortos e 4 mil desaparecidos

A enchente já matou mais de 1.200 pessoas no Nepal e deixou mais de 4 mil desaparecidas, incluindo trabalhadores que podem estar presos em túneis.

Entre eles está Rajish Shrestha, engenheiro ambiental de 30 anos que trabalhava na usina Upper Trishuli 1. Seu pai, Rajesh Shrestha, aguarda notícias.

“Sempre que olho para fora, imagino vê-lo carregando uma mochila e voltando para casa, como costumava fazer”, disse Shrestha à Reuters. “Estou sobrevivendo com a esperança de que ele volte.”

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