Por trás de praticamente toda a tecnologia moderna, há um componente muitas vezes invisível ao consumidor final, mas que passou a concentrar uma disputa global silenciosa: os chips. Essenciais para smartphones, carros, sistemas de inteligência artificial (IA) e até aplicações militares, esses semicondutores deixaram de ser apenas peças da indústria para se tornarem ativos estratégicos.
Nos últimos anos, a combinação entre alta demanda, produção concentrada em poucos países e tensões geopolíticas transformou essa cadeia em um ponto de pressão entre governos e empresas. A indústria de semicondutores já movimenta centenas de bilhões de dólares por ano e deve ultrapassar a marca de US$ 1 trilhão na próxima década, impulsionada principalmente por inteligência artificial e computação avançada — um movimento que ajuda a explicar o aumento da disputa global pelo setor.

Na prática, essa mudança fez com que chips passassem a ser comparados a recursos estratégicos de outras épocas. O jornal Le Monde, por exemplo, descreve os semicondutores como o “petróleo do século 21”, pela centralidade que passaram a ter na economia digital e na geopolítica.
Como começou a guerra dos chips?
Em 2021, montadoras ao redor do mundo começaram a interromper linhas de produção por um motivo inesperado: falta de chips. Foi esse impacto, concreto e global, que trouxe os semicondutores para o centro do debate estratégico.
Mas a disputa atual não surgiu apenas por causa da pandemia de Covid-19. Durante décadas, a produção foi organizada como uma cadeia global altamente integrada, com diferentes países especializados em etapas específicas do processo. Esse modelo priorizava eficiência e redução de custos, permitindo que empresas distribuíssem design, fabricação e montagem em diferentes regiões do mundo.

Com o tempo, os semicondutores passaram a ser vistos não apenas como produtos industriais, mas como infraestrutura crítica. A crescente dependência de tecnologias digitais, somada ao avanço da inteligência artificial, elevou o peso estratégico dos chips e expôs a concentração da produção em poucos polos.
O que está acontecendo é uma demanda absurda no mundo, especialmente de 2022 para cá, com a chegada da inteligência artificial. Nós já vínhamos de um desbalanceamento entre demanda e oferta por causa da pandemia. Quando isso caminhava para uma normalização, chegou a inteligência artificial e aí tivemos uma explosão. A demanda computacional no mundo aumentou numa razão de 100 para 1 de 2022 para cá — quem falou isso foi a CEO da AMD.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação
A virada da geopolítica
A disputa por semicondutores passou a ganhar contornos mais claros de competição entre países e empresas. A concentração da produção em poucos polos industriais e a dificuldade de ampliar rapidamente a oferta reforçaram a percepção de que o acesso aos chips também envolve poder de mercado e influência estratégica.
A Nvidia se tornou um dos principais símbolos desse ciclo recente. A empresa é hoje a mais valiosa do mundo, com valor de mercado em torno de US$ 4,8 trilhões. Em menos de dois anos, saiu da marca de US$ 1 trilhão em 2023 para mais do que triplicar esse valor, impulsionada pela demanda por processamento para inteligência artificial.
Existe essa guerra por quem consegue comprar. E do outro lado, não é fácil aumentar a oferta. São fábricas ultra especializadas em pouquíssimas partes do mundo. E é preciso lembrar também que algumas empresas, como a NVIDIA, têm muita cautela na expansão dessa oferta para o mercado, justamente para não causar o efeito contrário. Num determinado momento, ter um choque de preços para baixo e isso prejudicar as suas margens.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

Paralelamente, tensões entre Estados Unidos e China passaram a se refletir diretamente na indústria. Nos últimos anos, o governo americano adotou restrições para limitar o acesso chinês a tecnologias avançadas, especialmente equipamentos e softwares usados na produção de chips de ponta.
Esse cenário marcou uma virada: o que antes era uma disputa comercial passou a ser tratado como questão estratégica. A partir daí, governos passaram a considerar os semicondutores como tema de segurança nacional, com políticas industriais mais agressivas e iniciativas voltadas a reduzir a dependência externa.
Como funciona a cadeia global de semicondutores?
Para entender por que os semicondutores se tornaram um ponto de disputa global, é preciso olhar para a forma como são produzidos. Diferentemente de outras indústrias, a fabricação de chips não acontece em um único lugar nem é controlada por um único país. Trata-se de uma cadeia altamente fragmentada, com etapas distribuídas globalmente e interdependentes entre si.
De forma simplificada, o processo começa no design, etapa em que empresas desenvolvem a arquitetura dos chips. Em seguida vem a fabricação, considerada a fase mais complexa, na qual os circuitos são gravados em lâminas de silício em escala nanométrica. Por fim, os componentes passam por montagem, testes e integração antes de chegarem aos produtos finais.
Eu gosto de explicar uma coisa que, normalmente, o leigo não percebe claramente nesse processo de fabricação de semicondutores. Na verdade, a gente classifica em três grandes etapas: primeiro, o projeto do semicondutor em si; depois vem a questão que a gente chama de front-end, a parte da fabricação em si do chip. Essa é a etapa mais complexa, mais cara e mais difícil; e, por fim, a parte final do processo, que é o encapsulamento.
Augusto Gadelha, presidente do CEITEC

Esse modelo global foi construído ao longo de décadas com base em especialização e ganhos de eficiência.
Foi ficando tão caro que acabou se tornando uma etapa terceirizada. No início da indústria, empresas como a HP e a AT&T tinham suas próprias fábricas, mas os custos cresceram muito. Então, grandes companhias começaram a terceirizar esse serviço. Taiwan, com o instituto local ITRI, viu essa oportunidade e recebeu investimento do governo para desenvolver essa capacidade. Com o tempo, o processo evoluiu a ponto de as empresas já não dominarem aquilo que tinham terceirizado, porque a indústria avançou rapidamente. Isso levou à centralização em Taiwan e, no caso das memórias, principalmente na Coreia. Foi uma questão econômica.
Edelweis Ritt, Diretora de Negócios do CEITEC
Cada etapa exige capacidades técnicas específicas e alto nível de especialização, o que torna o processo difícil de ser concentrado em um único país ou empresa.
Essa divisão é estrutural. Produzir chips exige investimentos bilionários, anos de desenvolvimento tecnológico e acesso a conhecimentos altamente especializados. Além disso, algumas etapas dependem de equipamentos e processos difíceis de replicar.
Na prática, mesmo as maiores potências ainda dependem de parceiros externos em algum ponto da cadeia, o que reforça a fragmentação estrutural desse modelo.
A cadeia de semicondutores não é, de fato, um ecossistema. O que existe é o contrário: um funil com dois gargalos, um representado pela ASML e outro pela TSMC. A ASML é uma empresa holandesa responsável por um processo fundamental que envolve equipamentos altamente específicos e protegidos por patentes bem definidas, como espelhos da Zeiss, peças japonesas e outros componentes de alta complexidade. Ela atua na litografia ultravioleta, etapa central do processo de “etching”, ou gravação, nas placas de silício, que permite a inserção dos semicondutores em escalas nanométricas.
Álvaro Machado Dias, neurocientista, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital
Esse desenho da cadeia ajuda a explicar a concentração de poder tecnológico em etapas específicas do processo.
Por que é tão difícil fabricar chips avançados?
A dificuldade de produzir semicondutores não está apenas na complexidade do processo, mas no nível de precisão exigido. Os chips mais avançados são construídos em escalas nanométricas, o que significa trabalhar com estruturas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo.
Produzir semicondutores, principalmente os de fronteira, os mais avançados, é um processo que requer conhecimento tecnológico muito avançado e recursos humanos extremamente bem treinados. E é um processo extremamente caro, porque o maquinário necessário é de alta complexidade e muito caro.
Augusto Gadelha, presidente do CEITEC

Grande parte dessa complexidade está na litografia, considerada o coração da fabricação. É nesse processo que os circuitos são gravados sobre o silício com o uso de feixes de luz extremamente precisos.
Na prática, isso envolve algumas das máquinas mais sofisticadas já criadas. Um exemplo é o equipamento de litografia ultravioleta extrema (EUV), utilizado na produção de chips de última geração. Essas máquinas podem ter o tamanho de um ônibus e custar centenas de milhões de dólares, além de depender de componentes vindos de diferentes países.
A produção dessas máquinas está concentrada em um número extremamente restrito de empresas, com destaque para a ASML, holandesa, que se tornou peça-chave nesse cenário ao fornecer tecnologias que poucos países conseguem reproduzir.
Nos últimos anos, o acesso a esses equipamentos se tornou alvo direto de disputas geopolíticas, com pressões por restrições na exportação dessas máquinas devido ao papel crítico que desempenham na fabricação de chips avançados.
Além disso, a construção de fábricas de semicondutores exige investimentos que podem ultrapassar dezenas de bilhões de dólares e levar anos até atingir maturidade operacional. Mesmo com recursos financeiros, ainda é necessário desenvolver conhecimento técnico, formar mão de obra especializada e garantir acesso a uma rede global de fornecedores.
Essa combinação cria uma barreira de entrada extremamente alta. Países podem avançar em partes da cadeia, mas reproduzir todo o ecossistema continua sendo um desafio de longo prazo.
Quem está na frente nessa disputa?
Apesar de frequentemente ser tratada como uma disputa entre países, a liderança na indústria de semicondutores é fragmentada e distribuída entre diferentes regiões e empresas.
Os Estados Unidos ocupam posição central, especialmente no design de chips e no desenvolvimento de softwares e tecnologias essenciais para o setor. Também concentram empresas importantes no avanço de áreas estratégicas, como inteligência artificial.
Já a produção dos chips mais avançados está concentrada principalmente na Ásia. Taiwan se consolidou como o principal polo global nesse segmento. A TSMC, maior fabricante de semicondutores do mundo, é responsável por uma parcela significativa da produção de chips mais avançados.

Essa concentração tem implicações diretas na geopolítica. A posição de Taiwan, próxima à China e em um contexto de tensões regionais, faz com que qualquer instabilidade na região seja vista como um risco global para a cadeia de tecnologia.
A Coreia do Sul também ocupa posição relevante, especialmente na produção de memórias, fundamentais para data centers e dispositivos eletrônicos.
A Europa, por sua vez, exerce influência em etapas específicas, sobretudo na produção de equipamentos críticos para a indústria. Esse papel garante relevância estratégica mesmo sem liderança na fabricação em larga escala.
Enquanto isso, a China tenta reduzir sua dependência externa por meio de investimentos massivos e políticas industriais. Apesar dos avanços, o país ainda enfrenta limitações tecnológicas em etapas mais avançadas, em parte devido a restrições no acesso a equipamentos e tecnologias estrangeiras.
Os embargos foram adotados sob a seguinte premissa: sem capacidade de hardware adequada, os chineses não seriam capazes de construir grandes LLMs e competir na inteligência artificial pensada como infraestrutura do futuro. A questão central é que, em geral, a IA generativa e os LLMs são entendidos a partir de aplicações como texto, imagem ou vídeo, incluindo modelos de difusão. No entanto, essa não é a única forma de enxergar esse sistema, nem necessariamente a mais adequada.
Álvaro Machado Dias, neurocientista, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital
Na avaliação do especialista, os limites impostos pelos embargos não se restringem apenas à produção de chips, mas afetam diretamente a capacidade de desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, ele observa que, apesar do atraso na infraestrutura de hardware, a China tem avançado em modelos de IA e estratégias de mercado, o que mantém a disputa em aberto e amplia a complexidade dessa corrida tecnológica.
Todo esse cenário ajuda a explicar por que, além dos países, grandes empresas de tecnologia passaram a ocupar um papel central nessa disputa, com influência direta sobre a capacidade de inovação e produção global.
Eu não tenho dúvida que esse poder está na mão das empresas. Essas empresas se tornaram mais relevantes do que a maior parte dos Estados-nação do mundo. Elas atuam sem fronteiras, têm uma influência e uma importância colossal e, até o momento, com baixa regulação, com baixa capacidade de intervenção governamental.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação
Onde o Brasil entra nisso?
Embora a disputa por semicondutores seja liderada por Estados Unidos, China e países asiáticos, o Brasil também aparece nesse cenário — principalmente nas bordas da cadeia produtiva.
Hoje, o país não participa da fabricação de chips avançados, a etapa mais estratégica da indústria, que concentra os maiores investimentos e as principais barreiras tecnológicas.
Ainda assim, há espaço em segmentos menos intensivos em capital. Um dos principais é o design de semicondutores, que exige conhecimento técnico, mas não depende da mesma infraestrutura industrial das fábricas.
No Brasil, temos várias casas que chamamos de design houses, que são voltadas ao projeto de semicondutores. Mas é necessário fabricar os semicondutores, e essa etapa hoje precisa ser feita fora do país.
Augusto Gadelha, presidente do CEITEC
Além do design, o país também atua em etapas como encapsulamento e testes, que, embora menos intensivas em capital, continuam sendo essenciais para a cadeia.
A gente conseguiu ter uma indústria aqui de semicondutores na parte de encapsulamento. Temos três ou quatro players, e a indústria aqui no Brasil já fatura alguns bilhões de reais. O interesse aqui seria trazer mais investimento para o Brasil, que o Brasil também seja uma alternativa.
Edelweis Ritt, Diretora de Negócios do CEITEC
Nesse contexto, o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC) trabalha para desenvolver capacidade de fabricação de semicondutores de potência, voltados a aplicações como eficiência energética e eletrônica industrial.
Ao mesmo tempo, o Brasil se posiciona como mercado consumidor relevante, impulsionado pela digitalização da economia e pelo avanço de áreas como inteligência artificial e mobilidade elétrica.
Esse cenário coloca o país em uma posição intermediária: com presença em etapas específicas, mas ainda distante dos centros de decisão tecnológica. Avanços mais amplos dependem de políticas industriais consistentes, investimento de longo prazo e integração com cadeias globais.
Por que essa disputa importa agora?
A disputa por semicondutores ganhou urgência porque os chips se tornaram a base de tecnologias estratégicas. O avanço da inteligência artificial aumentou a demanda por componentes de alto desempenho, enquanto setores como defesa, energia e infraestrutura digital passaram a depender diretamente desses sistemas.

Os chips se tornaram uma espécie de máquinas extratoras de dados. Não adianta só ter o petróleo — ele precisa se transformar, precisa ser refinado, precisa ser transportado e utilizado. E é isso que a IA faz, e a IA só existe com essa utilização dos chips.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação
Esse movimento é visível na expansão de data centers e no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial cada vez mais complexos, que exigem grande capacidade de processamento e, consequentemente, chips mais avançados.
A escassez recente de chips evidenciou esse impacto. A falta desses componentes afetou cadeias produtivas inteiras, interrompendo linhas de produção e reduzindo a oferta de produtos em diversos setores.
Diante desse cenário, governos passaram a adotar políticas mais agressivas para reduzir dependências externas. Incentivos à produção local, restrições à exportação de tecnologias e acordos estratégicos entre países se tornaram mais frequentes.
Esse movimento também influencia o ritmo de inovação. A fragmentação da cadeia pode estimular investimentos, mas também cria barreiras e limita o acesso a tecnologias. Em um ambiente mais competitivo, garantir acesso a chips se tornou um fator central para o desenvolvimento econômico e tecnológico.
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Uma disputa em aberto
A “guerra dos chips” ainda está longe de um desfecho claro. Apesar dos investimentos bilionários e das tentativas de reduzir dependências, a indústria continua baseada em uma rede global altamente interligada, difícil de substituir no curto prazo.
Ao mesmo tempo, a tendência de fragmentação avança. Países buscam fortalecer suas próprias cadeias produtivas, enquanto impõem restrições e tentam controlar o acesso a tecnologias estratégicas.
Isso levanta uma questão que permanece em aberto: até que ponto é possível conciliar autonomia tecnológica com um setor que depende, por natureza, da colaboração global?
Toda essa disputa pelos chips é sinal dos tempos. A inteligência artificial é que é a culpada disso tudo. É uma revolução que tem uma escala que a gente ainda nem consegue compreender e que está acontecendo, de fato, num espaço de tempo que nunca aconteceu antes. Talvez seja a maior transformação tecnológica que a humanidade já viveu num horizonte de meses, não de décadas.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação
No centro desse cenário, os chips deixam de ser apenas componentes invisíveis para se tornarem instrumentos de poder — e, à medida que novas tecnologias avançam, essa disputa tende a se intensificar.
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