Macacos e outros primatas criam vínculos com animais de outras espécies?

Macacos e outros primatas criam vínculos com animais de outras espécies?

Ter um animal de estimação pode parecer um comportamento exclusivamente humano. Afinal, manter outro animal por perto, cuidar dele e estabelecer uma relação de companhia exige uma combinação de tolerância, interação social e cuidado que nem sempre é observada entre espécies diferentes.

Um novo estudo publicado mês passado na revista Primates sugere, porém, que alguns dos comportamentos envolvidos nessas relações podem se estender para outros animais. Os pesquisadores fizeram a primeira revisão abrangente de interações sociais entre macacos, primatas e animais de outras espécies e encontraram exemplos de aproximação, brincadeiras e cuidados.

Para quem tem pressa:

  • Pesquisadores analisaram 427 registros de interações entre primatas e outras espécies, envolvendo 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras;
  • Brincadeiras e cuidados de higiene foram os comportamentos mais frequentes, enquanto fêmeas adultas apresentaram maior tendência a interações afiliativas.
  • Os resultados sugerem que alguns comportamentos ligados à convivência entre humanos e animais podem ter raízes evolutivas mais antigas, mas os autores ressaltam que o estudo não demonstra que primatas tenham animais de estimação como os humanos.

Interações revelam como primatas se relacionam com outras espécies

Macaco cuida de cachorro
Macaco “cuida” de cachorro – Imagem: djisagar87/Shutterstock

Para montar o levantamento, a equipe combinou informações de artigos científicos, registros em fotos e vídeos e respostas de pesquisadores especializados em primatologia.

Ao todo, foram reunidas 427 observações. Desse conjunto, 303 vieram da literatura científica, 58 de imagens e vídeos e 66 de um questionário enviado a pesquisadores. Os registros envolveram 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, sendo 72 outros primatas e 55 espécies não primatas.

Os animais foram observados em diferentes situações, tanto na natureza quanto em ambientes controlados. Entre os 17 tipos de comportamento identificados, os mais frequentes foram brincadeiras, com 139 registros, e cuidados de higiene, com 136.

As interações incluíram ainda contato corporal, carregamento, proximidade, abraços, compartilhamento de alimentos e outras formas de aproximação. Em 219 casos foi possível determinar quem iniciou a interação: em 66% deles, o próprio primata tomou a iniciativa.

Alguns exemplos chamam atenção. Há registros de macacos-prego cuidando de outros primatas, macacos interagindo com cães, macacos-japoneses andando sobre cervos e jovens macacos brincando com porcos domésticos. Em um caso registrado no Brasil, uma macaca-prego adotou e amamentou um filhote de sagui.

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Comportamento pode ajudar a entender a origem dos animais de estimação

A pesquisa também encontrou diferenças de acordo com idade e sexo. Fêmeas adultas apresentaram maior probabilidade de participar de interações afiliativas do que machos adultos. Já os indivíduos mais jovens eram mais propensos a brincar, enquanto as fêmeas adultas apareciam com maior frequência em interações de cuidado e higiene.

Para os autores, essas relações podem ajudar a investigar quais características comportamentais contribuíram, ao longo da evolução, para contatos semelhantes aos que os humanos estabeleceram com animais.

Isso não significa que os primatas estudados mantenham animais de estimação no mesmo sentido que os humanos. O próprio estudo excluiu relações entre humanos e animais e destaca que muitas das interações observadas podem ter surgido por razões ecológicas, como alimentação, proteção contra predadores ou simplesmente pela proximidade entre as espécies.

Além disso, os pesquisadores reconhecem limitações importantes. O conjunto de dados reúne fontes com diferentes níveis de confiabilidade e pode favorecer casos mais raros ou visualmente chamativos. Por isso, a pesquisa deve ser vista como um ponto de partida para novas hipóteses, e não como uma estimativa de quão comum é esse comportamento entre primatas.

A principal conclusão é, portanto, mais ampla: a tendência de estabelecer relações sociais positivas com animais de outras espécies pode não ser uma característica exclusivamente humana. Investigar esses comportamentos em outros primatas pode ajudar a entender melhor como surgiram as bases evolutivas da convivência entre humanos e animais.

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