Mamíferos podem ter capacidade adormecida de regenerar membros, revelam estudos

Mamíferos podem ter capacidade adormecida de regenerar membros, revelam estudos

A ideia de que humanos não têm capacidade de regeneração de membros ou órgãos complexos sempre foi tratada como uma limitação biológica definitiva. Diferentemente de espécies como salamandras, que regeneram patas inteiras, ou certos peixes que recuperam barbatanas e até partes do coração, os mamíferos normalmente respondem a lesões com cicatrização.

No entanto, estudos publicados na revista Science sugerem que essa limitação pode não ser tão absoluta. As pesquisas indicam que os mamíferos podem ter capacidade de regeneração, que está adormecida nas condições em que vivemos.

O assunto foi tema de um artigo no site The Conversation, escrito por dois professores de biologia.

Eles defendem que, historicamente, acreditava-se que a regeneração dependia principalmente de fatores genéticos e que, ao longo da evolução, os mamíferos teriam perdido essa habilidade. Os novos dados apontam para um cenário mais complexo, no qual o ambiente ao redor das células desempenha papel central no tipo de resposta a uma lesão.

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Ao contrário de mamíferos, alguns anfíbios têm capacidade de regeneração – Imagem: PATRICK GLAUME / Shutterstock

Experimentos indicaram capacidade adormecida de regeneração em mamíferos

Em um dos estudos, cientistas analisaram a regeneração da ponta do dedo em camundongos – um dos poucos casos em que mamíferos apresentam algum grau de regeneração. Eles observaram que tecidos que cicatrizam tendem a ser mais rígidos e ricos em colágeno, enquanto tecidos regenerativos possuem uma matriz extracelular mais flexível, com maior presença de moléculas como o ácido hialurônico.

Ao alterar esse ambiente, estabilizando os níveis de ácido hialurônico, os pesquisadores conseguiram reduzir a formação de fibrose e estimular respostas regenerativas, inclusive em áreas onde esse processo normalmente não ocorre. O resultado reforça a hipótese de que a cicatrização pode ser consequência das condições do tecido, e não algo inevitável.

O segundo estudo abordou o tema sob a perspectiva da disponibilidade de oxigênio. Ao comparar tecidos de mamíferos com os de girinos de rã, que vivem em ambientes com menor oxigenação, os cientistas identificaram que baixos níveis de oxigênio ativam o fator HIF1A, associado à proliferação celular e à ativação de genes ligados à regeneração.

Já em ambientes com níveis normais de oxigênio, como ocorre em mamíferos terrestres, esses mecanismos permanecem inativos. Além disso, o oxigênio influencia alterações epigenéticas (modificações na estrutura do DNA que determinam quais genes ficam ativos ou silenciados).

Os experimentos foram realizados com tecidos embrionários em laboratório e permitiram ativar a regeneração em células de mamíferos. Não foi observada uma reconstrução completa das estruturas danificadas.

Estudo analisou o processo de regeneração em camundongos em laboratório
Estudo analisou o processo de regeneração em camundongos em laboratório – Imagem: Science/Reprodução

Descoberta pode ter impacto na medicina humana

Os dois estudos convergem para uma mesma conclusão: os mamíferos podem não ter perdido totalmente a capacidade de regenerar tecidos, mas sim deixado de ativá-la nas condições biológicas predominantes, que favorecem a cicatrização.

Essa mudança de entendimento abre novas possibilidades para a medicina regenerativa. Ao manipular fatores como rigidez do tecido, composição celular e níveis de oxigênio, pesquisadores vislumbram avanços em áreas como cicatrização sem formação de cicatrizes, regeneração óssea e tratamento de doenças associadas a falhas na reparação de tecidos, como diabetes.

Mas há ressalvas. Os resultados se baseiam em modelos experimentais e abordam etapas iniciais do processo regenerativo, sem demonstrar a recuperação completa de membros em mamíferos.

Mesmo com essas limitações, os achados sugerem que algumas barreiras biológicas consideradas definitivas podem, na prática, depender de condições que ainda não compreendemos completamente.

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