Um ensaio clínico randomizado de fase 2 avaliou o uso do medicamento teclistamab em pacientes com mieloma múltiplo latente de alto risco, uma alteração da medula óssea que pode anteceder o desenvolvimento do mieloma múltiplo, um tipo de câncer do sangue. Publicado na revista Nature Medicine, o estudo encontrou resposta completa em 77,8% dos pacientes tratados com o medicamento.
A pesquisa comparou o teclistamab com a combinação de lenalidomida e dexametasona (Rd). O grupo analisado tinha 59 pacientes que haviam completado pelo menos um ciclo de tratamento: 45 receberam teclistamab e 14 receberam a combinação Rd. No grupo do novo medicamento, 77,8% apresentaram desaparecimento dos marcadores da doença após o tratamento, enquanto nenhum paciente do grupo Rd teve esse resultado.
O que é o mieloma múltiplo?
Para entender o estudo, é preciso primeiro saber o que acontece no mieloma múltiplo. A doença começa nas células plasmáticas, que são células do sistema imunológico produzidas na medula óssea. Em condições normais, elas fabricam anticorpos, proteínas que ajudam o organismo a combater infecções.
No mieloma múltiplo, algumas dessas células se tornam anormais e passam a se multiplicar na medula óssea. Elas também produzem proteínas anormais, chamadas de proteínas do mieloma. Essas alterações podem prejudicar o funcionamento normal da medula e afetar outros órgãos.
Nos estágios iniciais, a doença pode não provocar sintomas claros. Conforme avança, porém, pode estar associada a problemas como enfraquecimento dos ossos, danos aos rins, anemia, aumento da quantidade de cálcio no sangue e maior vulnerabilidade a infecções.
O mieloma múltiplo pode ser tratado, mas a doença pode voltar depois do tratamento. Quando isso acontece, ela também pode se tornar resistente a medicamentos que funcionavam anteriormente. Por isso, os pesquisadores investigam estratégias que possam agir antes que a doença avance.
Onde entra o teclistamab?
O teclistamab já é utilizado para tratar pacientes com mieloma múltiplo que voltaram a apresentar a doença após tratamentos anteriores ou que desenvolveram resistência às terapias. O medicamento foi aprovado nos Estados Unidos e na União Europeia em 2022 para esses casos. No Brasil, o teclistamab possui registro da Anvisa para determinados casos de mieloma múltiplo recidivado ou refratário.
O remédio pertence a uma classe chamada anticorpos biespecíficos. Em termos simples, essas moléculas conseguem reconhecer dois alvos diferentes ao mesmo tempo. O teclistamab faz uma espécie de ligação entre as células T, que fazem parte do sistema de defesa do organismo, e proteínas encontradas nas células do mieloma.
Essa ligação ajuda as células T a identificar as células doentes e a participar da resposta do sistema imunológico contra elas. O estudo publicado agora investigou se esse mecanismo também poderia funcionar quando a doença ainda está em uma fase anterior.
Essa condição é chamada de mieloma múltiplo latente de alto risco (HR-SMM). Ela apresenta alterações associadas ao mieloma, mas ainda não corresponde ao estágio em que a doença provoca os problemas característicos do câncer desenvolvido.
O que o estudo encontrou?
Historicamente, pacientes com HR-SMM eram acompanhados sem tratamento imediato, uma estratégia conhecida como observação ou “espera vigilante”. A ideia era acompanhar a evolução da condição e iniciar o tratamento caso ela progredisse.
O estudo avaliou se tratar esses pacientes mais cedo poderia produzir respostas mais profundas. Depois de uma etapa inicial de segurança com seis pacientes, os pesquisadores chegaram a 64 participantes. Destes, 59 completaram pelo menos um ciclo e foram incluídos na análise.
Entre os 45 pacientes que receberam teclistamab, 77,8% tiveram resposta completa. Isso significa que, após o tratamento, não foram detectados os marcadores da doença considerados na definição de resposta completa utilizada pelo estudo.
No grupo de 14 pacientes que recebeu lenalidomida e dexametasona, a taxa de resposta completa foi de 0%.
O acompanhamento mediano dos participantes foi de 24,5 meses. Nesse período, 92% dos pacientes tratados com teclistamab permaneciam sem progressão da doença, enquanto esse índice era de 49% entre aqueles que receberam Rd.
Os pesquisadores também afirmaram que as taxas de resposta, a duração das respostas e o tempo até a progressão foram significativamente melhores entre os pacientes tratados com teclistamab. Segundo os autores, os resultados apontam para uma atividade importante do medicamento contra o HR-SMM, mas novos estudos ainda são necessários.
O post Medicamento elimina marcadores do câncer em 77,8% dos pacientes com condição que pode anteceder o mieloma apareceu primeiro em Olhar Digital.