Meio ambiente: reduzir emissões de metano pode ter efeito indesejado na camada de ozônio

Meio ambiente: reduzir emissões de metano pode ter efeito indesejado na camada de ozônio

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, para destacar a importância da preservação ambiental e alertar sobre problemas como poluição, desmatamento, perda de biodiversidade e o aumento das emissões de gases de efeito estufa, como o metano.

Um estudo publicado recentemente na revista Geophysical Research Letters analisou como a redução do metano pode influenciar não apenas o clima, como também a camada de ozônio. E não de forma positiva.

Aterro sanitário que emite muito metano
A decomposição de resíduos orgânicos em aterros libera metano, um gás com forte impacto no aquecimento global e na química atmosférica. – Créito: mbaysan – iStockPhotos

A diminuição desse gás é vista há anos como uma das estratégias mais rápidas de reduzir o aquecimento global, já que ele tem forte impacto no efeito estufa, contribui para o aquecimento de curto prazo e está ligado a atividades como exploração de petróleo e gás, agropecuária e aterros sanitários. 

Além disso, cortar essas emissões também melhora a qualidade do ar em grandes cidades e regiões industriais. No entanto, as simulações feitas por uma equipe de pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido, indicam que esse benefício climático pode vir acompanhado de efeitos inesperados na atmosfera superior, afetando outro sistema essencial de proteção do planeta.

Menos metano pode atrasar a recuperação do ozônio

Segundo os pesquisadores, quando o metano diminui, ocorrem mudanças na química das altas camadas da atmosfera. Dois grupos de gases que também afetam a camada de ozônio passam a agir de forma mais intensa, acelerando a destruição desse escudo natural que protege a Terra da radiação ultravioleta. Esse processo ocorre principalmente na estratosfera, onde pequenas alterações na composição química podem gerar impactos em cadeia.

Entre esses gases estão os halocarbonos, substâncias industriais associadas ao antigo buraco na camada de ozônio, e o óxido nitroso, liberado principalmente pela agricultura e pelo uso de fertilizantes. Em condições com menos metano, esses compostos se tornam mais reativos, aumentando sua capacidade de degradar o ozônio. Isso acontece porque o metano também participa de reações químicas que ajudam a limitar parte da ação destrutiva desses poluentes na alta atmosfera.

Quando o metano diminui, gases da alta atmosfera intensificam a destruição da camada de ozônio, reduzindo a proteção natural do planeta. – Crédito: NASA Ozone Hole Watch

Para chegar a essas conclusões, os autores utilizaram um modelo climático complexo do Sistema Terrestre do Reino Unido (UKESM, na sigla em inglês). Eles simularam diferentes cenários até o final do século, variando desde cortes moderados até reduções muito mais agressivas nas emissões de metano, para observar como a atmosfera responderia ao longo do tempo. O modelo integra interações entre atmosfera, oceanos e superfície terrestre, permitindo avaliar efeitos combinados de diferentes gases em escala global.

Os resultados mostraram um padrão consistente: quanto maior a redução do metano, maior o atraso na recuperação da camada de ozônio. Em cenários extremos, a quantidade total de ozônio atmosférico poderia ser cerca de dois por cento menor até 2100 em comparação com um cenário sem cortes no metano. Embora pareça uma diferença pequena, ela indica uma tendência contínua de enfraquecimento da recuperação do ozônio ao longo das décadas.

Esse enfraquecimento da camada de ozônio tem consequências diretas na superfície. Com menos proteção, uma maior quantidade de radiação ultravioleta do Sol consegue atingir a Terra, especialmente em regiões mais sensíveis. A radiação UV é invisível, mas tem alto poder de interação com a pele, os ecossistemas e até materiais expostos ao Sol.

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Queda nas emissões pode ampliar regiões vulneráveis

Pesquisadores estimam que, até 2070, a área do planeta exposta a níveis considerados extremos de radiação UV pela Organização Mundial da Saúde pode crescer entre 30% e 35% nos cenários de forte redução do metano. Isso significa mais regiões sob risco de exposição intensa ao Sol, com impactos potenciais na saúde pública e no equilíbrio ambiental. Entre os principais efeitos estão o aumento de casos de câncer de pele, danos aos olhos e maior pressão sobre sistemas de saúde.

Ainda assim, os cientistas destacam que a redução do metano continua sendo essencial para o combate às mudanças climáticas, já que ele é o segundo gás de efeito estufa mais importante de origem humana. O estudo não sugere abandonar essas ações, mas sim integrar melhor as políticas ambientais. Isso inclui considerar também gases como o óxido nitroso e os halocarbonos, que continuam influenciando a destruição do ozônio. 

Além disso, os pesquisadores reforçam que decisões climáticas precisam levar em conta interações complexas entre diferentes componentes da atmosfera. Assim, o desafio é equilibrar a redução do aquecimento global com a proteção da camada de ozônio, evitando soluções isoladas que possam gerar efeitos colaterais inesperados.

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