Mercosul e União Europeia: o acordo também é tech

Mercosul e União Europeia: o acordo também é tech

O acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio, após mais de 25 anos de negociações entre os dois blocos. Assinado em 17 de janeiro de 2026, o tratado estabelece a redução ou eliminação gradual de tarifas sobre a maior parte dos produtos comercializados entre as regiões, criando uma área de livre comércio que conecta centenas de milhões de consumidores na Europa e na América do Sul.

Na prática, o acordo amplia o acesso do Brasil a um dos mercados mais exigentes do mundo. Mais do que uma abertura baseada em preços ou volume exportado, o tratado consolida um modelo de integração apoiado em regras técnicas, ambientais e regulatórias, que passam a ter peso crescente nas condições de entrada no mercado europeu.

Com isso, a dinâmica do comércio entre os blocos tende a se deslocar. A redução tarifária ocorre de forma gradual, mas o acesso efetivo passa a depender cada vez mais da capacidade de atender padrões específicos de produção, rastreabilidade e conformidade. O resultado é um ambiente em que a competitividade deixa de ser definida apenas por custo e escala e passa a envolver organização produtiva, tecnologia e capacidade de adaptação.

Esse movimento não ocorre de forma homogênea entre setores. Enquanto parte do agronegócio brasileiro já opera sob exigências próximas às europeias — embora siga exposto a restrições sanitárias e regulatórias que podem limitar parte dos ganhos esperados com o acordo —, a indústria entra no acordo em um cenário mais heterogêneo, com maior necessidade de ajuste.

A diferença de ponto de partida ajuda a explicar por que os impactos do acordo tendem a ser distintos dentro da economia brasileira, mesmo diante de um mesmo conjunto de regras comerciais.

mapa mercosul-ue
Com o acordo, bloco sul-americano e europeu se unem, com redução ou eliminação gradual de tarifas comerciais – Imagem: Ana Figueiredo/Olhar Digital com auxílio do ChatGPT

Como funciona o acordo Mercosul–UE

O acordo prevê uma redução gradual de tarifas entre Mercosul e União Europeia, mas com cronogramas diferentes para cada bloco e mecanismos de proteção para setores considerados sensíveis. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a União Europeia deverá eliminar tarifas para cerca de 93% dos produtos do Mercosul em até dez anos, enquanto o Mercosul prevê a redução tarifária para aproximadamente 91% dos produtos europeus em um prazo que pode chegar a 15 anos.

A relevância do tratado também está ligada ao peso econômico da União Europeia para o comércio exterior brasileiro. O bloco europeu está entre os principais parceiros comerciais do Brasil e concentra parte relevante das exportações agropecuárias e industriais do país, especialmente em segmentos de maior valor agregado.

A abertura comercial também será acompanhada de cotas tarifárias, períodos de transição e salvaguardas, instrumentos que permitem suspender temporariamente benefícios do acordo em caso de aumento repentino das importações. Segundo a CNA, a lógica do tratado busca evitar uma abertura abrupta do mercado e permitir adaptação gradual das cadeias produtivas.

Além da redução de tarifas, o acordo envolve regras ligadas a investimentos, compras governamentais, normas técnicas e barreiras sanitárias. Na prática, isso significa que o acesso ao mercado europeu depende não apenas de condições comerciais mais favoráveis, mas também da capacidade de atender exigências regulatórias já consolidadas pela União Europeia.

Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o tratado cria uma “janela de reposicionamento internacional” para a indústria brasileira. A entidade destaca que parte relevante das oportunidades de exportação para empresas brasileiras começa já no início da vigência do acordo, enquanto a entrada de produtos europeus no Mercosul ocorrerá de forma mais gradual para diferentes segmentos industriais.

Segundo a CNI, cerca de 3 mil produtos brasileiros deixarão de pagar tarifas para entrar na União Europeia, sendo mais de 90% ligados à indústria de transformação. Entre os setores com maior potencial de impacto estão máquinas e equipamentos, alimentos e metalurgia. A entidade afirma que o aproveitamento dessas oportunidades dependerá da capacidade das empresas de compreender e aplicar os mecanismos previstos no acordo.

infográfico explica o acordo mercosul-UE
Acordo Mercosul-UE traz oportunidades pra o Brasil, mas também riscos e desafios que precisam ser avaliados e abordados com cautela – Imagem: Ana Figueiredo/Olhar Digital com auxílio do ChatGPT

Exigências europeias e o efeito direto nas cadeias produtivas brasileiras

Se a redução de tarifas amplia o potencial de acesso ao mercado europeu, o funcionamento prático desse comércio depende cada vez mais do cumprimento de exigências técnicas, sanitárias e ambientais estabelecidas pela União Europeia. Na avaliação de especialistas e entidades dos setores envolvidos, esse movimento tende a deslocar parte da competitividade internacional para áreas ligadas à rastreabilidade, monitoramento e capacidade de adaptação regulatória.

Para a CNA, o acordo melhora as condições comerciais e amplia a previsibilidade para exportadores brasileiros, mas não altera os padrões sanitários e ambientais exigidos pela União Europeia. A entidade afirma que produtos com tarifas reduzidas ainda podem enfrentar restrições relacionadas à habilitação sanitária, certificação e conformidade regulatória.

Para Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global, o impacto tende a ser mais visível no agronegócio, setor que já opera sob um nível elevado de exigência técnica para acessar o mercado europeu. Segundo ele, a ampliação das exportações para a região pode estimular a adoção de padrões tecnológicos mais avançados, embora esse movimento siga condicionado por cotas e outras restrições comerciais.

O mercado europeu tem exigências significativas em questões fitossanitárias, sanitárias ou até mesmo relacionada à qualidade e especificidade de produtos. O acordo, apesar de limitado por cotas e restrições que ainda serão existentes, abre a possibilidade de expansão para esse mercado, o que pode estimular a adoção de padrões tecnológicos mais avançados.

Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global

Na avaliação do professor, a exigência não se restringe ao produto final. Ela envolve maior coordenação entre diferentes etapas da cadeia produtiva, com disseminação de práticas de rastreabilidade e monitoramento entre produtores, frigoríficos e exportadores.

Drone sobrevoa plantação agrícola em operação de monitoramento de lavoura
Tecnologias de monitoramento e rastreabilidade tendem a ganhar importância com o avanço das exigências regulatórias da União Europeia – Imagem: mommyjarie / Shutterstock

Entre as regulações que ganham peso nesse cenário está o EUDR (Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento), que amplia exigências ligadas à comprovação de origem de produtos e cadeias produtivas. Segundo Gilio, esse tipo de norma tende a acelerar adaptações relacionadas ao uso de tecnologias de monitoramento e certificação.

A União Europeia segue ampliando padrões ambientais, como as exigências relacionadas ao EUDR, o que exige adaptações que muitas vezes estão relacionadas ao uso de pacotes tecnológicos mais adequados.

Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global

O tema ganhou novos contornos após a divulgação de uma lista preliminar da Comissão Europeia que, em sua versão atual, não inclui o Brasil entre os países habilitados a exportar determinados produtos de origem animal ao bloco europeu dentro das novas exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos. A medida pode reduzir parte dos ganhos esperados com o acordo Mercosul–UE caso seja mantida na versão final.

Na prática, a implementação dessas exigências ainda enfrenta desafios em segmentos mais complexos, como a pecuária, onde sistemas de rastreabilidade dependem de integração contínua entre diferentes elos da cadeia.

Para Gilio, o Brasil já dispõe de parte das tecnologias necessárias para atender aos requisitos europeus. O principal desafio, segundo ele, está menos na disponibilidade dessas soluções e mais na capacidade de disseminá-las de forma coordenada ao longo da produção. O professor afirma que o agronegócio brasileiro consolidou, nas últimas décadas, uma estrutura mais estável de inovação e difusão tecnológica, apoiada por empresas, universidades e instituições de pesquisa como a Embrapa.

A indústria brasileira entre abertura tecnológica e desafios de competitividade

Na indústria, o debate sobre o acordo Mercosul–UE envolve tanto o potencial de ampliação do acesso a mercados quanto os desafios de adaptação em um ambiente de concorrência mais intensa. Parte da análise sobre o tratado está ligada à capacidade de inserção do Brasil em cadeias internacionais de aprendizado e troca tecnológica, especialmente em setores mais expostos à competição global.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) afirma que a modernização da indústria brasileira já vinha sendo estruturada antes do acordo, dentro da política da Nova Indústria Brasil (NIB). Na avaliação da pasta, o tratado pode funcionar como instrumento complementar ao ampliar o acesso da indústria nacional ao mercado europeu e reforçar sua integração às cadeias globais de valor.

Para o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, a integração internacional é um elemento central para o avanço tecnológico, especialmente em setores industriais expostos à concorrência global: “Na história, não existe evolução tecnológica e de inovação sem intercâmbio”, diz ele.

Linha de produção automatizada com braços robóticos em ambiente industrial
Especialistas avaliam que a indústria brasileira precisará ampliar capacidade de adaptação tecnológica para competir em um mercado mais integrado – Imagem: Snide12 / Shutterstock

Segundo Igreja, o contato com economias mais avançadas tende a acelerar processos de aprendizado e incorporação de práticas produtivas já consolidadas em outros mercados. Na avaliação do especialista, a competitividade internacional faz parte da dinâmica estrutural da economia global, especialmente em setores industriais de maior intensidade tecnológica.

É vital que o Brasil se integre a essas cadeias. Alguns podem argumentar no curto prazo que a competição é voraz, sim. Mas é assim que a economia funciona, assim que o mundo funciona.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

Na leitura de Igreja, os impactos do acordo sobre a indústria dependem menos da exposição à concorrência em si e mais da capacidade de transformar esse intercâmbio em ganhos efetivos de produtividade. O especialista avalia que o acesso ampliado a tecnologias e práticas produtivas pode acelerar a modernização industrial, desde que exista capacidade interna de absorção e adaptação.

Para o professor da Unifesp Álvaro Machado Dias, colunista do Olhar Digital, o acordo cria uma base de previsibilidade regulatória e redução tarifária gradual que pode favorecer ajustes na estrutura produtiva brasileira ao longo do tempo.

O que o acordo oferece de concreto é previsibilidade regulatória e redução tarifária progressiva ao longo de até quinze anos, o que em tese cria uma janela de adaptação.

Álvaro Machado Dias, neurocientista, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital

Segundo o professor, essa adaptação ocorre em um cenário marcado por restrição de crédito e baixa disposição de investimento, fatores que podem limitar a capacidade de resposta da indústria brasileira no curto e médio prazo.

Na avaliação de Álvaro Machado Dias, um dos principais riscos é que a modernização ocorra predominantemente por meio da importação de tecnologia pronta, sem desenvolvimento proporcional de capacidade tecnológica local.

Com 23% dos industriais declarando à CNI que não pretendem investir em 2026 e a Selic operando como freio de mão sobre o crédito produtivo, o risco real é que a modernização venha na forma de importação de tecnologia pronta, não de capacitação endógena. Ou seja, existe o risco de o acordo modernizar o consumo de tecnologia sem modernizar a produção de tecnologia. Os ganhos não estão garantidos.

Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital

Segundo o professor, a predominância de investimentos financiados com recursos próprios e a dificuldade de acesso a capital de longo prazo reduzem a capacidade de execução de projetos industriais mais complexos e de maior risco tecnológico.

Álvaro Machado Dias também aponta que parte das dificuldades da indústria brasileira está relacionada ao chamado “vale da morte” entre pesquisa e aplicação comercial, expressão usada para descrever a dificuldade de transformar conhecimento científico em ganhos consistentes de produtividade.

Na avaliação do professor, o Brasil possui produção relevante em áreas como biotecnologia, engenharia de materiais e computação, mas enfrenta limitações na articulação entre universidades, empresas e políticas públicas. Esse cenário dificulta a transformação de pesquisa em aplicação produtiva em escala.

A comparação com o agronegócio ajuda a dimensionar essa diferença de trajetória. Enquanto o agro consolidou, ao longo das últimas décadas, uma estrutura mais coordenada de desenvolvimento e difusão tecnológica, a indústria ainda enfrenta um ambiente mais fragmentado de inovação, com menor integração entre pesquisa, investimento e produção.

Para Álvaro Machado Dias, o desafio brasileiro não está apenas na geração de tecnologia, mas na capacidade de transformá-la em produtividade de forma contínua e integrada dentro das cadeias produtivas.

Onde o Brasil pode ganhar espaço na nova configuração global

Além dos impactos sobre tarifas e acesso a mercados, o acordo Mercosul–UE também amplia a discussão sobre quais setores brasileiros podem ganhar espaço em cadeias globais ligadas a tecnologia, sustentabilidade e produtos de maior valor agregado. Na avaliação de especialistas, esse potencial tende a se concentrar em áreas nas quais o Brasil já possui vantagens competitivas ligadas a recursos naturais, capacidade produtiva e conhecimento técnico.

Container com bandeira do Brasil em terminal de cargas cercado por contêineres
Acordo Mercosul–UE amplia perspectivas de exportação, mas também intensifica debates sobre competitividade e inserção internacional do Brasil – Imagem: PX Media / Shutterstock

Para o professor da Unifesp Álvaro Machado Dias, segmentos ligados à bioeconomia, agricultura de precisão e minerais estratégicos aparecem entre as áreas com maior potencial de inserção internacional dentro da nova dinâmica regulatória e ambiental que vem sendo consolidada por mercados como a União Europeia.

O Brasil tem chances concretas em setores muito específicos, como bioeconomia amazônica, agricultura de precisão e minerais críticos para a transição energética, onde a posse do recurso natural confere poder de barganha que a manufatura genérica não confere.

Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital

Segundo o professor, esses segmentos tendem a concentrar parte das oportunidades associadas ao avanço de exigências ambientais e tecnológicas em mercados internacionais. O movimento inclui áreas relacionadas à rastreabilidade, monitoramento produtivo e cadeias ligadas à transição energética.

Ao mesmo tempo, especialistas avaliam que a abertura comercial, por si só, não garante avanço tecnológico ou aumento automático de competitividade. O impacto do acordo depende de fatores internos como investimento, coordenação produtiva e capacidade de transformar conhecimento técnico em produtividade.

O Brasil ainda enfrenta limitações estruturais para converter parte de sua produção científica e tecnológica em aplicação produtiva em escala, argumenta o professor. Segundo ele, sem maior articulação entre empresas, universidades, financiamento e políticas industriais, o acesso ampliado a mercados tende a ter efeito limitado sobre a posição brasileira nas cadeias globais de valor.

As análises sobre o acordo Mercosul–UE variam entre visões mais otimistas e leituras mais cautelosas. Parte dos especialistas associa a integração comercial à ampliação do aprendizado tecnológico e ao acesso a mercados mais sofisticados. Outra parte aponta o risco de aumento da dependência de tecnologias desenvolvidas fora do país, especialmente em setores industriais de maior intensidade tecnológica.

No centro desse debate está a capacidade de o Brasil transformar a abertura comercial em ganhos consistentes de produtividade, inovação e desenvolvimento tecnológico dentro de suas próprias cadeias produtivas.

Além do MDIC, o Olhar Digital também procurou os ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Fazenda, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

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