Meta e Google financiam marcas infantis renomadas, como Vila Sésamo, para ensinar crianças a usarem tecnologia com moderação. Mas a iniciativa ocorre em paralelo ao desenvolvimento de aplicativos com recursos que dificultam o “desligamento” de usuários jovens, segundo a Reuters.
Com investimentos que somam dezenas de milhões de dólares, as empresas distribuem lições sobre responsabilidade pessoal para centenas de milhares de famílias.
As parcerias surgem num momento em que big techs enfrentam diversos processos judiciais que as acusam de projetar produtos viciantes e prejudiciais para a saúde mental de menores de idade.
Especialistas alertam que parcerias da Meta e do Google podem ser estratégia de gestão de reputação
Pesquisadores de saúde pública sugerem que as doações visam melhorar a imagem das empresas perante a sociedade.
“É muito uma estratégia de gestão de reputação”, afirmou Nora Kenworthy, pesquisadora da Universidade de Washington Bothell, em entrevista para a agência de notícias.
A prática é comparada a estratégias históricas de indústrias de refrigerantes e tabaco para conquistar a confiança de instituições respeitadas.

Além disso, críticos apontam que a dependência econômica do financiamento das big techs impede que as instituições ofereçam orientações isentas.
“Seu próprio modelo de negócios depende do tempo máximo no aparelho”, disse Emily Boddy, co-líder do grupo U.S. Smartphone Free Childhood.
Para Emily, a neutralidade dos conselhos oferecidos por essas parcerias fica comprometida pelo interesse financeiro em manter o engajamento.
Existe ainda a preocupação de que os conteúdos patrocinados funcionem como uma porta de entrada para usuários abaixo da idade recomendada.
“É quase como prepará-las para desejar entrar nas redes sociais assim que atingirem a idade mínima”, disse Brendesha Tynes, pesquisadora de mídia infantil na Universidade do Sul da Califórnia.
A especialista apontou que a exposição precoce a essas marcas vinculadas à tecnologia pode estimular o desejo pelo uso de smartphones antes dos 12 anos.
Big techs financiam conteúdo educativo em meio a pressões judiciais
As atividades financiadas pelo Google e pela Meta incluem lições práticas de segurança digital, como a criação de senhas fortes e a prevenção contra golpes online.
Na revista Highlights, por exemplo, uma edição especial patrocinada pelo Google ensinou leitores de seis a 12 anos a fabricar um “saco de dormir” de papel para guardar dispositivos durante a noite. O material orientava as crianças a “colocarem seu dispositivo para dormir” antes de se desconectarem.

Em termos financeiros, o Google comprometeu-se, em 2024, a gastar pelo menos US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 100 milhões) no apoio a grupos de “bem-estar digital”.
Desse montante, a revista Highlights recebeu no mínimo US$ 5 milhões (R$ 25 milhões), o que permitiu a distribuição de 250 mil cópias extras para organizações como a Save the Children. As empresas, no entanto, não detalharam os valores individuais pagos a cada instituição parceira.
O Google defende que suas ferramentas priorizam a segurança e que o currículo oferecido é acreditado por organizações de segurança online.
“Priorizamos o bem-estar de nossos usuários mais jovens construindo salvaguardas líderes do setor e colocando as famílias no comando de suas experiências digitais”, afirmou um porta-voz da empresa.
A companhia reforça que trabalha com entidades como o Family Online Safety Institute para validar seus conteúdos.
A Meta patrocinou o currículo de “liderança digital” das Girl Scouts, que ensina escoteiras a monitorar o tempo de tela e a entender como os dados são usados para influenciá-las online.
A empresa declarou ter um papel limitado no design dos materiais, mas ressaltou o orgulho de trabalhar com especialistas em segurança.
Representantes da companhia afirmaram que frequentemente colaboram com acadêmicos para estudar formas de mitigar o uso negativo de suas plataformas (Facebook, Instagram, WhatsApp).
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