Mulheres ampliam vozes na ciência para combater a violência de gênero

Mulheres ampliam vozes na ciência para combater a violência de gênero

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o debate sobre igualdade de gênero ganha ainda mais visibilidade. A data, comemorada neste domingo (8), convida à reflexão não apenas sobre conquistas, mas também sobre os desafios que seguem presentes na vida das brasileiras.

Em Mato Grosso, estado que enfrenta altos índices de violência contra mulheres (com a maior taxa de feminicídio do país), essa discussão se faz ainda mais necessária. É nesse contexto que uma pesquisadora indígena da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) defende que valorizar a imagem das mulheres cientistas também é uma forma de enfrentar desigualdades históricas e ampliar o respeito dentro e fora da universidade.

mulheres na ciência
Valorizar mulheres cientistas ajuda a combater desigualdades históricas e fortalece o respeito na academia e na sociedade. Crédito: Krakenimages.com/Shutterstock

Em resumo:

  • Dia da Mulher reforça reflexão sobre violência de gênero;
  • Mato Grosso lidera feminicídios no Brasil;
  • Pesquisadora cobra mais mulheres na ciência como resistência;
  • Física ainda é vista como área majoritariamente masculina;
  • Dar visibilidade científica é uma forma de combate a violências estruturais.

Pesquisadora reforça importância da valorização da imagem das mulheres cientistas

Integrante do Projeto Museu-Lab de arte, ciência e tecnologia, desenvolvido no Instituto de Física da UFMT, Naine Terena, doutora em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atua na área de difusão e popularização da ciência. Nos últimos anos, suas pesquisas têm buscado ampliar o reconhecimento científico e tecnológico, com atenção especial ao papel das mulheres nesse campo. Para ela, dar visibilidade às trajetórias femininas é parte essencial desse processo.

Os dados sobre violência reforçam a urgência do debate. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado em julho de 2025, Mato Grosso liderou o ranking nacional de feminicídios em 2024. Dados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso indicam que, de janeiro a outubro de 2025, foram registrados 46 casos no estado, um aumento de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Naine Terena, doutora em educação pela PUC-SP, atua na área de difusão e popularização da ciência. Crédito: Reprodução/Instagram

Já o Painel PE – Feminicídio e Violência Doméstica – Sistema OMNI aponta cerca de 5 mil ações penais relacionadas ao tema entre janeiro e dezembro de 2025 nas comarcas mato-grossenses. Para a pesquisadora, o feminicídio representa a forma mais extrema de uma sequência de violências que se manifestam diariamente, inclusive em ambientes considerados espaços de formação e conhecimento, como as universidades.

“No contexto acadêmico, essa violência ocorre por questões diversas, entre elas a ideia de que as mulheres estão – ou deveriam estar – em áreas do conhecimento ou profissões associadas a papéis tradicionais de cuidado e com menor prestígio ou remuneração”, explica Terena. 

Segundo ela, ainda persiste a ideia de que mulheres devem ocupar áreas associadas ao cuidado ou a profissões menos valorizadas socialmente. Esse pensamento contribui para a formação de “guetos femininos” e afasta estudantes de cursos tradicionalmente vistos como masculinos, como é o caso da Física.

Como mulheres se percebem em áreas de predominância masculina 

Dados do curso de Física da UFMT ilustram essa realidade. No segundo semestre de 2024, apenas duas mulheres concluíram o Bacharelado em um total de nove formandos. Na Licenciatura, também foram duas mulheres, que representavam a totalidade da turma naquele período. Já no semestre 2025/01, a Licenciatura formou cinco estudantes, sendo duas mulheres.

A pesquisadora passou a investigar como ex-alunos e alunas percebem sua permanência no curso. Para isso, ela relata que dialogou com participantes do projeto de extensão Mulheres nas Ciências, vinculado ao Instituto de Física. O grupo reúne cerca de dez alunas que promovem debates e ações para ampliar a participação feminina nas Ciências Exatas dentro da própria universidade.

Em áreas como a Física, a presença feminina ainda é muito limitada. Crédito: indukas/iStockPhotos

Entre os principais desafios apontados está a percepção de que a Física ainda é vista como um curso “masculino”. Segundo relatos colhidos, há equilíbrio no ingresso de homens e mulheres, mas não na conclusão da graduação. Muitas estudantes acabam desistindo ao longo do percurso, o que revela obstáculos que vão além do desempenho acadêmico.

A discussão sobre a presença feminina em áreas de predominância masculina também orienta outras frentes da pesquisa. Com formação nas Ciências Humanas e Sociais, a pesquisadora aposta na integração entre diferentes campos do conhecimento para ampliar o alcance da ciência. Ela realizou visitas a museus e espaços dedicados à divulgação científica, além de aplicar questionários com educadores da educação básica.

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Projeto busca mostrar a diversidade na produção científica

A análise também incluiu documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que define as aprendizagens essenciais da educação básica no Brasil. O documento orienta currículos de escolas públicas e privadas e estabelece competências que devem ser desenvolvidas ao longo da formação dos estudantes.

Nas competências da área de Ciências da Natureza, a BNCC destaca o fortalecimento do letramento científico. Isso significa desenvolver a capacidade de interpretar o mundo natural, social e tecnológico, com base em princípios de sustentabilidade e bem comum. Para a pesquisadora, inserir a temática das mulheres na ciência nesse contexto é uma estratégia para formar cidadãos mais conscientes e críticos.

Como resultado desse percurso, o Projeto Museu-Lab avança na criação de um espaço físico dentro da UFMT. De acordo com Terena, a proposta é unir arte, ciência e tecnologia em exposições que aproximem o público das trajetórias de mulheres cientistas. O local contará com três núcleos temáticos, estruturados a partir dos resultados preliminares da pesquisa.

Um dos núcleos será dedicado à divulgação de perfis de ao menos dez cientistas de diferentes origens étnicas, sociais e nacionais. A iniciativa busca mostrar a diversidade presente na produção científica e reforçar a mensagem de que o enfrentamento das violências passa também pelo reconhecimento da voz e da história das próprias mulheres – indígenas, mães, filhas e pesquisadoras.

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