Empresas de tecnologia como SpaceX e Blue Origin enfrentam críticas de organizações ambientais e especialistas após apresentarem planos para instalar centros de dados em órbita. As propostas dependem de autorizações da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC).
A preocupação central envolve a possibilidade de milhões de satélites liberarem resíduos e compostos químicos na atmosfera durante lançamentos, operações e destruição ao fim da vida útil. Entidades pedem uma análise aprofundada dos impactos antes da aprovação de novos projetos.
A petição apresentada nos Estados Unidos solicita que a FCC suspenda novas licenças para essas estruturas espaciais até que sejam avaliados possíveis danos ao clima, à camada de ozônio, à astronomia e aos ecossistemas terrestres.
Especialistas apontam riscos de uma nova era de ocupação orbital

A expansão dos chamados centros de dados espaciais ocorre em meio ao crescimento acelerado das constelações de satélites comerciais. Empresas de tecnologia passaram a considerar a instalação de infraestrutura computacional fora da Terra após enfrentarem resistência pública aos grandes centros de processamento construídos no solo.
A proposta, porém, despertou questionamentos sobre os efeitos ambientais de uma quantidade muito maior de equipamentos em órbita. A organização Public Employees for Environmental Responsibility (Peer), a entidade jurídica Earthjustice e a DarkSky International apresentaram uma petição à FCC defendendo uma revisão dos projetos.
De acordo com o documento, as empresas apresentam essas iniciativas como transformadoras para o futuro da humanidade, mas não teriam apresentado estudos suficientes sobre consequências ambientais, científicas e econômicas.
Steve Volz, ex-chefe do escritório de satélites da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), afirmou ao The Guardian que o aumento da quantidade de objetos espaciais representa um risco devido aos materiais liberados durante sua destruição.
“Há muito material complexo nesses equipamentos e, mesmo que eles queimem, não se deve encher a atmosfera com resíduos deles da mesma forma que não se gostaria de receber isso vindo de uma chaminé”, disse Volz, ex-integrante da agência americana, em entrevista ao jornal britânico.
Segundo o especialista, os efeitos dessa deposição de materiais em regiões sensíveis da atmosfera ainda não são plenamente conhecidos.
Atualmente, estima-se que existam cerca de 15 mil satélites ativos em órbita, número que aumentou significativamente em relação aos aproximadamente 1.400 registrados em 2015. A expectativa citada no pedido encaminhado à FCC é que esse total possa chegar a 100 mil na próxima década, sem incluir novas redes destinadas aos centros de dados espaciais.
Cientistas investigam impactos desconhecidos na atmosfera

Os riscos ambientais apontados não se limitam aos lançamentos. Foguetes podem liberar substâncias como carbono negro, óxidos de nitrogênio, monóxido de carbono, óxido de alumínio e outros compostos durante os voos.
Quando satélites deixam de funcionar e retornam à atmosfera, seus componentes metálicos podem se transformar em partículas e permanecer em regiões elevadas do ar. Pesquisadores alertam que ainda há pouca compreensão sobre como esses elementos interagem com a composição natural da estratosfera.
Estudos patrocinados pela Noaa identificaram, em 2023, a presença de metais em aerossóis de ácido sulfúrico encontrados na estratosfera. Essas partículas têm papel importante na dinâmica atmosférica e podem influenciar a forma como a radiação solar é refletida e como poluentes circulam entre diferentes camadas da atmosfera.
Cientistas envolvidos na pesquisa afirmaram que a relação entre os metais provenientes de veículos espaciais, os materiais naturais e os aerossóis estratosféricos continua pouco conhecida.
Poluição luminosa e consumo de recursos entram no debate

Além dos efeitos atmosféricos, organizações ambientais alertam para mudanças no céu noturno causadas pelo aumento da quantidade de satélites. A DarkSky International argumenta que a iluminação artificial e os objetos brilhantes em órbita podem prejudicar ambientes que dependem da escuridão natural.
A entidade atua na proteção do céu contra a poluição luminosa e aponta que alterações nesse ambiente podem afetar plantas e animais, incluindo insetos como vagalumes.
Outro ponto levantado envolve a demanda por metais raros e outros recursos necessários para construir grandes redes de satélites. Cole Donovan, ex-especialista em política espacial da Noaa e integrante da organização Stand Up for Science, destacou que esses materiais já enfrentam restrições de disponibilidade.
Empresas defendem expansão espacial enquanto críticos pedem avaliação
Entre as companhias interessadas em autorizações está a Cowboy Space Corporation, criada pelo bilionário que também é co-presidente executivo da Robinhood. A empresa pretende desenvolver uma rede formada por 20 mil satélites, com previsão de primeiro lançamento em 2028.
O pedido apresentado à FCC afirma que a SpaceX descreve seus centros de dados orbitais como parte de uma estratégia para ampliar o futuro da humanidade no espaço. No entanto, os críticos apontam que os documentos enviados pelas empresas apresentam poucas informações sobre medidas para reduzir danos ambientais.
A petição sustenta que a legislação americana exige avaliação dos impactos ambientais antes da autorização de projetos desse tipo. Os grupos envolvidos argumentam que a Lei Nacional de Política Ambiental dos Estados Unidos (Nepa) deve ser aplicada aos satélites, permitindo análise de riscos, alternativas e formas de mitigação.
Para os autores do pedido, a expansão prevista de grandes constelações orbitais exige uma avaliação dos efeitos acumulados antes que milhões de novos equipamentos sejam lançados ao redor da Terra.
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