Nanotecnologia brasileira leva tratamento de pele a novo nível de precisão

Nanotecnologia brasileira leva tratamento de pele a novo nível de precisão

Uma nanotecnologia desenvolvida no Brasil pode abrir um novo caminho no tratamento de doenças de pele como psoríase e vitiligo. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, criaram nanopartículas capazes de levar moléculas terapêuticas diretamente às células da pele, com foco em precisão molecular. A proposta é simples no papel, mas complexa na prática: agir direto no “comando” genético das doenças inflamatórias.

O estudo foi apresentado durante a FAPESP Week Londres e vem chamando atenção no meio científico por tentar levar a nanomedicina para um nível mais direcionado, quase cirúrgico.

Médico examinando, com uma lupa, uma pinta nas costas de uma pessoa
Estudo brasileiro apresentado na FAPESP Week Londres mostra avanços em nanomedicina dermatológica, como no tratamento ao câncer de pele. Imagem: NMK-Studio/Shutterstock – Imagem: NMK-Studio/Shutterstock

Como a nanotecnologia atua na pele

A pesquisa é conduzida pelo laboratório NanoGeneSkin, que trabalha com nanopartículas de cristal líquido capazes de transportar RNA terapêutico até células específicas da pele. A ideia é interferir nos genes que alimentam processos inflamatórios e, assim, reduzir a resposta exagerada do sistema imunológico.

Segundo a coordenadora do projeto, Maria Vitória Bentley, o grupo trabalha há cerca de duas décadas nessa linha de pesquisa. Ela explica que a plataforma não se limita a medicamentos tradicionais. Também inclui RNA de interferência, usado para silenciar genes ligados a doenças crônicas.

Entre os alvos estudados estão psoríase, câncer de pele e vitiligo, condições diferentes, mas que compartilham um ponto em comum: inflamação ou alteração na produção de pigmentos.

É a nanomedicina de precisão. Eu tenho um alvo específico e um RNA complementar para silenciar aquele gene que está superexpresso naquela doença.

Maria Vitória Bentley, coordenadora do projeto, durante a FAPESP Week Londres.
ilustração digital de um câncer de pele se desenvolvendo no corpo
Tecnologia de cristal líquido ajuda a levar moléculas até células específicas da pele com mais precisão e acelera o tratamento de doenças de pele. Imagem: Ebrahim Lotfi/Shutterstock

Do RNA ao controle da inflamação

O RNA tem um papel central no funcionamento das células. Ele atua como intermediário das informações do DNA, levando instruções que ajudam a produzir proteínas. Sem ele, esse processo simplesmente não acontece.

A estratégia da equipe é usar RNA de interferência para bloquear a produção de proteínas que alimentam inflamações.

Na psoríase, há excesso de substâncias como o TNF-alfa. No vitiligo, o problema é outro: células responsáveis pela pigmentação deixam de funcionar. Em ambos os casos, a proposta é atuar direto no gene envolvido.

O método pode ser resumido em alguns pontos principais:

  • entrega precisa de RNA diretamente às células da pele
  • silenciamento de genes ligados à inflamação
  • redução da necessidade de medicamentos sistêmicos no dia a dia do paciente
  • menor risco de efeitos colaterais em comparação a terapias tradicionais
  • potencial aplicação em diferentes doenças dermatológicas
mãos de uma pessoa negra com vitiligo
Vitiligo é um dos focos da tecnologia, que tenta agir na raiz genética da perda de pigmentação. Imagem: James Heilman, MD/Reprodução

Uma barreira difícil de atravessar

Levar essas moléculas até onde precisam agir não é simples. O RNA é instável, se degrada com facilidade e ainda precisa atravessar a barreira natural da pele, que não foi feita para facilitar esse tipo de entrada.

Para contornar isso, o grupo criou nanopartículas baseadas em cristais líquidos. Elas funcionam como uma espécie de “proteção” para o material genético e ajudam na entrada dentro das células. Em alguns experimentos, a equipe ainda usou luz para facilitar a liberação do RNA no interior celular.

Os resultados, por enquanto, vêm de testes em células cultivadas em laboratório e em animais com lesões semelhantes às doenças estudadas. É um avanço inicial, mas consistente o suficiente para manter o campo atento.

Potencial da nanotecnologia vai além das doenças de pele

A mesma plataforma também está sendo testada em outras frentes, como cicatrização de feridas crônicas e no desenvolvimento de vacinas experimentais contra o câncer. A tecnologia também permite o uso de mRNA, que instrui o organismo a produzir proteínas específicas.

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Em modelos animais, houve casos em que a resposta imunológica conseguiu impedir o crescimento de tumores.

A equipe já possui patentes registradas e está em conversas para parcerias com empresas do setor farmacêutico. Agora, o foco é avançar no escalonamento industrial e aproximar a tecnologia de testes clínicos mais amplos, etapa que ainda está à frente do grupo.

A expectativa dos pesquisadores é que a nanotecnologia se torne uma alternativa mais precisa e menos agressiva no tratamento de doenças inflamatórias da pele, com menos efeitos colaterais e mais personalização terapêutica.

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