“NASA do Brasil”: saiba o que a Agência Espacial Brasileira faz 

“NASA do Brasil”: saiba o que a Agência Espacial Brasileira faz 

Presente em projetos que ajudam a monitorar a Amazônia, ampliar as telecomunicações e desenvolver tecnologias de ponta, a Agência Espacial Brasileira (AEB) é a principal responsável pela coordenação das atividades espaciais do país. Ainda assim, sua atuação permanece pouco conhecida do grande público. 

Para entender como funciona a agência e qual é sua importância para o programa espacial brasileiro, o Olhar Digital conversou com o professor e escritor Rui Botelho, editor do canal Brazilian Space e ex-servidor de carreira da AEB. 

Rui Botelho - AEB
Rui Botelho, ex-servidor de carreira da Agência Espacial Brasileira (AEB), revelou detalhes sobre a instituição ao Olhar Digital – Crédito: Rui Botelho

AEB: A NASA do Brasil?

Desde a sua criação, em fevereiro de 1994 (originalmente vinculada diretamente à Presidência da República), a AEB tem como missão articular, promover, executar e fazer executar as atividades e iniciativas voltadas ao desenvolvimento e fortalecimento do programa espacial nacional e à ampliação da capacidade tecnológica brasileira no setor espacial.

Frequentemente comparada à NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, a AEB exerce um papel similar, em termos conceituais, e diferente, em termos de execução. Segundo Botelho, “as principais diferenças entre a Agência Espacial Brasileira e a NASA estão associadas à própria constituição das duas entidades”. Ele explica que ambas têm atribuições gerais semelhantes no campo de atuação civil dos respectivos programas espaciais e também atuam como representantes oficiais de seus países no cenário internacional, participando de fóruns globais e interagindo com outras agências espaciais e organismos ligados à ONU.

“Internamente, as duas fazem o mesmo papel de organizar as atividades civis, já que ambas são entidades civis”, explica o professor, destacando que a diferença central está na forma como cada instituição foi estruturada.

NASA AEB
A Agência Espacial Brasileira (AEB) é a nossa NASA? – Créditos: LaserLens – iStockPhoto / Gov.br / Edição: Olhar Digital

A NASA foi criada após o lançamento do Sputnik pela União Soviética, em julho de 1958, em um contexto de corrida espacial. De acordo com o especialista, a agência surgiu com o objetivo de concentrar esforços que antes estavam dispersos entre diversos centros de pesquisa, laboratórios civis e até mesmo estruturas militares das Forças Armadas dos Estados Unidos.

No caso brasileiro, o cenário foi distinto. Quando a AEB foi criada, já existiam instituições consolidadas como o atual Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e seus institutos, no segmento militar, além do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no segmento civil. Segundo Botelho, esses órgãos não foram incorporados a uma estrutura hierárquica única.

“A NASA foi organizada juntando esses diversos centros, laboratórios de pesquisa, inicialmente, e depois também alguns militares da Força Aérea, da Marinha e do Exército Americano”, explica. “Já no Brasil, foi adotado um modelo diferente, com a criação de um sistema de coordenação em rede, no qual os diferentes entes colaboram sem subordinação direta”.

Esse arranjo, segundo ele, resultou em uma governança mais dispersa. “Nenhum desses entes se tornou subordinado à AEB. O que foi feito foi a criação do Sistema Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (SINDAE), um arranjo fraco, onde esses entes iriam (teoricamente) colaborar, não haveria hierarquia entre eles”.

O modelo brasileiro, portanto, se baseia na articulação entre instituições já existentes, enquanto o dos EUA concentrou funções sob uma única agência central. Além disso, diferentemente da NASA, a AEB vem perdendo o protagonismo, a relevância e a capacidade de atuação, ano após ano, desde que foi retirada da Presidência e realocada na estrutura governamental abaixo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, em 2000, como Botelho destaca em seu livro “Agência Espacial Brasileira: um diagnóstico de gestão”.

Base de Alcântara: eficiência orbital e desafios estruturais

Entre os principais ativos do setor está o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no município de Alcântara, Maranhão. Localizado próximo à Linha do Equador, o centro – operado pela Força Aérea Brasileira – oferece vantagens para lançamentos espaciais, permitindo maior eficiência no envio de cargas ao espaço. 

Segundo Botelho, o centro está a cerca de 2 graus e 20 minutos ao sul do Equador, o que gera um ganho físico relevante. “Essa posição faz com que veículos lançados de lá recebam um empuxo, uma força extra da rotação da Terra”.

Foguete Hanbit-Nano posicionado na plataforma de lançamento da Base de Alcântara, no Maranhão. – Crédito: Innospace

Esse efeito ocorre porque a velocidade de rotação terrestre é maior na região equatorial, o que pode aumentar o desempenho dos foguetes. “Isso pode permitir levar mais carga útil ou alcançar órbitas mais altas, sem aumentar a capacidade do veículo”, explica Botelho.

No entanto, o especialista ressalta que a vantagem não é universal. A maior parte dos satélites atuais opera em órbitas de média e alta inclinação. “À medida que a inclinação da órbita em relação ao Equador aumenta, a vantagem de lançar de Alcântara diminui”, detalha.

Para órbitas polares, de aproximadamente 90 graus, o efeito é praticamente nulo. “Para esses lançamentos, Alcântara não oferece vantagem significativa em relação a bases como as dos Estados Unidos, Rússia ou China”, afirma.

Botelho acrescenta que, em órbitas retrógradas, pode haver até perda de desempenho. O potencial do centro seria maior em lançamentos para órbitas de baixa inclinação e  geoestacionárias, a cerca de 36 mil quilômetros de altitude, usadas por satélites de comunicação e de defesa, por exemplo.

Um exemplo recente das capacidades e oportunidades para o CLA foi a parceria entre a AEB, a Força Aérea Brasileira e a empresa sul-coreana Innospace, que realizou um lançamento experimental em 2025. Apesar de uma falha após a decolagem, a missão marcou um avanço na abertura comercial da base.

Para Botelho, aproveitar plenamente o potencial de Alcântara exigiria um salto tecnológico e financeiro, com o desenvolvimento de foguetes mais robustos e competitivos. “Seria necessário ter uma estrutura e um veículo muito maior do que os que hoje estão habilitados para operar de Alcântara e que o Centro tem condições de lançar”, afirma.

Isso permitiria ao Brasil disputar o mercado de lançamentos para órbitas mais altas, como as geoestacionárias, usadas por satélites de comunicação e observação. No entanto, esse avanço depende de investimentos robustos, contínuos e de longo prazo em tecnologia e infraestrutura.

Visão aérea da Base de Alcântara
A Base de Alcântara é o centro de lançamento com maior potencial no Brasil – Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Sem esse tipo de capacidade, Botelho ressalta que o centro acaba limitado a uma faixa mais restrita de missões, sem conseguir explorar totalmente sua vantagem geográfica no cenário global de lançamentos espaciais.

O ex-servidor da AEB destaca ainda outro principal entrave de Alcântara. “A logística para levar algo para Alcântara é muito cara”, afirma. Segundo ele, não existem rotas aéreas internacionais regulares para transporte de cargas de veículos lançadores de pequeno porte nem conexões frequentes que facilitem o envio de equipamentos até São Luís ou diretamente ao centro de lançamento.

O problema também se estende ao transporte marítimo e terrestre. “Navios que venham de países que vão mandar o veículo lançador ou o satélite não têm rotas corriqueiras para São Luís”, explica. Além disso, ele aponta a ausência de uma malha ferroviária eficiente, o que dificulta a integração do porto de origem de cargas no Brasil com o norte do país. De acordo com o especialista, essas limitações reduzem a frequência e aumentam o custo das operações. 

Botelho também aponta uma barreira institucional. Segundo ele, falta uma política pública mais eficaz para viabilizar investimentos e parcerias privadas. “Não há um modelo consistente de PPPs ou iniciativas que permitam ao setor privado assumir esses custos”, observa, ressaltando que o Estado, sozinho, não consegue suprir as necessidades de infraestrutura do centro de lançamento.

A título de curiosidade, a origem da palavra “Alcântara” remonta à língua árabe, derivando do termo “al-qantarah”, que significa “a ponte”, destaca o professor, indagando: “Será que conseguiremos, efetivamente, fazer de Alcântara a nossa ponte para o espaço e para a nova economia espacial?”

Centro de Lançamento da Barreira do Inferno é o espaçoporto mais antigo do país

Outra instalação importante e de destaque para as atividades espaciais nacionais é o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Inaugurado em 1965, ele é o centro espacial mais antigo do país e acumula mais de três mil lançamentos voltados principalmente a pesquisas atmosféricas e científicas.

Além de apoiar a manutenção da infraestrutura de lançamento, a AEB coordena programas destinados à seleção, adoção e ao desenvolvimento de novas missões. Um deles é o Procedimento para Seleção e Adoção de Missões Espaciais (ProSAME), que estabelece critérios para avaliar projetos com potencial científico e estratégico para o Brasil.

Centro de Lançamento da Barreira do Inferno
Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, é o centro espacial mais antigo do país – Crédito: Gov.br

A agência também mantém o Programa Uniespaço, criado para aproximar universidades das atividades aeroespaciais. A iniciativa incentiva pesquisas acadêmicas e contribui para a formação de profissionais especializados.

Na área de foguetes, o Brasil investe em modelos suborbitais como o VSB-30 e o VS-30. Esses veículos são utilizados em experimentos científicos, testes de equipamentos e desenvolvimento de tecnologias que poderão ser aplicadas em projetos mais complexos.

Outro objetivo importante é a criação do Veículo Lançador de Microssatélites (VLM), projeto considerado estratégico para o desenvolvimento tecnológico e a soberania nacional. Segundo Botelho, trata-se de uma iniciativa que “é uma herança do VLS”, programa anterior interrompido após o acidente de 2003 em Alcântara, que resultou na morte de 21 técnicos e engenheiros.

Embora tenha relevância estratégica, Botelho afirma que o VLM é hoje tecnologicamente defasado. “Ele tem valor em termos de soberania e autonomia, mas não se sustenta em termos de custos operacionais e sustentabilidade”. Ainda assim, ele ressalta que o projeto se justifica como instrumento de domínio tecnológico.

De acordo com o especialista, o VLM nasceu como uma parceria entre a AEB e a agência espacial alemã (DLR), envolvendo também o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e a Força Aérea Brasileira. A proposta previa divisão de responsabilidades: o Brasil ficaria com estruturas e motores sólidos, enquanto a Alemanha desenvolveria sistemas mais críticos, como navegação, controle e eletrônica embarcada.

“No entanto, o Brasil não conseguiu cumprir parte dessas entregas, principalmente por falta de definição de prioridades em relação a outros projetos e de recursos”, explica Botelho. “Com isso, os alemães acabaram absorvendo etapas adicionais do projeto, alterando o equilíbrio original da cooperação”.

Outro entrave é tecnológico e industrial. O VLM depende do motor S50, ainda não qualificado em voo e desenvolvido pela empresa Avibras, que enfrentou recuperação judicial nos últimos anos. “Não há outro ente com capacidade de assumir esse desenvolvimento”, observa.

foguete VLM
Representação visual do foguete brasileiro VLM, projeto que vem enfrentando sucessivos atrasos – Créito:Imagem gerada por IA/Gemini

Diante desse cenário, o projeto perdeu ritmo e pode sofrer novos atrasos. Botelho estima que, nas condições atuais, o VLM dificilmente será lançado antes de 2030 ou até 2040. Mesmo assim, ele reforça que sua importância está menos na competitividade e mais na construção de capacidades nacionais.

Outro marco foi o Amazônia-1, primeiro satélite de sensoriamento remoto totalmente desenvolvido no Brasil. Equipado com câmeras de alta capacidade, ele auxilia no monitoramento do desmatamento, das queimadas e de outras transformações ambientais.

As informações produzidas por esses equipamentos ajudam pesquisadores e gestores públicos a acompanhar mudanças no território nacional. Os dados também são utilizados em ações de preservação ambiental e gestão de recursos naturais.

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Programa espacial brasileiro tem parceria com a China e a Argentina

Para manter essas iniciativas, a AEB conta com recursos previstos no orçamento federal. Em 2026, a agência recebeu autorização para administrar cerca de R$144,65 milhões destinados a projetos espaciais, pesquisas e cooperação internacional.

As parcerias com outros países continuam sendo uma das bases do programa espacial brasileiro. Além da cooperação com a China, o Brasil participa com a Argentina da missão SABIA-Mar, voltada ao monitoramento dos oceanos e ambientes aquáticos.

Mais recentemente, a AEB firmou uma parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Universidade Federal do Tocantins para implantar um centro de operações com balões estratosféricos na Amazônia, ampliando as capacidades de pesquisa e monitoramento da região.

Mesmo longe dos holofotes das grandes missões internacionais, a Agência Espacial Brasileira desempenha papel fundamental no avanço científico e tecnológico do país. Por meio de satélites, foguetes, centros de lançamento e cooperação internacional, a instituição ajuda a construir o futuro da presença brasileira no espaço.

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