Uma pesquisa conduzida no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP utilizou a ibogaína, substância psicoativa, para um possível tratamento da dependência alcoólica. Para Juliana Mendes Rocha, pesquisadora principal do estudo, o uso do composto pode auxiliar nesses casos, uma vez que já foi analisado como possível tratamento do consumo de outras drogas.
A pesquisa contou com nove voluntários, que utilizaram a substância de diferentes maneiras e foram acompanhados pela equipe antes e depois do tratamento. A divulgação do estudo foi feita nesta segunda-feira (04) pelo Jornal da USP e o PDF completo da pesquisa pode ser lido aqui.
Para que tem pressa:
- O estudo testou a substância em 9 voluntários, com resultados iniciais promissores na redução do consumo de álcool e cocaína;
- Dois participantes ficaram abstinentes pelos três meses em que foram acompanhados após o tratamento;
- Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores afirmam que ainda não há evidência suficiente para uso clínico;
- Há riscos e restrições: a substância está ligada a arritmias cardíacas, não tem segurança comprovada e é proibida no Brasil, exigindo autorização especial para pesquisa.
A pesquisa utilizou duas abordagens

Utilizada em rituais religiosos, como pela religião Bwiti, a ibogaína possui princípios alucinógenos que geram alterações emocionais e na sensação de tempo e espaço. Já empregada em projetos e estudos piloto para combater a dependência química, a substância agora foi voltada para um possível tratamento do consumo nocivo de álcool.
Para isso, nove voluntários passaram por terapias com o composto; entre eles, oito também consumiam cocaína. Três pessoas receberam quantidades escalonadas da substância, de 20 mg até 320 mg em três sessões, enquanto as outras seis utilizaram uma dose única de 400 mg.
Com acompanhamento médico antes e depois do tratamento, dois participantes se abstiveram do consumo de álcool pelos três meses de acompanhamento posteriores ao estudo. No caso do uso de cocaína, os voluntários apresentaram redução na frequência e/ou na quantidade consumida.
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O uso da substância requer atenção

A substância apresentou resultados promissores no tratamento das dependências, mas requer atenção. Muito associada a arritmias cardíacas, a ibogaína ainda não possui comprovações sólidas de segurança para seu uso. Por isso, o controle e as discussões sobre o composto têm se tornado cada vez mais presentes quando relacionados ao seu uso como terapia para essas condições
O estudo reafirmou que o uso da substância ainda necessita de análises mais aprofundadas sobre possíveis danos à saúde e dosagens seguras. Outra barreira é a proibição do composto em vários países, inclusive no Brasil. Para a realização da pesquisa, foi necessário um processo de quase dois anos e meio para sua utilização legal.
“O estudo neste momento ainda não é suficiente para embasar o uso da ibogaína no tratamento de uso de substância”, afirma Juliana Rocha em entrevista ao Jornal da USP.
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