Na semana passada, o Olhar Digital noticiou a descoberta de uma “minilua” orbitando um asteroide batizado em homenagem a Ayrton Senna. O tricampeão mundial de Fórmula 1, no entanto, não é o único brasileiro a receber essa honraria. Um dos maiores compositores do país e uma criança prodígio muito conhecida pelo nosso público também dão nome a rochas espaciais.

Mas, antes de conhecermos os outros homenageados, vamos entender como acontece a nomeação oficial de um asteroide, um processo rigorosamente controlado pela União Astronômica Internacional (IAU) e pelo Minor Planet Center (MPC), órgão responsável por catalogar e rastrear corpos menores no Sistema Solar.
Tudo começa com a confirmação da descoberta, momento em que o objeto recebe uma designação provisória – um código alfanumérico que indica exatamente o ano e a quinzena do ano em que ele foi localizado. Para padronizar esse registro, a União Astronômica Internacional (IAU) divide o ano em 24 quinzenas (as duas metades de cada mês), atribuindo uma letra do alfabeto de A a Y para cada período de 15 dias.
Antes de receber um nome definitivo, o corpo celeste precisa ter sua órbita calculada com exatidão matemática. Essa etapa exige anos de monitoramento e observações contínuas em diferentes pontos de sua trajetória ao redor do Sol. Somente quando a órbita é completamente consolidada e o asteroide recebe um número sequencial fixo, o descobridor conquista o direito de propor uma denominação oficial.
As propostas seguem regras definidas pela IAU. Os nomes devem ser pronunciáveis, ter entre 4 e 16 caracteres, não ser ofensivos nem muito semelhantes aos de outros objetos astronômicos. Homenagens a personalidades políticas ou militares estão sujeitas a uma regra de 100 anos após a morte do homenageado. Nomes de caráter predominantemente comercial também são rejeitados.
Não há prazo fixo para a oficialização de um nome, pois o processo depende das observações necessárias para determinar a órbita do objeto. Historicamente, a IAU estabeleceu, em geral, 10 anos para que o descobridor apresentasse sua sugestão após a numeração do asteroide. A proposta então é avaliada pelo grupo de nomenclatura e, se aprovada, publicada oficialmente.

Conheça 10 brasileiros que “viraram” asteroides
Selecionamos 10 personalidades brasileiras que tiveram seus nomes eternizados em asteroides espalhados pelo Sistema Solar:
- Ayrton Senna, piloto tricampeão mundial de Fórmula 1 (em memória) – (6543) Senna
Este asteroide foi avistado pela primeira vez em 11 de outubro de 1985 pelos astrônomos Carolyn e Eugene Shoemaker, no Observatório do Monte Palomar, nos Estados Unidos. Inicialmente registrado apenas pelo código técnico 1985 TP3, o objeto recebeu o nome de (6543) Senna em 1995.
A homenagem foi uma iniciativa da Sociedade Astronômica do Sul da Austrália junto ao Fã-Clube de Ayrton Senna no país – uma escolha emblemática, já que o Grande Prêmio da Austrália de 1993, disputado na cidade de Adelaide, foi o palco da última vitória na Fórmula 1 do piloto, que morreu em um acidente na Itália em 1994.

- Heitor Villa-Lobos, maestro e ícone da música clássica brasileira (em memória) – 7244 Villa-Lobos
Considerado o maior compositor das Américas no século XX, Heitor Villa-Lobos foi o responsável por revolucionar a música clássica ao integrar elementos do folclore brasileiro, do choro e do modernismo às formas eruditas tradicionais. Suas obras, como as Bachianas Brasileiras e os Choros, projetaram a cultura nacional no cenário artístico global e o consolidaram como uma figura incontornável da arte universal.
O asteroide que homenageia o maestro foi descoberto em 5 de agosto de 1991 pelo astrônomo belga Eric Walter Elst, no Observatório Europeu do Sul (ESO), em La Silla, no Chile. Registrado inicialmente sob a designação provisória 1991 PQ1, o corpo celeste recebeu o nome oficial de 7244 Villa-Lobos pela União Astronômica Internacional (IAU) em reconhecimento ao legado imortal do compositor.
- Nicole Semião (Nicolinha), jovem astrônoma e divulgadora científica – 292352 Nicolinha
Ela ficou conhecida mundialmente como Nicolinha, a “astrônoma amadora mais jovem do mundo”. A alagoana Nicole Semião, de 13 anos, ganhou destaque ainda na infância ao participar do programa de ciência cidadã da NASA, a Colaboração Internacional de Pesquisa Astronômica (IASC), no qual já identificou dezenas de asteroides. Embaixadora mirim do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), palestrante e idealizadora de projetos educativos, ela é referência no incentivo de crianças à ciência.
A homenagem à jovem partiu do astrônomo Robert Holmes Jr., do Instituto de Pesquisa Astronômica (ARI), nos Estados Unidos, que descobriu o corpo celeste em 26 de setembro de 2006 e sugeriu a denominação oficial 292352 Nicolinha em reconhecimento ao trabalho da jovem na divulgação científica.

- Daniela Lazzaro, astrofísica e pesquisadora do Observatório Nacional (ON) – 3602 Lazzaro
Pesquisadora titular do Observatório Nacional, Daniela Lazzaro é uma das maiores especialistas do país no estudo físico e dinâmico de corpos menores do Sistema Solar. Ao longo de sua carreira, liderou projetos pioneiros no mapeamento espectroscópico de asteroides e teve papel fundamental na consolidação da ciência planetária e da astronomia observacional no Brasil.
O corpo celeste que carrega seu nome foi descoberto em 28 de fevereiro de 1981 pelo astrônomo norte-americano Schelte J. Bus no Observatório de Siding Spring, na Austrália. Catalogado de início sob a designação provisória 1981 DQ2, o objeto foi nomeado 3602 Lazzaro pela União Astronômica Internacional (IAU) em tributo às suas valiosas contribuições para o estudo da composição e evolução dos asteroides.
- Luiz Eduardo da Silva Machado, astrônomo e ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, em memória) – 2543 Machado
Pioneiro da astronomia moderna no Brasil, Luiz Eduardo da Silva Machado foi professor e diretor do Observatório do Valongo, da UFRJ. Dedicou décadas ao ensino, à formação de novos cientistas e ao cálculo preciso de trajetórias de cometas e asteroides, sendo um dos responsáveis por colocar a astrometria brasileira em posição de destaque internacional. O astrônomo faleceu em 1992, aos 64 anos.
Descoberto em 1º de junho de 1980 pelo astrônomo Henri Debehogne no Observatório de La Silla, no Chile, o asteroide recebeu de início o código 1980 MG. A homenagem oficial veio com a atribuição da designação 2543 Machado, imortalizando a trajetória do professor e astrometrista brasileiro no catálogo astronômico global.
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- Silvia Giuliatti Winter, astrofísica e professora titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – 10696 Giuliattiwinter
Professora titular do Câmpus de Guaratinguetá da Unesp, Silvia Giuliatti Winter é referência internacional no estudo da dinâmica de anéis planetários, satélites naturais e pequenos corpos do Sistema Solar. Além da atuação de destaque em pesquisas acadêmicas, dedica-se ativamente à formação de cientistas e ao incentivo à participação feminina nas ciências exatas.
O asteroide foi avistado em 2 de março de 1981 pelo astrônomo norte-americano Schelte J. Bus durante o levantamento UK Schmidt-Caltech Asteroid Survey, no Observatório de Siding Spring, na Austrália. Originalmente registrado sob a designação provisória 1981 EO24, o corpo recebeu o nome oficial 10696 Giuliattiwinter em reconhecimento às suas contribuições na área de mecânica celeste.
- Othon Cabo Winter, especialista em mecânica celeste e professor titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – 10697 Othonwinter
Professor e pesquisador titular da Unesp em Guaratinguetá, Othon Cabo Winter é uma das principais lideranças científicas em mecânica celeste e astrodinâmica no Brasil. Suas investigações abordam a formação planetária, a estabilidade de órbitas de asteroides triplos e o estudo de regiões como o Cinturão de Kuiper e os asteroides troianos.
Assim como o de sua colega de instituição, este asteroide foi descoberto em 2 de março de 1981 por Schelte J. Bus no Observatório de Siding Spring, na Austrália. O corpo celeste recebeu de início o código provisório 1981 EO40, até que a União Astronômica Internacional (IAU) formalizou a denominação 10697 Othonwinter para eternizar sua contribuição aos estudos da dinâmica orbital no espaço.
- Silvana Copceski Stoinski, educadora e coordenadora nacional do Programa Caça Asteroides do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – 550832 Silvanacopceski
Graduada em Matemática e especialista em Física e Ensino, Silvana Copceski Stoinski dedica-se desde 2011 à popularização da ciência e à educação cidadã. Como coordenadora nacional do Programa Caça Asteroides do MCTI, realizado em parceria com a NASA, ela atua no engajamento de estudantes e professores na análise de imagens astronômicas reais para a descoberta de corpos celestes, além de liderar iniciativas como a Missão X no Brasil.
O asteroide que leva seu nome foi descoberto em 7 de julho de 2007 pelo astrônomo amador Robert Holmes no Observatório de Charleston, nos Estados Unidos. Catalogado inicialmente sob a designação provisória 2012 TZ235, o objeto foi oficialmente batizado pela União Astronômica Internacional (IAU) como 550832 Silvanacopceski em 2023, em reconhecimento à sua contribuição no ensino e na ciência cidadã.

- Salvador Nogueira, jornalista científico, escritor e colunista da Folha de S.Paulo – 588905 Salvadornogueira
Referência no jornalismo de ciência e na cobertura de exploração espacial no Brasil, Salvador Nogueira é autor de diversos livros sobre astronomia e astrobiologia, além de colunista da grande imprensa. Seu trabalho aproxima o público leigo de temas complexos da ciência planetária, das missões do Programa Artemis e da busca por vida extraterrestre.
O asteroide foi descoberto em 20 de agosto de 2008 pelo projeto de varredura Sloan Digital Sky Survey, no Observatório de Apache Point, no Novo México (EUA). Inicialmente catalogado sob a designação provisória 2008 VZ87, o objeto foi oficialmente renomeado como 588905 Salvadornogueira pela União Astronômica Internacional (IAU) em homenagem à sua trajetória na comunicação científica.
- Valerio Carruba, especialista em famílias de asteroides e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – 10741 Valeriocarruba
Professor de astronomia na Unesp (Câmpus de Guaratinguetá), Valerio Carruba é uma das maiores autoridades mundiais no estudo da dinâmica e evolução das famílias de asteroides do Sistema Solar. Suas pesquisas utilizam simulações computacionais e inteligência artificial para mapear a origem e a dispersão dos fragmentos resultantes de antigas colisões no Cinturão Principal.
O corpo celeste foi descoberto em 16 de setembro de 1988 pelo astrônomo Schelte J. Bus no Observatório do Monte Palomar, nos Estados Unidos. Inicialmente registrado com o código provisório 1988 SF3, o objeto recebeu a denominação oficial 10741 Valeriocarruba da União Astronômica Internacional (IAU) em reconhecimento às suas contribuições para a compreensão dos corpos menores do Sistema Solar.
“Jamais imaginei que receberia essa homenagem”
Em participação no programa Olhar Espacial (que você pode assistir na íntegra aqui), Nicolinha e Silvana Copceski falaram sobre esse reconhecimento.
“Foi uma surpresa muito grande”, disse Silvana ao ser questionada pelo astrônomo Marcelo Zurita, apresentador do programa, como foi receber a notícia. “Eu comecei a trabalhar com o programa Caça Asteroides em 2017. Na época, eu tinha apenas uma escola envolvida e conversávamos muito sobre como seriam essas nomeações, mas eu jamais imaginava que receberia uma”.
A especialista, inclusive, foi uma das pessoas que sugeriram o nome de Nicolinha para batizar um asteroide do cinturão principal, que fica entre Marte e Júpiter. “Quando conheci a Nicolinha, ela já falava tanto sobre asteroides que eu pensei: ‘Acho que já sei quem podemos nomear no Brasil’. Isso foi em 2020, se não me engano, quando entrei no Ministério da Ciência e Tecnologia. O Dr. Patrick começou a acompanhar o caso e concordou: ‘Vai ser a Nicolinha, então’.”

Para a garotinha que cresceu apaixonada pelas estrelas, ver seu nome eternizado no espaço pareceu a realização de um sonho – e a surpresa preparada pela equipe tornou o momento ainda mais especial. “Foi muito inesperado, mas eu fiquei muito, muito feliz. Até porque toda a equipe do Caça Asteroides me disse que seria uma reunião sobre asteroides. Aí, quando chegou na hora, me deram a notícia”, revelou Nicolinha a Zurita. “Então, me pegaram de surpresa, eu fiquei muito, muito feliz. Principalmente porque eu amo asteroides!”
Como vimos, ser astronauta não é a única forma de chegar ao espaço. Para alguns, o caminho passa pelas pistas de corrida; para outros, pela música, pela pesquisa ou pela divulgação científica. Em comum, todos eles tiveram suas trajetórias marcadas no cosmos, batizando asteroides que agora levam seus nomes para viajar, eternamente, pela vastidão do Sistema Solar.
O post O que Ayrton Senna, um músico famoso e uma astrônoma mirim têm em comum? A resposta está no espaço! apareceu primeiro em Olhar Digital.