A Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para a ocorrência de temporais no Estado entre quinta-feira (16) e sábado (18), com previsão de chuva intensa, rajadas de vento e possibilidade de granizo em diversas áreas. Os maiores impactos são esperados entre a noite de sexta-feira (17) e a manhã de sábado.
As instabilidades devem atingir principalmente regiões do Oeste, da Campanha e do Sul gaúcho, mas a previsão indica avanço das condições severas para praticamente todo o território estadual, incluindo a Região Metropolitana de Porto Alegre. Os volumes acumulados podem alcançar 150 milímetros, com períodos de precipitação concentrada em pouco tempo.
A formação das tempestades está associada a uma combinação de fatores atmosféricos, entre eles a atuação do Jato de Baixos Níveis (JBN), uma corrente intensa de ventos que transporta calor e umidade da Amazônia em direção ao Centro-Sul da América do Sul. Esse fluxo de umidade, em determinadas condições, pode contribuir para a formação ou intensificação de rios atmosféricos, fenômenos caracterizados pelo transporte de grandes volumes de vapor d’água pela atmosfera.
Fenômeno leva umidade para regiões distantes e pode agravar temporais

O Jato de Baixos Níveis é uma corrente de ventos localizada entre aproximadamente 1 e 3 quilômetros de altitude que percorre o interior do continente sul-americano. Esse sistema desloca grandes quantidades de ar quente e úmido, criando condições favoráveis para o desenvolvimento de tempestades quando encontra outros sistemas meteorológicos.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a interação entre esse corredor de umidade e frentes frias vindas do sul aumenta a concentração de vapor d’água e a instabilidade da atmosfera. A combinação desses elementos favorece episódios de chuva intensa e tempestades mais organizadas.
“Quando o JBN interage com sistemas frontais provenientes do sul do continente, ocorre um aumento da convergência de umidade e da instabilidade atmosférica, favorecendo a ocorrência de tempestades severas”, afirmou o Instituto Nacional de Meteorologia, em nota enviada à BBC News Brasil, ao explicar a influência do fenômeno na previsão para a Região Sul.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também indicou possibilidade de acumulados expressivos. Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do órgão, uma frente fria deve permanecer estacionada sobre a região por vários dias, mantendo o cenário de chuva prolongada.
Apesar da influência dos chamados rios voadores, o especialista destacou que o transporte de umidade proveniente da Amazônia costuma ser menor durante o inverno, período marcado por temperaturas mais baixas e menor disponibilidade de vapor d’água na atmosfera.
Além do Brasil, o Chile também deve enfrentar efeitos associados a um rio atmosférico no Oceano Pacífico. Segundo a MetSul Meteorologia, o sistema pode alcançar níveis elevados de intensidade e provocar chuva extrema, ventos fortes, tempestades e neve na Cordilheira dos Andes.
As áreas chilenas apontadas como mais vulneráveis incluem regiões como Coquimbo, Valparaíso, Metropolitana, O’Higgins, Maule, Ñuble e Biobío.
Como funcionam os rios atmosféricos (rios voadores)

Os rios atmosféricos são faixas extensas de vapor d’água que se deslocam pela atmosfera, geralmente partindo de regiões tropicais em direção a latitudes mais altas. Embora não sejam visíveis a olho nu, esses corredores podem ser identificados por satélites usando frequências específicas de observação.
Esses sistemas transportam aproximadamente 90% do vapor de água que circula pelas latitudes médias do planeta. Quando apresentam baixa intensidade, podem contribuir para o equilíbrio hídrico de determinadas regiões, mas versões mais fortes podem provocar enchentes e deslizamentos.
Na América do Sul, parte desses corredores de umidade se forma a partir da evaporação na Floresta Amazônica. Ao encontrar a barreira natural da Cordilheira dos Andes, o fluxo é direcionado para áreas como Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de países vizinhos.
Esses mecanismos possuem papel importante para o regime de chuvas do continente. A umidade transportada pela atmosfera contribui para a manutenção de ecossistemas e atividades agrícolas, mas também pode intensificar eventos extremos quando combinada com outras condições meteorológicas.
O meteorologista Deniz Bozkurt, da Universidade de Valparaíso, no Chile, explicou que os rios atmosféricos amazônicos sofrem influência de outros sistemas, como o cinturão de chuva equatorial, os ventos alísios e a Cordilheira dos Andes.
“Esses elementos juntos podem guiar a umidade, fazendo-a viajar para o sul, levando a chuvas pesadas e inundações em outras regiões”, explicou Deniz Bozkurt, meteorologista da Universidade de Valparaíso, especialista em rios atmosféricos, em declaração apresentada pela BBC News Brasil.
A destruição da Floresta Amazônica é apontada por especialistas como um fator de preocupação para esse sistema climático. Isso porque a redução da cobertura vegetal pode diminuir a quantidade de vapor d’água disponível e afetar a circulação de umidade que influencia diferentes regiões da América do Sul.
Pesquisas mencionadas no texto indicam ainda que o aumento das temperaturas globais elevou a quantidade de vapor presente na atmosfera nas últimas décadas. Esse processo pode tornar os rios atmosféricos mais intensos e aumentar a capacidade desses sistemas de concentrar grandes volumes de chuva em períodos curtos.
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