O segredo de Valentina: como a primeira mulher no espaço escondeu a missão da própria mãe

O segredo de Valentina: como a primeira mulher no espaço escondeu a missão da própria mãe

Imagine uma mãe na União Soviética do início dos anos 60, sentada na sala de casa, ligando a velha TV de tubo para assistir a mais um anúncio triunfal do programa espacial soviético. Aqueles eram tempos em que o espaço era a arena de uma batalha tecnológica e geopolítica. Cada lançamento virava orgulho nacional e a notícia corria o mundo inteiro. Mas, naquele dia, quando o rosto da cosmonauta escolhida para a próxima missão apareceu na tela, aquela senhora arregalou os olhos! “Pera aí… aquela é a Valentina… minha filha!”. Foi assim que a dona Elena Tereshkova descobriu, pela TV, que sua filha estava prestes a se tornar a primeira mulher da história a viajar para o espaço.

A história de Valentina Tereshkova começa longe dos centros científicos ou das elites acadêmicas. Ela nasceu em março de 1937 em um pequeno vilarejo distante 230 quilômetros de Moscou. Seu pai era tratorista e morreu lutando na Segunda Guerra Mundial quando ela tinha apenas dois anos de idade. Sozinhas, mãe e filha viveram em condições modestas, como milhões de famílias soviéticas do pós-guerra.

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[ Valentina Tereshkova na infância – Imagem: Cortesia da família Hardin ]

Na infância, o mais alto que Valentina voou foi sonhar em ser condutora de trens. Não fazia ideia de que um dia conduziria algo muito mais extraordinário: uma nave espacial em órbita da Terra.

Sua vida começou a mudar quando, aos 17 anos, ela decidiu entrar para um clube de paraquedismo. Valentina mostrou talento e tornou-se uma saltadora ousada e habilidosa, acumulando mais de cem saltos. E isso se tornaria o fator decisivo para colocá-la no caminho da história.

No início da década de 1960, o mundo vivia o auge da Corrida Espacial. A rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos transformava cada conquista científica em um símbolo de superioridade técnica e ideológica. Os soviéticos haviam largado na frente lançando o Sputnik, o primeiro satélite artificial, e depois, Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a viajar para o espaço. Mas a disputa era intensa.

Quando surgiu a informação de que os americanos estavam treinando mulheres em seu programa espacial, os soviéticos decidiram agir rapidamente. Começaram procurando candidatas em todo país. As exigências eram rígidas: ser jovem, excelente condição física, altura e peso compatíveis com as pequenas cápsulas da época e, sobretudo, experiência em paraquedismo.

Isso porque as cápsulas do Programa Vostok tinham uma peculiaridade pouco conhecida. Seu pouso não era muito suave. Vamos dizer que era um retorno meio “impactante”. Tanto que era mais seguro, para o cosmonauta, ser ejetado a uns sete quilômetros de altitude, e descer suavemente de paraquedas até o solo. Então, para evitar que a primeira mulher no espaço virasse “patê” no final da missão, saber saltar de paraquedas era essencial. E foi por isso que, entre as cerca de 400 candidatas avaliadas, Valentina Tereshkova se destacou.

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[ Processo de retorno da Vostok: 1 – Velocidade é reduzida para retirar a nave de órbita; 2 – Cápsula é separada do módulo de controle; 3 – A 7 km de altitude, o assento do(a) cosmonauta é ejetado(a) e os paraquedas implantados; 4 – O assento é liberado; 5 – Cápsula e cosmonauta descem de paraquedas; 6 – Pouso suave (ou quase suave no caso da cápsula) – Gráfico gerado por IA (Gemini) ]

Durante dois anos, ela passou por um treinamento intensivo e secreto. Estudou engenharia básica, navegação orbital, passou por centrífugas, isolamento e testes físicos extremos. 

Em 16 de junho de 1963, finalmente, havia chegado o momento histórico.  A Vostok 6 foi lançada do cosmódromo de Baikonur, levando Valentina Tereshkova e o orgulho de uma nação inteira para o espaço! Enquanto de casa, sua mãe descobria pela TV o que sua filha estava realmente fazendo durante os últimos 2 anos. Como todo programa espacial soviético na época era altamente secreto, Valentina havia dito que estaria viajando pelo país, participando de competições de paraquedismo.

A missão durou quase três dias, tempo suficiente para completar 48 voltas ao redor da Terra. E foram três dias intensos, extraordinários, mas o pioneirismo cobrou seu preço. O corpo de Valentina não reagiu bem à microgravidade, à alimentação precária e aos 3 dias dentro daquela “lata de queijo”. Ela enfrentou náuseas, desconforto e muito mal-estar.

Mas o momento mais crítico da missão aconteceu longe das câmeras e só se tornaria público com o fim da Guerra Fria, décadas depois.

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[ Valentina Tereshkova embarcando na Vostok-6 – Créditos: Roscosmos ]

Durante o voo, a cosmonauta percebeu algo estranho nos dados de navegação da cápsula. Havia um erro na programação do sistema de controle. Em vez de orientar a nave para retornar à Terra, os comandos estavam ajustados de maneira que aumentariam gradualmente sua órbita. Se nada fosse feito, em vez de retornar para a Terra, ela iria, de vez, para o espaço!

Valentina comunicou o problema à equipe em solo e os engenheiros enviaram as instruções para que ela reprogramasse manualmente o sistema. O erro foi corrigido e a missão pôde continuar normalmente. No retorno, após ser ejetada da Vostok-6, Valentina viu que seu paraquedas estava a levando em direção a um lago. Ela temeu que seu estado físico a impedisse de nadar até a margem mas, felizmente, um vento forte à levou para um local seguro.

Quando enfim chegou  ao solo, Valentina Tereshkova percebeu que havia se tornado uma celebridade mundial. Era a primeira mulher da história a ir ao espaço, um feito que combinava ciência, política e simbolismo social. Mas a reação do outro lado da Cortina de Ferro foi bem menos entusiasmada.

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[ Valentina Tereshkova entre os cosmonautas Yuri Gagarin e Pavel Popovich e o Premier Nikita Krushev em cerimônia em Moscou após seu voo histórico – Créditos: RIA Novosti archive / V. Malyshev  ]

Na NASA, muitos oficiais minimizaram e até debocharam do feito. Um deles chegou a declarar que a ideia de mulheres no espaço lhe dava náusea. O governo americano encerrou todas as iniciativas de treinamento de astronautas mulheres e, como resultado, o país demorou duas décadas para repetir o feito soviético. Somente em 1983, os Estados Unidos finalmente enviaram sua primeira mulher ao espaço.

A União Soviética queria demonstrar superioridade tecnológica. Mas a reação americana acabou revelando que seu atraso era também cultural, na aceitação de mulheres em posições científicas e operacionais.

Depois da missão, Valentina nunca mais voltou ao espaço, mas sua trajetória pública continuou intensa. Ela tornou-se uma figura importante dentro da sociedade soviética, recebeu inúmeras condecorações e concluiu formação em engenharia aeroespacial. Também atuou em organizações políticas e científicas ao longo das décadas seguintes.

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[ Valentina Tereshkova atualmente atua como deputada – Imagem: kremlin.ru ]

Com o tempo, sua figura passou a representar algo que vai além da propaganda da Guerra Fria. Tereshkova simboliza uma geração de pioneiros que voaram em máquinas experimentais, em uma época em que cada missão era um salto para o desconhecido.

Hoje, muitas mulheres já viajaram ao espaço, comandaram missões e participaram de programas científicos complexos em órbita. Mas todas elas, de alguma forma, seguem a trilha aberta por Valentina Tereshkova, a jovem paraquedista que, sem avisar a própria mãe, embarcou em um foguete com destino à história da exploração espacial.

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