O Oceano Pacífico está dando sinais de que algo diferente está a caminho. No início de 2026, pesquisadores identificaram um padrão incomum: águas quentes surgiram ao mesmo tempo em três pontos distantes – perto da Indonésia, na costa da América Central e ao longo da América do Sul. Essas manchas térmicas formaram um anel de calor ao redor de uma área central mais fria, um fenômeno conhecido como “aquecimento anular” que não se via com tanta intensidade havia pelo menos 40 anos.
Essa configuração chamou a atenção dos climatologistas porque pode turbinar o próximo El Niño, empurrando-o para a categoria de evento extremo – o chamado super El Niño.
Calor armazenado age como mola
Não é só a temperatura da superfície que preocupa. A camada superior do Pacífico tropical está acumulando mais calor do que libera, funcionando como uma bateria térmica carregada. “O Pacífico tropical apresenta um padrão incomum de aquecimento anular na primavera de 2026, o maior observado nos últimos 40 anos. A camada superior do oceano também está armazenando mais calor do que liberando”, afirmou Tao Lian, autor principal do estudo publicado na revista Ocean-Land-Atmosphere Research, ao Earth.com.
Simulações computacionais mostraram que essa energia armazenada já é suficiente para gerar um El Niño moderado até o fim de 2026. Mas o anel de calor, se mantido, pode elevar o fenômeno ao nível de super El Niño – algo que não ocorre desde 2015-2016.

Como o anel influencia o clima
Cada região quente tem um papel específico. O Pacífico ocidental pode alterar os ventos e empurrar o calor para leste. As áreas do nordeste e sudeste ajudam a espalhar a água aquecida em direção à linha do equador. Quando as três atuam juntas, o efeito é muito mais forte do que cada uma isoladamente.
A situação atual tem raízes no recente período de La Niña. Naquela fase, ventos intensos concentraram água quente no Pacífico ocidental. Com o enfraquecimento de La Niña, esse calor ficou retido abaixo da superfície, como uma mola prestes a se soltar. Agora, ele pode se deslocar para leste e dar início ao El Niño.
Os pesquisadores já detectaram os primeiros indícios: ondas quentes se movem abaixo da superfície, as temperaturas do mar perto do equador começam a subir e, em março de 2026, fortes rajadas de vento oeste surgiram no Pacífico ocidental – um clássico prenúncio de grandes El Niños.
“Observamos uma forte perturbação de oeste no final de março, o que significa que a probabilidade de um super El Niño está aumentando”, disse Dake Chen, coautor do estudo.

Para testar o papel do anel de calor, os cientistas rodaram modelos climáticos removendo o efeito das três regiões quentes. Sem o anel, o El Niño previsto perdeu força e caiu de extremo para moderado. A conclusão foi clara: o aquecimento anular é o principal motor que pode empurrar o sistema para o extremo.
Se as previsões se confirmarem, os impactos serão globais. O Sudeste Asiático e a Austrália podem sofrer com secas severas. A América do Sul pode enfrentar inundações intensas. Recifes de coral correm risco de branqueamento em massa. A pesca na costa oeste das Américas pode entrar em colapso. Eventos anteriores de super El Niño também provocaram aumento das temperaturas globais e crises humanitárias.
Ainda há incertezas, admitem os pesquisadores. Rajadas súbitas de vento e a influência de outros oceanos podem alterar o resultado final. “O El Niño nunca deixa de nos surpreender”, disse Lian. Nos próximos meses, o olhar dos cientistas continuará fixo no Pacífico, aguardando para ver se esse raro anel de calor realmente se transformará em um evento climático histórico.
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