Pombos podem usar o fígado como bússola biológica, indica estudo

Pombos podem usar o fígado como bússola biológica, indica estudo

Uma pesquisa conduzida por equipes ligadas ao Instituto Max Planck de Comportamento Animal e a universidades alemãs indica que pombos podem localizar seus trajetos de retorno utilizando células imunológicas ricas em ferro presentes no fígado, capazes de reagir ao campo magnético da Terra.

O estudo, publicado na revista Science em 2026 (veja aqui), investigou como aves conseguem percorrer longas distâncias e ainda assim voltar ao ponto de origem, especialmente quando não dispõem de referências visuais como o Sol.

Segundo os pesquisadores, esse mecanismo de navegação não atua o tempo todo da mesma forma: quando há Sol, os pombos se guiam principalmente pela luz solar; já em dias nublados, quando essa referência desaparece, o organismo passaria a depender mais desse possível “sensor do fígado”, que ajudaria a manter o rumo ao detectar o campo magnético da Terra como uma referência alternativa de orientação.

Fígado e células imunes entram no mapa da navegação dos pombos

Pombo. / Crédito: Snehaaaa Patel (Shutterstock)

A investigação analisou diferentes órgãos de pombos, incluindo cérebro, olhos e bico, mas identificou no fígado a maior concentração de células imunológicas associadas ao acúmulo de ferro.

Essas células, chamadas de macrófagos, foram apontadas como potenciais sensores do campo magnético terrestre: não no sentido de “sentir” como visão ou audição, mas como estruturas que podem sofrer alterações físicas extremamente sutis quando expostas ao magnetismo constante da Terra.

De acordo com a equipe de pesquisa, liderada por cientistas como Martin Wikelski e Christian Kurts, esses macrófagos apresentam propriedades magnéticas devido ao ferro acumulado na degradação de células sanguíneas antigas.

Na prática, esse ferro pode transformar essas células em algo comparável a microestruturas sensíveis a variações invisíveis do ambiente físico, permitindo uma resposta muito fraca, porém potencialmente detectável pelo organismo, às variações do campo magnético do planeta.

Imagem: Jono Photography/Shhutterstock

Os testes foram realizados com pombos treinados para retornar ao viveiro após voos de dezenas de quilômetros. Em parte dos experimentos, as células do fígado foram desativadas, o que prejudicou a capacidade de orientação das aves em condições de céu encoberto.

Já sob sol aberto, os animais mantiveram a capacidade de retorno — o que reforça a ideia de que o sistema magnético não substitui outras referências, mas entra em ação principalmente quando a orientação visual deixa de ser suficiente.

A pesquisadora Clivia Lisowski explicou que as células estão localizadas próximas a fibras nervosas, o que pode permitir a transmissão de sinais até o sistema nervoso central. Em termos mais diretos, essa proximidade sugere uma espécie de “ponte biológica” entre uma alteração física microscópica causada pelo magnetismo e a interpretação desse sinal pelo cérebro, como se o fígado funcionasse como um ponto de captura inicial de uma informação invisível que depois é traduzida pelo sistema nervoso.

Em avaliação externa ao estudo, especialistas apontaram que ainda há lacunas sobre como esses sinais chegam ao cérebro e como são interpretados, embora reconheçam que o achado oferece uma nova perspectiva sobre a navegação animal.

Os resultados indicam que os pombos não dependem de um único mecanismo para se orientar. Em condições de sol, a referência visual pode ser suficiente, enquanto em situações de baixa visibilidade o campo magnético teria papel mais importante — como se diferentes “camadas de orientação” fossem ativadas conforme o ambiente muda.

Os autores também levantam a hipótese de que outros animais possam utilizar mecanismos semelhantes, embora isso ainda não esteja confirmado. A discussão científica permanece aberta quanto à existência de múltiplos sistemas de navegação atuando em conjunto.

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