Por que as empresas querem colocar games dentro da sua conta de celular

Por que as empresas querem colocar games dentro da sua conta de celular

Durante muito tempo, a relação entre uma operadora de celular e um jogo parecia simples: a operadora oferecia internet e o jogador consumia essa conexão para jogar.

Essa lógica está mudando.

Cada vez mais, games aparecem dentro de ofertas de telecom, planos de assinatura, benefícios, bundles e programas de relacionamento. E existe uma razão bastante objetiva para isso: o jogo pode ser muito mais valioso para uma empresa do que simplesmente gerar consumo de dados.

Ele pode ajudar a conquistar clientes, aumentar o valor percebido de um plano, reduzir churn e criar novas oportunidades de receita.

É aí que games e telecom começam a fazer muito sentido juntos.

O celular já é uma porta de entrada para os games

Para uma parcela enorme dos jogadores, principalmente em mercados como o Brasil, o primeiro contato com games não acontece em um console de centenas de dólares.

Acontece no celular.

O smartphone já está no bolso do consumidor, conectado à internet e associado a uma conta, um plano e uma rotina de consumo. Para uma operadora, isso cria uma oportunidade interessante: em vez de vender apenas gigabytes, ela pode começar a vender também experiências.

Um plano de celular pode incluir acesso a um jogo, moeda virtual, benefícios dentro de determinados títulos, serviços de cloud gaming ou até assinaturas de plataformas relacionadas ao universo gamer.

O cliente continua comprando conectividade.

Mas passa a perceber que está comprando algo além dela.

O game pode ajudar a vender o próprio plano

Imagem: Tudo Celular/ Reprodução

Imagine duas ofertas com preços semelhantes.

Em uma delas, o cliente recebe apenas determinado volume de internet.

Na outra, recebe internet, streaming, música e algum benefício relacionado a games.

O segundo pacote pode ter um valor percebido maior, mesmo que o custo marginal daquele benefício seja relativamente baixo para a empresa.

Esse é um dos motivos pelos quais os games são interessantes para telecom.

O jogo pode funcionar como um benefício que diferencia uma oferta que, tecnicamente, é muito parecida com a do concorrente.

E isso é especialmente relevante em um mercado no qual a conectividade básica tende a se tornar cada vez menos diferenciada aos olhos do consumidor.

Mas existe outro motivo: retenção

Existe uma palavra que talvez explique ainda melhor essa aproximação: engajamento.

Uma pessoa pode trocar de plano porque encontrou uma oferta mais barata.

Mas quando uma empresa consegue construir um ecossistema de benefícios ao redor daquele cliente, a decisão de sair pode ficar mais complexa.

Não significa que um jogo sozinho vá impedir alguém de trocar de operadora.

A questão é outra.

Quanto mais valor o consumidor percebe dentro daquele relacionamento, mais elementos passam a fazer parte da equação.

Games podem ser particularmente interessantes nesse ponto porque não são apenas conteúdo para ser assistido.

São experiências recorrentes.

Uma série pode ser assistida em um fim de semana. Um jogo pode acompanhar o consumidor durante meses ou até anos.

E existe um terceiro elemento: aquisição

Imagem: Mobile Zoom/ Reprodução

Aqui está uma das partes mais interessantes dessa relação.

Games possuem comunidades extremamente engajadas.

Um título popular pode reunir milhões de jogadores, creators, comunidades em redes sociais e eventos próprios.

Para uma empresa que quer alcançar esse público, estar próxima de um game pode significar muito mais do que colocar um anúncio.

Pode significar construir uma parceria.

A empresa pode criar campanhas específicas, benefícios exclusivos, eventos, experiências e ofertas pensadas para aquela comunidade.

Em outras palavras, o game deixa de ser apenas um conteúdo que a empresa distribui.

Ele passa a ser um canal de relacionamento.

A lógica também funciona do outro lado

Para publishers e desenvolvedores, a aproximação com telecom também é interessante.

Distribuição é um dos grandes desafios da indústria de games.

Ter um parceiro com milhões de clientes pode significar acesso a uma audiência que seria cara ou difícil de alcançar individualmente.

Uma operadora pode ajudar um jogo a chegar a novos consumidores.

O publisher, por sua vez, ajuda a operadora a oferecer algo relevante para uma audiência específica.

É uma relação que pode gerar valor para os dois lados.

E é justamente aí que surge uma mudança importante de mentalidade.

Telecom deixa de ser apenas infraestrutura para se tornar distribuição de conteúdo.

O futuro talvez não seja “ganhar um jogo”

Existe, porém, um detalhe importante.

A tendência não precisa ser simplesmente colocar um jogo gratuito dentro de um plano.

O modelo pode evoluir para algo muito mais sofisticado.

Uma operadora pode oferecer uma assinatura gamer, benefícios em diferentes jogos, descontos, cloud gaming, campeonatos, conteúdo exclusivo, recompensas, experiências com creators e até vantagens em eventos.

O que está sendo vendido, nesse caso, não é um jogo.

É um ecossistema gamer.

E isso muda completamente a conversa.

Porque, quando uma empresa passa a ter um ecossistema, ela não precisa depender de um único título.

Pode construir uma relação contínua com aquele consumidor.

O game como moeda de valor

Imagem: TechTudo/ Reprodução

Talvez a maior transformação esteja justamente aqui.

Durante anos, as operadoras competiram principalmente em velocidade, cobertura, franquia de dados e preço.

Esses atributos continuam importantes.

Mas o consumidor não compra tecnologia pela tecnologia.

Ele compra aquilo que consegue fazer com ela.

É por isso que música, vídeo, esportes e entretenimento entraram progressivamente nos pacotes de telecom.

Agora, os games ocupam um espaço cada vez mais relevante nessa disputa.

E existe uma diferença importante: o game não é apenas algo que o consumidor consome. É algo com o qual ele interage.

Essa característica pode torná-lo uma ferramenta poderosa de relacionamento.

A próxima batalha não será pelo gigabyte

A pergunta que as empresas de telecom precisam começar a fazer talvez não seja:

“Quantos gigabytes podemos oferecer?”

Mas sim:

“O que podemos colocar em cima dessa conectividade para que nosso cliente queira continuar aqui?”

Games podem ser parte importante dessa resposta.

Não porque todo cliente de celular seja gamer.

Mas porque, em um mercado no qual conectividade tende a se tornar cada vez mais parecida entre concorrentes, o conteúdo, os benefícios e as experiências associados ao plano podem ser tão importantes quanto a própria conexão.

No fim, a disputa não é apenas para vender internet.

É para ocupar um espaço maior na vida digital do consumidor.

E os games já entenderam que esse espaço vale muito.

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