Por que nem todo mosquito transmite dengue?

Por que nem todo mosquito transmite dengue?

Desde a primeira epidemia de dengue no Brasil, os cidadãos aprenderam pelo telejornal e rádio que o mosquito é o vetor do vírus, mais especificamente o Aedes aegypti. Mas por que apenas os mosquitos transmitem essa infecção? E por que nem todos os mosquitos a transmitem? Respondemos a essas e outras dúvidas abaixo.

Por que nem todo mosquito transmite a dengue?

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A fêmea do mosquito consegue desenvolver centenas de ovos a partir de um único acasalamento (Imagem: 15308757/iStock)

Na biologia, chamamos de infecção o ato de microrganismos (como vírus, fungos, bactérias e parasitas) invadirem o corpo de um ser vivo e se multiplicarem, causando ações danosas. Às vezes, ocasionam uma doença que é diferente do nome do micróbio, como o vírus HIV que ocasiona a Aids.

No caso da dengue, a infecção é causada pelo vírus DENV (ou simplesmente “vírus da dengue”). Ele é transmitido pelo mosquito da espécie Aedes aegypti quando o vetor entra em contato com a pele humana e se alimenta do sangue: a saliva possui partículas virais e contaminam o sangue humano, posteriormente iniciando o processo de infecção viral.

  • Pessoa infectada → mosquito pica → mosquito torna-se infectado → pica outra pessoa → pessoa infectada alimenta um mosquito saudável → novo mosquito com dengue → e assim por diante.
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Moquistos sendo estudados em laboratório (Imagem: Flávio Carvalho/WMP Brasil/Fiocruz)

Contudo, a ciência já reconhece que nem todos os mosquitos hematófagos transmitem o vírus. Isso porque, para o vetor contaminar o sangue humano, três coisas são necessárias: que o mosquito seja fêmea, já esteja infectado e pertença a espécies específicas.

Em primeiro lugar, apenas os mosquitos das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus são capazes de transmitir o vírus da dengue; portanto, se outra espécie picar você, a transmissão não ocorre. Isso porque o vírus da dengue só é compatível com estes dois vetores, então, caso um mosquito saudável pique alguém com dengue, não ficará infectado, pois seu corpo não é próprio para a multiplicação viral necessária.

Em segundo lugar, o mosquito dessas espécies só transmite a dengue se estiver infectado. Então, embora seja um possível vetor, se ele nunca picou um ser humano infectado pela dengue, não será capaz de transmiti-la para mais ninguém.

Por fim, é necessário dizer que apenas as fêmeas transmitem o vírus da dengue. Isso ocorre porque os machos se alimentam, principalmente, de substâncias doces, como néctar, seiva e pólen. As fêmeas, por outro lado, são hematófagas: alimentam-se de sangue.

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Atualmente, sabemos que a única forma de contrair a dengue é sendo picado por um mosquito das espécies Aedes aegypti ou Aedes albopictus que já esteja infectado. Esses mosquitos são infectados pelo vírus quando a fêmea se alimenta de um ser humano que já tem a doença. Isso significa que o vírus não nasce dentro do mosquito.

Então… como exatamente o vírus surgiu? A data de origem do vírus da dengue é incerta e pode ter ocorrido entre centenas e milhares de anos atrás. Contudo, uma coisa é clara: o vírus circulava em um ciclo silvestre entre mosquitos e primatas não humanos, possivelmente na África e no Sudeste Asiático.

Quando um mosquito hematófago se alimenta do sangue de um primata infectado, o vírus entra em seu organismo e pode se replicar. Ao longo do tempo, mutações naturais ocorreram durante a replicação viral. Algumas dessas variações genéticas tornaram o vírus mais apto a infectar humanos.

Estima-se que, a partir desse ciclo silvestre prolongado, certas linhagens do vírus conseguiram se adaptar ao ambiente urbano e ao mosquito Aedes aegypti. Com o crescimento das cidades e a ocupação de áreas antes silvestres, aumentou o contato entre humanos e mosquitos vetores.

Uma vez estabelecido no ambiente urbano, o vírus passou a circular entre humanos e mosquitos, iniciando o ciclo de transmissão que conhecemos hoje.

Posteriormente, a expansão marítima a partir do século XVI contribuiu para a dispersão do mosquito e do vírus para novas regiões do mundo, favorecendo a disseminação global da dengue.

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