Se a previsão indica uma chuva muito forte para uma determinada região, isso significa que existe também um risco de enchente ou deslizamento? A resposta é: não necessariamente. Entre prever um fenômeno meteorológico e prever os impactos que ele pode provocar, há uma série de informações que precisam ser analisadas.
A quantidade de chuva é uma das informações usadas nesse processo, mas não é a única. Para entender o que um determinado fenômeno pode provocar, os órgãos de monitoramento precisam relacionar os dados meteorológicos às características de cada região e às condições que podem favorecer ou agravar seus efeitos.
A chuva precisa ser relacionada ao risco
A previsão meteorológica indica as condições esperadas para a atmosfera, mas o risco surge quando essas condições são relacionadas à possibilidade de um determinado processo ocorrer em um território. No caso de deslizamentos, por exemplo, não basta saber que haverá chuva: é preciso acompanhar quanto choveu, por quanto tempo e como esse volume se relaciona com a possibilidade de movimentação do terreno.
Marcelo Gramani, geólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), explica que essa relação pode ser estabelecida a partir de dados históricos e do acompanhamento dos processos. Ele cita como exemplo o volume acumulado de chuva ao longo de alguns dias, mas ressalta que o dado isolado não é suficiente para determinar a emissão de um alerta.
Existe uma correlação que fala: a partir de 80 milímetros ou 100 milímetros de chuva acumulada em três dias, a chance de eu ter um escorregamento é muito grande. Então, a gente monitora a chuva e não é qualquer dado de chuva que vai disparar um alerta. Tem essa correlação da chuva e do processo, e também tem a questão da avaliação do modelo climático meteorológico local, para poder soltar os alertas.
Marcelo Gramani, geólogo e pesquisador do IPT

Essa lógica também aparece nas informações fornecidas pela Defesa Civil de São Paulo. O órgão afirma que, no caso dos alertas relacionados à chuva, a análise considera fatores como intensidade e duração da precipitação, possibilidade de tempestades severas, velocidade das rajadas de vento, potencial para queda de granizo e características locais capazes de aumentar a vulnerabilidade de determinadas regiões.
O território muda o impacto da chuva
A mesma quantidade de chuva pode produzir consequências diferentes dependendo das características do território atingido. Por isso, o monitoramento meteorológico precisa ser combinado com informações sobre as áreas suscetíveis a diferentes processos. Os mapas ajudam a identificar os setores mais vulneráveis e os fenômenos que podem ocorrer em cada local.
A gente tem esses mapas, esses produtos que são muito estáticos, e aí vem o clima, vem a meteorologia.
Marcelo Gramani, geólogo e pesquisador do IPT
Na prática, os mapas servem como uma referência sobre o território, enquanto o monitoramento acompanha as condições que podem desencadear os processos identificados. A Defesa Civil de São Paulo também considera a previsão da trajetória e da abrangência do fenômeno e o potencial de impacto esperado em cada localidade para definir as áreas que receberão os alertas.

Quando a chuva vira um alerta de risco
O acompanhamento das condições meteorológicas permite identificar quando um fenômeno pode se aproximar de uma situação capaz de provocar impactos. Em São Paulo, quando aparecem condições favoráveis a eventos adversos, o monitoramento passa a ser mais detalhado e contínuo. Conforme o fenômeno se aproxima ou começa a se desenvolver, entra em ação o nowcasting, que acompanha em curtíssimo prazo sua intensidade, trajetória e possíveis impactos.
As equipes utilizam radares, satélites, pluviômetros e estações meteorológicas para acompanhar a evolução das condições atmosféricas. Na capital paulista, o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) faz esse acompanhamento em tempo real, 24 horas por dia, enquanto a Defesa Civil considera os índices pluviométricos acumulados para prevenir escorregamentos de terra.
Essa combinação de informações permite avaliar se o fenômeno representa risco em determinada área e orientar a emissão de um alerta.
Prever o impacto também tem limites
Mesmo com mapas de risco, monitoramento contínuo e modelos meteorológicos, a previsão de impactos tem limitações. O próprio Gramani cita o desastre de São Sebastião, em fevereiro de 2023, para mostrar como a diferença entre o volume de chuva previsto e o que efetivamente ocorreu pode alterar o cenário.
Na semana anterior ao evento, segundo ele, os modelos já indicavam uma condição diferente para o litoral norte de São Paulo, com volumes elevados de chuva previstos para o fim de semana. O cenário foi comunicado antecipadamente à população por meio de entrevistas e reportagens. No entanto, a chuva registrada posteriormente ficou muito acima do que havia sido projetado. Gramani relata que os volumes previstos chegaram a 200, 250 e 300 milímetros, enquanto os registros durante o evento alcançaram entre 620 e 680 milímetros.
Olha como não é tão simples também monitorar. Então, foi o valor extremamente acima do previsto, que já era ruim. Os 200, 250, 300 milímetros já eram ruins e tinham risco de geração de escorregamento, por exemplo, e esse valor chegou a 600.
Marcelo Gramani, geólogo e pesquisador do IPT

O episódio mostra que uma previsão pode indicar antecipadamente um cenário de risco sem conseguir determinar com exatidão a dimensão que o evento terá. Ainda assim, a avaliação dos impactos permite identificar as áreas com maior probabilidade de serem afetadas e orientar a emissão de alertas e as medidas de proteção adequadas para cada cenário. A Defesa Civil de São Paulo informa que a definição dessas áreas considera a trajetória e a abrangência previstas para o fenômeno e o potencial de impacto em cada localidade.
Assim, prever os impactos não significa saber exatamente o que vai acontecer, mas reunir informações suficientes para antecipar onde os efeitos podem ser mais graves e permitir que autoridades e população se preparem antes que o fenômeno atinja o território.
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