Vênus apresenta um dos calendários mais estranhos do Sistema Solar: uma volta completa em torno do próprio eixo leva cerca de 243 dias terrestres, enquanto uma órbita ao redor do Sol dura aproximadamente 225 dias. A explicação está na rotação extremamente lenta do planeta e, principalmente, no fato de ela ocorrer no sentido contrário ao da maioria dos planetas.
Esse movimento é chamado de rotação retrógrada. Em comparação com a Terra, Vênus gira de leste para oeste. Por isso, se fosse possível observar o céu a partir de sua superfície, o Sol pareceria nascer no oeste e se pôr no leste. O fenômeno não é apenas uma curiosidade: ele altera a maneira como o tempo passa na superfície venusiana.

A rotação de Vênus é extremamente lenta
Os cientistas chamam de dia sideral o intervalo necessário para um planeta completar uma volta em relação às estrelas distantes. No caso de Vênus, esse período é de aproximadamente 243 dias terrestres.
O ano venusiano, por outro lado, corresponde ao tempo que o planeta leva para completar sua órbita ao redor do Sol: cerca de 225 dias. É essa diferença que cria o aparente paradoxo de um dia durar mais que um ano.
Mas existe uma segunda medida de tempo que torna a história ainda mais curiosa. O intervalo entre dois nasceres do Sol em Vênus é de aproximadamente 117 dias terrestres. Esse é o chamado dia solar, que depende tanto da rotação do planeta quanto de seu movimento orbital.
Como Vênus gira lentamente em sentido retrógrado enquanto avança ao redor do Sol, os dois movimentos se combinam. O resultado é um dia solar de cerca de 117 dias, bem menor que os 243 dias do dia sideral.
Na prática, isso significa que um período completo de luz do dia dura aproximadamente 58,5 dias terrestres, seguido por cerca de 58,5 dias de noite.

É aqui que a explicação fica menos definitiva. Os cientistas sabem como Vênus gira atualmente, mas ainda não existe uma resposta única e comprovada para explicar como o planeta chegou a essa configuração. A rotação retrógrada pode ser resultado da combinação de diferentes processos ocorridos ao longo de bilhões de anos.
Uma das possibilidades estudadas envolve as marés atmosféricas, movimentos da atmosfera provocados pelo aquecimento desigual causado pela luz do Sol. Um estudo publicado na revista Nature em 1978 propôs que essas marés podem exercer um torque, ou seja, uma força capaz de alterar a rotação do planeta. O modelo considera que esse efeito pode contrabalançar as marés gravitacionais produzidas pelo Sol e ajudar a explicar o estado de rotação lento observado em Vênus.
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Outra possibilidade envolve grandes impactos ocorridos durante a formação de Vênus. No início do Sistema Solar, os planetas rochosos passaram por uma fase marcada por colisões com grandes corpos. Uma dessas colisões poderia ter alterado significativamente a velocidade ou o sentido da rotação de Vênus. No entanto, essa hipótese não deve ser tratada como causa comprovada da rotação retrógrada.
Estudos posteriores publicados no periódico Icarus aprofundaram a relação entre as marés atmosféricas, as marés gravitacionais e a evolução da rotação de Vênus. Os modelos mostram que esses efeitos podem atuar em conjunto durante longos períodos, modificando gradualmente o estado de rotação do planeta.
Isso ajuda a explicar por que Vênus é tão diferente da Terra. Enquanto nosso planeta gira relativamente rápido e no sentido considerado convencional, Vênus apresenta uma rotação extremamente lenta e retrógrada. A origem exata dessa configuração, porém, continua sendo objeto de investigação científica.
O que parece certo é que não existe uma explicação simples do tipo “um único evento fez Vênus girar para trás”. A configuração atual provavelmente está ligada à interação de forças que atuaram durante uma enorme escala de tempo, incluindo a atmosfera do planeta e a influência gravitacional do Sol.
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