Um artigo publicado no periódico científico Journal of Geophysical Research: Planets revela que as emissões provenientes do pouso de espaçonaves na Lua podem se espalhar pela superfície lunar e contaminar áreas de grande valor científico – o que preocupa pesquisadores que estudam regiões onde o gelo polar pode guardar pistas sobre a origem da vida na Terra.
Muitos módulos de pouso, atuais e planejados, usam motores que produzem metano como subproduto. Esse gás é liberado durante a queima do propelente que desacelera a nave antes do pouso. No ambiente sem atmosfera da Lua, o metano não se dispersa como na Terra. Em vez disso, o gás viaja quase sem obstáculos pela superfície lunar.

O estudo mostrou que o metano pode ficar preso em crateras permanentemente sombreadas nos polos. Essas regiões nunca recebem luz solar e contêm gelo antigo, que preserva moléculas orgânicas trazidas por cometas e asteroides. Cientistas acreditam que esses compostos podem conter informações importantes sobre como a vida surgiu na Terra.
Não há regulamentação sobre a contaminação do solo lunar
As descobertas chegam em um momento de intenso interesse lunar. Agências espaciais e empresas privadas planejam missões de longa duração e até presença humana permanente – com a Artemis 2, primeira missão tripulada em direção ao satélite, programada para ser lançada esta noite (ainda que, desta vez, sem pouso). Os resultados do estudo podem ajudar a criar diretrizes para reduzir o impacto químico das futuras missões de pouso e proteger áreas sensíveis da Lua.
“Temos leis que regulamentam a contaminação de ambientes terrestres como a Antártida e parques nacionais. Penso que a Lua é um ambiente tão valioso quanto esses”, afirma Francisca Paiva, líder do estudo e pesquisadora do Instituto Superior Técnico de Portugal, em um comunicado.
Nos polos lunares, crateras frias podem manter gelo por bilhões de anos. O material congelado pode guardar moléculas prebióticas, ligadas às origens da vida. Ao contrário da Terra, onde a atividade geológica e a atmosfera apagaram grande parte do registro mais antigo, a Lua permanece praticamente inalterada. Isso torna o gelo polar um arquivo científico único.

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Metano viaja de forma “balística” pela Lua
Para entender a dispersão do metano, Paiva e sua equipe criaram um modelo computacional. Ele rastreia o movimento das moléculas produzidas pelos motores das espaçonaves. Usando a missão Argonaut, da Agência Espacial Europeia (ESA), como estudo de caso, eles simularam a liberação de metano a partir de 30 km do polo sul lunar.
As simulações mostraram que o metano viaja de forma “balística”, saltando de um ponto a outro sem se dispersar. Em menos de dois dias lunares, alcançou o polo oposto. Em sete dias lunares, 54% do gás ficou preso nas regiões polares, incluindo 12% no polo norte, longe do local de pouso.
“Mostramos que as moléculas podem viajar por toda a Lua. No final, onde quer que você pouse, haverá contaminação em todos os lugares”, alerta Paiva. Ainda não se sabe se o metano se deposita apenas na superfície ou penetra camadas profundas do gelo.
O estudo representa o primeiro passo para missões mais criteriosas. Modelagens futuras podem orientar medidas de proteção planetária e garantir uma exploração lunar sustentável. “Não é teórico – é uma realidade que vamos enfrentar”, afirma Silvio Sinibaldi, coautor e oficial de proteção planetária da ESA.
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