A Ferrari arrecadou US$ 40 milhões com o primeiro exemplar de produção do Luce, seu modelo totalmente elétrico. O carro foi leiloado pela RM Sotheby’s no último sábado (15) em Monterey (EUA). O valor superou em mais de 36 vezes a estimativa inicial de US$ 1,1 milhão. Você pode conhecer os detalhes sobre o veículo na página oficial da marca.
O automóvel, identificado pelo chassi ZFF21BUA8T0338000 e conhecido como “Chassis 0”, foi oferecido sem preço mínimo. Como a RM Sotheby’s também abriu mão da comissão do comprador, os US$ 40 milhões correspondem integralmente ao valor do arremate destinado à causa beneficente.
A quantia será encaminhada à Ferrari Foundation, organização que financia programas educacionais. O resultado ganha ainda mais relevância porque o carro representa o início da trajetória elétrica da fabricante italiana e foi vendido antes mesmo da entrega das primeiras unidades aos clientes.
O que torna o exemplar tão especial?

O veículo leiloado não é uma unidade convencional do Luce. Trata-se do primeiro carro produzido dentro do programa, concebido como uma configuração exclusiva da divisão Tailor Made, responsável pelas personalizações da Ferrari.
A carroceria recebeu a pintura Madreperla Semi Gloss, uma tonalidade especial que pode assumir aparência esverdeada ou violeta conforme a incidência de luz. No interior, a fabricante utilizou couro metálico Le Mans na cor Perla, combinado a detalhes Grigio Corvara.
A configuração também inclui elementos desenvolvidos especificamente para o exemplar, como rodas próprias, pinças de freio personalizadas e um cavalo empinado aplicado em acabamento óptico branco.
Apesar do valor desembolsado, o comprador ainda não receberá o automóvel imediatamente. O carro retornará a Maranello, na Itália, para a conclusão da montagem, e a previsão apresentada é de entrega no primeiro trimestre de 2027.
O preço do Luce convencional ajuda a dimensionar a diferença entre o valor de catálogo e o resultado obtido no leilão. A Ferrari estabelece o modelo em € 550 mil, aproximadamente US$ 640 mil. Assim, o arremate ficou em torno de 62 vezes o preço informado para o veículo.
Um novo recorde para a Ferrari

A venda também ampliou uma sequência de grandes arrecadações envolvendo exemplares especiais da marca. Em agosto de 2025, durante a mesma programação de Monterey, uma Ferrari Daytona SP3 única, produzida além das 599 unidades previstas originalmente, alcançou US$ 26 milhões.
Na ocasião, o modelo havia sido apresentado como o carro novo mais caro já vendido em um leilão. Um ano depois, a própria Ferrari elevou esse patamar com seu primeiro veículo movido exclusivamente por baterias.
O histórico inclui ainda uma LaFerrari Aperta única, arrematada por US$ 10 milhões em um evento realizado em Maranello, em 2017. Naquele caso, o dinheiro foi destinado ao auxílio após terremotos.
A comparação com outros modelos evidencia a dimensão do resultado. Em 2018, uma Ferrari 250 GTO fabricada em 1962 foi vendida pela RM Sotheby’s por US$ 48,4 milhões, valor que permanece entre os maiores já registrados por um automóvel em um leilão público. O Luce inaugural ficou US$ 8,4 milhões abaixo dessa marca.
O desempenho também supera com ampla margem os preços dos elétricos de produção mais caros mencionados no material. Rimac Nevera e Pininfarina Battista aparecem na faixa de US$ 2,2 milhões a US$ 2,5 milhões, embora tenham produção ainda mais limitada.
O contraste entre a recepção inicial e a procura
O resultado ocorre depois de uma estreia marcada por críticas. O Luce recebeu forte reação negativa durante sua apresentação em Roma, em maio. Na sequência do lançamento, as ações da Ferrari caíram, enquanto o ex-presidente da companhia Luca di Montezemolo afirmou que o emblema da marca não deveria estar associado ao modelo.
Cerca de um mês depois, a Ferrari substituiu seu responsável pelo marketing. Apesar da repercussão desfavorável, a procura pelo carro apresentou um cenário bastante diferente.
A alocação de 2026, composta por pouco menos de 500 veículos, foi totalmente comercializada em menos de dois meses. Isso aconteceu antes da primeira entrega a clientes, indicando que a controvérsia pública não impediu a demanda pelo novo modelo.
O leilão de Monterey acrescenta outro elemento a essa trajetória. Embora o caráter filantrópico da venda tenha influência evidente sobre o resultado, o montante obtido também funciona como uma demonstração simbólica de força para a Ferrari após a recepção inicial do Luce.
O debate entre colecionadores

A venda de US$ 40 milhões também provocou discussões sobre o futuro valor histórico do veículo. Parte dos comentários publicados após o leilão interpretou a aquisição como uma aposta na importância que o primeiro Ferrari elétrico poderá adquirir daqui a décadas.
Um dos comentaristas avaliou que o comprador pode estar apostando na permanência da Ferrari e na transformação do carro em um marco de transição entre duas fases da fabricante. Na mesma discussão, surgiu a hipótese de que o último Ferrari exclusivamente a combustão também poderá alcançar grande valorização entre colecionadores.
Outra linha de argumentação apontou que o primeiro e o último exemplar de uma determinada era automotiva podem despertar interesse justamente por representarem pontos de ruptura na história de uma marca.
Houve ainda críticas ao preço. Alguns participantes da discussão consideraram que os US$ 40 milhões dificilmente seriam justificáveis como investimento financeiro tradicional. Outros levantaram a possibilidade de que o negócio tenha relação com o acesso a futuros modelos extremamente limitados da Ferrari, embora essa hipótese apareça apenas como especulação nos comentários e não como fato confirmado.
O mesmo espaço de discussão também registrou questionamentos sobre a preservação de um veículo elétrico ao longo das décadas. Um comentário apontou a degradação das baterias como possível obstáculo para colecionadores, enquanto outro participante ponderou que um eventual carro clássico elétrico do futuro provavelmente não manteria sua bateria original.
Por trás dessas discussões está uma questão maior: se o Luce será lembrado apenas como o primeiro Ferrari elétrico ou se ganhará, com o passar do tempo, o status de peça histórica correspondente ao início de uma nova etapa da fabricante.
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