Profissões em Games — Por que essa coluna existe

Profissões em Games — Por que essa coluna existe

A pergunta que eu já ouvi mil vezes (e que quase ninguém responde direito)

Olha, essa pergunta já bateu na minha porta tantas vezes que perdi a conta: “Como é que eu faço pra trabalhar com games?” No começo, eu adorava responder — me jogava de cabeça, dava dicas, trocava ideia. Mas, com o tempo, comecei a perceber um padrão. Minhas respostas viravam quase automáticas. Pareciam decoradas.

“Ah, você pode ser game designer, programador, artista 3D, produtor…”

Sabe o que tem de errado nisso?

Tudo.

Não que essas profissões não existam. Elas existem. São importantes. Pagam contas. Sustentam a indústria. Mas elas são bem óbvias. São as únicas que aparecem nos guias de carreira, nos vídeos de “como trabalhar com jogos” e nas feiras de profissão. São sempre as mesmas. Sempre com a mesma promessa vaga de que “é só estudar e se dedicar” (ok isso não está errado, mas não é só isso).

E além do mais, a indústria de games não é só isso. Nunca foi.

O (que eu acho que é) problema com as listas de profissões em games

Sabe quando você pesquisa “carreira em jogos” no Google?

Aparecem mil listas. Todas iguais. Game designer. Programador. Artista 3D. QA. Produtor. Sound designer se você der sorte.

E os eSports não fazem parte dos games? Aí você pesquisa “carreira em eSports” Aparece pro player como se fosse só isso, como se não existissem dezenas de outros profissionais (de áreas correlatas aos games) que fazem com que o espetáculo aconteça. 

É como se a indústria inteira coubesse numa lista de “profissões dos sonhos” feita por alguém que nunca abriu uma engine na vida. Como se o mercado de games fosse um parque de diversões onde todo mundo quer ser o cara que cria a montanha-russa, mas ninguém pensa em quem construiu os trilhos, quem testou a segurança, quem calculou a velocidade, quem escreveu o manual, quem atende o público.

Como se o mercado de games fosse um Red Dead Redemption onde todo mundo quer andar a cavalo, mas ninguém sabe o que é uma sela. É como se todo o mercado de eSports fosse um Rocket League onde todo mundo tenta voar para fazer um gol de placa, mas ninguém volta para defender a própria rede.

A real é que o mercado de games é diferente, nichado e mais interessante do que qualquer lista pronta possa escrever.

Tem gente ganhando muito bem para escrever ferramentas internas que ninguém fora do estúdio conhece. Tem economista controlando a inflação das skins. Tem profissional de segurança digital caçando lavagem de dinheiro em marketplace de jogo. Tem gente que passa o dia inteiro pensando em como adaptar uma piada americana para o público brasileiro sem perder a graça. 

Mas para quebrar a expectativa, apesar de viver cercado por games, nem sempre você vai jogar o tempo inteiro ou adaptar uma das frases mais famosas do Bilbo Bolseiro “Não jogo a metade do que gostaria; e gosto de menos da metade do que jogo”

Nada disso aparece nos guias. E é exatamente por isso que essa coluna existe.

A segunda camada: o que ninguém te conta sobre trabalhar com games

Imagem: Tec8/ Reprodução

Eu gosto de uma ideia que virou meio que um mantra para mim ao longo dos anos: toda coisa que todo mundo conhece tem uma segunda camada.

Você conhece o Fortnite. Mas você conhece o economista que decide o preço da moeda virtual?

Você conhece o League of Legends. Mas você conhece o analista que caça trapaceiros e lavagem de dinheiro dentro do jogo?

Você conhece o Assassin’s Creed. Mas você conhece o engenheiro que constrói as ferramentas que os artistas usam para criar o mundo?

Pois é. Essa coluna é (na verdade eu vou me esforçar para que seja) sobre essa segunda camada.

Não é uma lista de “top 10 carreiras em games”. É um olhar para o que eu enxergo que está acontecendo nos bastidores da indústria. É pegar algo que muita gente conhece (games) e mostrar as profissões que sustentam esse mundo.

Vamos falar de economia dentro de jogos. De segurança. De acessibilidade. De localização. De infraestrutura. De ferramentas. De coisas que parecem chatas no nome e são fascinantes no conteúdo, na prática e como profissão.

Cada coluna uma profissão, uma visão, uma reflexão. Não a que você encontra no Google (tá eu vou falar dessas também). Mas quero falar mais sobre aquelas que você encontra quando para de olhar para a superfície.

Como surgiu a ideia dessa coluna

Sendo direto: essa coluna veio de um convite do Olhar Digital. Mas antes disso, por que eu?

A minha história com games vem de uma época em que não existia “trabalhar com games”. E com o passar do tempo, conforme eu ia me interessando pelo tema, eu fui descobrindo que tudo que eu pesquisava me levava sempre às mesmas 5 profissões básicas. Eu me interessei tanto pelo tema que acabei como redator e apresentador de um programa na Ubisoft que é justamente “Games e Profissões”

Eu passei anos estudando a indústria de games, participando de eventos, conversando com profissionais, ouvindo histórias de bastidores. E quanto mais eu conversava, mais eu percebia que a maioria das pessoas não faz ideia da quantidade de carreiras que existem dentro do mercado de games.

Não é só programação. Não é só arte. Não é só design.

Parece que todo mundo quer ser o próximo Hideo Kojima. Todo mundo quer criar o próximo grande jogo. Todo mundo quer ser o rosto da indústria. Mas a indústria não vive de rostos. Ela vive de times. De gente que faz o trabalho invisível. De profissionais que ninguém vê, mas que segura o castelo de pé.

É economia. É segurança. É dados. É localização. É infraestrutura. É acessibilidade. É ferramenta. É processo. É operação.

E, além disso, tem uma coisa que me incomoda profundamente: a forma como a gente fala sobre carreira em jogos no Brasil.

Foi por isso que eu quis criar essa coluna.

Queria um espaço onde a gente pudesse falar de profissões em games de um jeito diferente. Sem lista pronta. Sem promessa vazia. Sem “é só estudar e se dedicar”. Falar de profissões que ainda não são tão comuns no Brasil. Mas por que temos que falar justamente sobre essas? Porque o mercado de games e eSports é global e sem fronteiras, então o que te impede de concorrer a uma vaga fora daqui?

Um espaço onde a gente pudesse olhar para o que está acontecendo de verdade nos bastidores da indústria e dizer: olha, isso aqui é uma carreira. E talvez seja a sua.

O que você vai encontrar aqui

Imagem: Daquiprafora/ Reprodução

Antes de tudo, deixa eu ser claro sobre o que essa coluna não é. Eu adoro fazer isso, porque quando eliminamos o que não é fica mais fácil entender o que é.

Não é um guia de “como entrar na indústria”. Não é um tutorial de programação. Não é uma lista de cursos. Nem é um artigo motivacional sobre “seguir seus sonhos”.

Essa coluna é um exercício de curiosidade e de descoberta.

A cada edição, eu vou pegar uma profissão que existe de verdade e que paga as contas. Mas não vou ficar só nisso. Porque, assim como toda profissão tem uma segunda camada, toda profissão também diz alguma coisa sobre o mundo.

O economista de jogos diz algo sobre comportamento e consumo. O analista de integridade diz algo sobre ética e comunidade. O especialista em localização diz algo sobre cultura e pertencimento. O engenheiro de ferramentas diz algo sobre produção e invisibilidade.

Dessa forma, cada edição não é só sobre uma carreira. É sobre o que essa carreira revela sobre a indústria, sobre a tecnologia e sobre a gente.

O que você não vai encontrar aqui

Você não vai encontrar “game designer”. Não porque game design não seja importante. Mas porque você já sabe disso. Você já ouviu falar. Você já pesquisou. Já viu em mil listas diferentes. 

Você não vai encontrar “programador”. Pelo mesmo motivo. Todo mundo sabe que existe programador na indústria de games. Todo mundo sabe que é uma carreira possível. Não precisa de mais um artigo explicando isso.

Agora, você já ouviu falar de um engenheiro de renderização? De um DevOps para jogos? De um economista de jogos? Pois é. Essa coluna existe para preencher esse vazio.

Por que começar com esse artigo

Eu poderia ter começado essa coluna com um artigo sobre qualquer uma das profissões que a gente vai cobrir. Poderia ter começado com economia de jogos. Com segurança, localização, ferramentas.

Mas eu quis começar por aqui. Porque essa coluna não é só sobre profissões. É sobre uma forma de olhar para profissões.

É sobre parar de aceitar a lista pronta. É sobre olhar para o que está embaixo da superfície. É sobre entender que a indústria de games é muito maior, mais estranha e mais interessante do que a gente costuma imaginar. Não é sobre seguir um caminho que alguém traçou para você. É sobre olhar para o que existe de verdade e descobrir o que faz sentido para você. Não a que você encontra no Google. A que você encontra quando para de olhar para a superfície.

Então, se você chegou até aqui, já entendeu o espírito da coisa.

Vem comigo?

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