O Oceano Pacífico Equatorial está aquecendo rapidamente, e os principais centros de monitoramento climático do mundo já trabalham com uma alta probabilidade de formação do El Niño nos próximos meses.
O fenômeno natural, conhecido por alterar padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, voltou a preocupar cientistas por causa da possibilidade de atingir forte intensidade e se somar aos efeitos do aquecimento global.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há cerca de 80% de chance de que condições de El Niño estejam presentes entre junho e agosto de 2026. As projeções indicam ainda uma probabilidade superior a 90% de que o fenômeno persista durante a segunda metade do ano.
Já a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima que o fenômeno tem 82% de chance de já ter começado em maio (ou deve iniciar até julho), com 96% de probabilidade de continuidade até o início de 2027. Essas previsões acenderam o alerta para possíveis impactos climáticos em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil.
Devemos esperar um Super El Niño?
Embora ainda haja incerteza sobre a intensidade máxima que será alcançada, os sinais observados no Pacífico vêm chamando a atenção da comunidade científica. Carlos Nobre, climatologista brasileiro, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e uma das principais referências mundiais em mudanças climáticas, afirma que os modelos climáticos globais apontam que o fenômeno já está em desenvolvimento.

Segundo ele, a temperatura da superfície do mar na região central e centro-leste do Pacífico Equatorial já ultrapassou o limite normalmente utilizado para caracterizar o início do El Niño. Nobre destaca que projeções da NOAA, da OMM e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam uma tendência de fortalecimento ao longo dos próximos meses. “As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados”.
A confiança nessas previsões é relativamente alta porque elas não se baseiam em palpites. Os modelos climáticos atuais utilizam milhões de dados coletados por satélites, boias oceânicas, estações meteorológicas e sistemas de observação atmosférica espalhados pelo planeta.
Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), lembra que a palavra previsão muitas vezes transmite uma ideia equivocada. “Previsão é uma palavra que às vezes passa a impressão de palpite, quase como astrologia. Mas existem modelos climáticos bastante robustos”, disse em entrevista recente ao Olhar Digital.
Ainda assim, os especialistas destacam que existe uma diferença importante entre prever a ocorrência do fenômeno e prever exatamente seus impactos. A NOAA ressalta que o desenvolvimento do El Niño é cada vez mais provável, mas o grau de intensidade ainda depende da interação entre oceano e atmosfera ao longo dos próximos meses. Em outras palavras, os cientistas têm elevada confiança de que o fenômeno ocorrerá, mas ainda acompanham sua evolução antes de classificá-lo definitivamente como um Super El Niño.

Como o fenômeno vai impactar o Brasil
Historicamente, os efeitos do El Niño no Brasil variam de região para região. Segundo o INPE, em eventos fortes, o Sul costuma registrar aumento das chuvas e maior frequência de tempestades, enquanto partes da Amazônia e do Nordeste frequentemente enfrentam períodos mais secos. O fenômeno também pode influenciar a ocorrência de ondas de calor e alterar a distribuição das precipitações em várias áreas do país.
Nobre lembra que os impactos foram observados em episódios recentes. “Mesmo o El Niño de 2023 e 2024, considerado moderado no Pacífico, contribuiu para eventos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul”. O pesquisador explica que o fenômeno pode intensificar sistemas meteorológicos conhecidos, como ciclones extratropicais, aumentando o potencial de chuvas intensas na Região Sul. Além disso, o aquecimento anormal do Oceano Atlântico observado nos últimos anos fornece mais vapor d’água para a atmosfera, favorecendo precipitações mais volumosas.
Lucon destaca que os efeitos podem ir além dos desastres naturais. Ele alerta para riscos de crises hídricas, perdas agrícolas e impactos econômicos em um país cuja produção agropecuária tem grande peso na economia.
O pesquisador também chama atenção para consequências na saúde pública. Idosos, crianças pequenas e populações vulneráveis tendem a sofrer mais durante períodos de calor extremo. “Pessoas que vivem em áreas periféricas, com pouca arborização e forte exposição ao calor, sofrem mais com as chamadas ilhas de calor”. Para ele, o país precisa investir em protocolos emergenciais, segurança hídrica, brigadas de incêndio e estruturas de proteção para a população mais exposta aos efeitos climáticos.

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El Niño e aquecimento global
A relação entre El Niño e aquecimento global é um dos temas mais debatidos pela ciência climática. Os pesquisadores concordam que o fenômeno é natural e ocorre há milhares de anos. A discussão atual é outra: um planeta mais quente pode tornar seus impactos mais intensos?
Para Nobre, as evidências apontam nessa direção. Ele explica que o Oceano Pacífico está aquecendo juntamente com o restante do planeta. Assim, quando um episódio de El Niño se desenvolve sobre águas já mais quentes do que no passado, sua intensidade tende a aumentar. O climatologista lembra que eventos muito fortes, antes considerados relativamente raros, podem se tornar mais frequentes ao longo das próximas décadas se as emissões de gases de efeito estufa continuarem crescendo.
Já Lucon adota uma postura mais cautelosa ao discutir a relação direta entre este evento específico e as mudanças climáticas. Segundo ele, a palavra correta é “pode”. Embora os registros mostrem um planeta cada vez mais quente e uma sucessão de eventos extremos, ainda existem aspectos científicos em investigação. Mesmo assim, ele destaca que o aquecimento global significa mais energia disponível no sistema climático. Essa energia extra influencia correntes oceânicas, massas de ar e padrões de circulação atmosférica, criando condições favoráveis para eventos extremos mais severos.
Os impactos podem ser particularmente preocupantes para ecossistemas já fragilizados. Lucon cita os chamados pontos de não retorno, situações em que determinados danos podem se tornar irreversíveis. Geleiras derretidas, espécies extintas e ecossistemas degradados dificilmente retornam ao estado original. Na Amazônia, por exemplo, períodos prolongados de seca associados ao aumento das temperaturas podem aumentar o risco de incêndios e acelerar processos de degradação ambiental.
Diante desse cenário, os especialistas defendem que a principal discussão não deve ser apenas se o próximo El Niño será ou não o mais intenso da história. A questão central é como governos, empresas e sociedade podem se preparar para um clima cada vez mais instável. Como resume Lucon, “o desafio atual é transformar o conhecimento científico em ações concretas de adaptação”. Afinal, enquanto o debate continua, os efeitos dos eventos extremos já estão sendo sentidos em diferentes regiões do planeta.
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