A identidade de Satoshi Nakamoto, nome usado pelo criador do Bitcoin, voltou ao centro de uma nova investigação jornalística. O jornal The New York Times reuniu indícios linguísticos, históricos e técnicos para sustentar uma hipótese já conhecida no universo das criptomoedas: a de que o criptógrafo britânico Adam Back poderia estar por trás do pseudônimo mais famoso da internet.
A apuração partiu de um documentário da HBO que tentava revelar quem teria criado o Bitcoin. A conclusão apresentada no filme não convenceu os repórteres do NYT, mas uma cena específica despertou atenção: ao ser citado como possível Satoshi, Adam Back reagiu com desconforto diante das câmeras. A partir dali, a busca foi retomada com um novo foco.
O ponto de partida passou a ser o próprio rastro deixado por Satoshi. Embora o criador do Bitcoin tenha construído uma reputação de anonimato quase absoluto, ele deixou textos, mensagens em fóruns e e-mails trocados com pioneiros do projeto. Esse material se ampliou após a divulgação, em um processo judicial em Londres, de centenas de mensagens trocadas entre Satoshi e o programador finlandês Martti Malmi, um dos primeiros colaboradores do Bitcoin.
Com esse acervo em mãos, a investigação voltou-se para a linguagem usada por Satoshi e para possíveis correspondências com nomes já levantados ao longo de quase duas décadas.
Adam Back passou a chamar atenção não apenas por ter sido citado no white paper do Bitcoin, mas por apresentar um conjunto de características compatíveis com o perfil atribuído a Satoshi: britânico, ativo entre os cypherpunks, especialista em criptografia, defensor de sistemas descentralizados e inventor do Hashcash, mecanismo usado por Satoshi como base para a mineração do Bitcoin.
A análise também apontou paralelos entre a forma de escrever de Back e a de Satoshi. Expressões, construções gramaticais, escolhas de ortografia e até erros de hifenização apareceram de maneira recorrente nos dois conjuntos de textos. Entre os sinais observados estavam o uso alternado de formas britânicas e americanas, o hábito de terminar frases com “also” e a grafia inconsistente de termos técnicos.
A investigação ganhou força ao percorrer arquivos antigos das listas de discussão dos cypherpunks, grupo que discutia privacidade, criptografia e dinheiro digital ainda nos anos 1990. Nesses registros, Back não apenas aparecia como participante ativo, mas formulava ideias que antecipavam diversos pilares do Bitcoin. Em mensagens de 1997 a 1999, ele discutiu um sistema de dinheiro eletrônico descentralizado, resistente à censura, com escassez controlada, verificabilidade pública e proteção contra dupla contagem de gastos.
Em um desses textos, Back chegou a propor um sistema bancário distribuído em que diferentes nós participariam da validação da rede, conceito que mais tarde se tornaria central no funcionamento do Bitcoin. Também sugeriu o uso de esforço computacional crescente ao longo do tempo para evitar inflação excessiva em uma moeda digital – solução semelhante à adotada por Satoshi no ajuste de dificuldade da mineração.
Outro elemento que chamou atenção foi a relação entre Hashcash e b-money. Em 1998, Back sugeriu que o Hashcash poderia ser usado como base para cunhar moedas digitais dentro da proposta de Wei Dai, criador do b-money. Anos depois, Satoshi combinaria justamente esses dois conceitos na arquitetura do Bitcoin. Para a investigação, a coincidência pareceu relevante demais para ser descartada rapidamente.

Adam Back desapareceu assim que o Bitcoin foi lançado
A trajetória pública de Back também levantou dúvidas. Embora tenha sido um participante constante dos debates sobre dinheiro eletrônico nas listas cypherpunk, ele ficou em silêncio justamente no momento em que o Bitcoin surgiu e passou a ser discutido publicamente. Segundo a investigação, não há registro de participação dele nos debates iniciais sobre o white paper em 2008 e 2009, apesar de mais tarde ele afirmar que acompanhou o tema de perto.
Esse silêncio terminou em 2011, semanas após o desaparecimento definitivo de Satoshi. Nos anos seguintes, Back se tornaria uma das figuras mais influentes do ecossistema do Bitcoin, culminando na criação da Blockstream, empresa que reuniu desenvolvedores centrais do protocolo e levantou grandes volumes de capital.
A apuração também levou em conta análises computacionais. Um linguista consultado refez testes de estilometria comparando o white paper do Bitcoin com textos de 12 suspeitos. Em uma das rodadas, Back apareceu como a correspondência mais próxima, embora o resultado tenha sido considerado inconclusivo.
Diante disso, a investigação adotou outros métodos, como comparação de palavras sem sinônimos e mapeamento de erros de hifenização. Nesses recortes, Back voltou a se destacar.
Em outra etapa, um banco de dados com mais de 134 mil mensagens de listas ligadas ao universo cypherpunk foi filtrado para encontrar perfis com padrões linguísticos semelhantes aos de Satoshi. A combinação de ortografia britânica, uso de certos termos técnicos, inconsistências específicas e marcas estilísticas reduziu o universo de suspeitos até restar apenas Adam Back.

Back nega ser o criador do Bitcoin
Mesmo assim, a prova definitiva segue ausente. No universo Bitcoin, a única forma indiscutível de provar a identidade de Satoshi seria movimentar moedas associadas aos primeiros blocos minerados. Nada disso aconteceu.
Back foi procurado pela reportagem do NYT e confrontado com a linha de investigação em encontros presenciais e por e-mail. Em mais de uma ocasião, negou ser Satoshi.
“No fim das contas, isso não prova nada. E garanto que não fui eu”, disse. Ao comentar as análises de escrita, respondeu: “Não sei. Não sou eu, mas entendo o que você está dizendo, que foi isso que a IA disse com base nos dados. Mas ainda assim não sou eu”.
Questionado sobre lacunas em sua cronologia pública e sobre aparentes contradições envolvendo e-mails atribuídos a Satoshi, Back reconheceu alguns pontos levantados, como a estranheza em Satoshi dizer que não conhecia o b-money ao mesmo tempo em que citava um artigo que o mencionava. Ainda assim, rejeitou a hipótese de ter criado uma troca de mensagens consigo mesmo para afastar suspeitas e não forneceu os metadados desses e-mails, mesmo após pedido direto.
Sem uma confissão, sem movimentação das moedas originais e com décadas de especulações acumuladas, o mistério sobre Satoshi Nakamoto continua oficialmente sem solução. Ainda assim, a nova investigação sustenta que Adam Back reúne, até aqui, o conjunto mais robusto de elementos compatíveis com o criador do Bitcoin.
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