Série mostra cidade em bunker — mas isso seria possível?

Série mostra cidade em bunker — mas isso seria possível?

A série Paradise, cuja segunda temporada estreia no Disney+ desde fevereiro, apresenta uma reviravolta logo no primeiro episódio: a história se passa em uma cidade subterrânea construída para proteger milhares de pessoas após a previsão de um evento catastrófico global. Na trama, cerca de 25 mil pessoas passam a viver em um grande bunker, projetado para funcionar como um ecossistema fechado.

A premissa levanta uma questão que vai além da ficção: seria possível construir uma cidade subterrânea desse porte na vida real? Especialistas afirmam que alguns elementos mostrados na série têm base em engenharia existente, embora diversos aspectos ainda extrapolem o que é tecnicamente viável hoje.

Estrelada por Sterling K. Brown, série Paradise tem reviravolta logo no começo (Imagem: Divulgação / Disney+)

Estruturas subterrâneas habitáveis já existem

De acordo com especialistas ouvidos pela universidade Virginia Tech, parte da infraestrutura mostrada em Paradise se apoia em conceitos reais de engenharia.

O professor Ali Mehrizi-Sani, da área de engenharia elétrica e de computação, afirma que a série parte de princípios técnicos conhecidos, ainda que leve algumas ideias além do que é possível atualmente. Grande parte do que Paradise retrata é baseado em engenharia, mas extrapola bastante a partir do que está disponível atualmente”, disse o especialista.

Instalações subterrâneas também já existem em diferentes contextos. O professor Nino Ripepi, da área de engenharia de mineração e minerais, lembra que diversos países construíram bunkers capazes de abrigar pessoas por períodos prolongados.

“Muitos países criaram bunkers que poderiam abrigar pessoas abaixo da terra por um período. Temos um bunker abaixo da Casa Branca. O Greenbrier Resort, na Virgínia Ocidental, possui um grande bunker projetado para abrigar todos os membros do Congresso. Algumas cidades subterrâneas na Turquia datam do século VII”, afirmou.

Casa Branca
Existem bunkers em vários lugares no mundo, inclusive alguns em locais estratégicos como na Casa Branca (Imagem: turtix / Shutterstock.com)

Segundo Ripepi, o que a série acerta é ao sugerir que um projeto dessa escala exigiria planejamento prolongado e investimentos muito elevados. “O maior acerto foi que isso exigiria uma década de planejamento e construção, além de muito dinheiro para ser concretizado. Seria possível construir uma cidade subterrânea como a de Paradise? Só se você tivesse muito dinheiro sobrando para gastar à vontade.”

Energia seria um dos maiores desafios

Outro ponto central seria garantir energia para manter a cidade funcionando. Em análise sobre o tema, o Aspectus Group afirma que uma cidade subterrânea poderia contar com diferentes fontes energéticas, dependendo das condições do projeto.

Uma possibilidade apontada é a energia geotérmica, que poderia fornecer eletricidade, aquecimento e refrigeração sem depender de estruturas instaladas na superfície. A hipótese é considerada especialmente relevante em um cenário de catástrofe global, em que sistemas como energia solar ou eólica poderiam não estar disponíveis.

A análise também menciona petróleo e gás como alternativas plausíveis, desde que combinadas com tecnologias de captura de carbono para reduzir o impacto sobre o sistema de filtragem de ar do ambiente fechado.

Outra opção seria a geração de energia a partir de resíduos, que permitiria ao mesmo tempo produzir eletricidade e lidar com o tratamento do lixo. O uso de reatores nucleares modulares também poderia ser considerado, embora a tecnologia ainda seja menos madura do que outras alternativas.

Água, ar e infraestrutura exigiriam controle rigoroso

Manter uma cidade subterrânea habitável também exigiria infraestruturas complexas de abastecimento de água e ventilação. Na série, aparecem diferentes corpos d’água, mas no mundo real seria necessário um sistema robusto de tratamento e filtragem. Qualquer contaminação poderia comprometer rapidamente o ambiente, já que o sistema funcionaria como um ecossistema fechado.

Segundo Ali Mehrizi-Sani, algumas tecnologias atuais mostram que estruturas autossuficientes são possíveis, ao menos em escala menor. “Podemos chegar bem perto de muito do que Paradise mostra. Os EUA já possuem algumas instalações militares subterrâneas, incluindo uma no Colorado — Cheyenne Mountain — e outra na Pensilvânia — Raven Rock Mountain Complex.”

Ele também lembra que os Estados Unidos e o Canadá operam estações de radar remotas que funcionam como microrredes autossuficientes, enquanto submarinos nucleares podem operar por 20 a 30 anos sem reabastecimento.

O que a série exagera na engenharia?

Apesar das semelhanças com projetos reais, especialistas destacam que vários aspectos da série seriam difíceis de reproduzir na prática.

Um dos principais problemas seria estrutural. Segundo Nino Ripepi, uma área subterrânea tão grande e aberta quanto a mostrada na série não seria estável sem reforços.

Ter uma área aberta tão grande e 25 mil pessoas vivendo dentro dessa cúpula simplesmente não é realista do ponto de vista da geologia e do controle do solo. Seriam necessários pilares e parafusos de ancoragem no teto para impedir que a enorme caverna desabasse.

Nino Ripepi

O especialista também afirma que ambientes subterrâneos reais tendem a ser menos organizados e limpos do que os retratados na ficção. “Os espaços subterrâneos tendem a ser sujos. Normalmente, as pessoas simplesmente se viram para que funcionem, em vez de se preocuparem em deixá-los bonitos.”

A iluminação também seria diferente. Em vez de reproduzir perfeitamente a luz solar, engenheiros provavelmente utilizariam lâmpadas LED de alta eficiência. Mesmo assim, o calor gerado por esses sistemas precisaria ser removido do ambiente para evitar superaquecimento.

Cidades subterrâneas existem na vida real

Apesar dos desafios, há exemplos reais de comunidades construídas abaixo da superfície. Uma reportagem da BBC destaca o caso de Derinkuyu, na Turquia, considerada a maior cidade subterrânea escavada do mundo.

O local possui 18 níveis de túneis e fica a mais de 85 metros de profundidade, tendo sido habitado por milhares de pessoas ao longo da história até ser abandonado no início do século XX.

Derinkuyu
Derinkuyu é uma cidade subterrânea na Turquia (Imagem: Igor Stramyk / Shutterstock.com)

Outro exemplo citado pela BBC é Coober Pedy, na Austrália. A cidade mineradora, com cerca de 2.500 habitantes, desenvolveu grande parte de suas construções no subsolo para escapar do calor extremo da região.

Segundo a reportagem, as casas subterrâneas costumam ficar a pelo menos quatro metros de profundidade, o que garante temperaturas internas estáveis em torno de 23 °C ao longo de todo o ano, mesmo quando o exterior enfrenta verões muito quentes e invernos frios.

coober pedy
Em Coober Pedy, na Austrália, as construções subterrâneas são para preservar o clima (Imagem: Wirestock Creators / Shutterstock.com)

Esses exemplos mostram que viver abaixo da superfície é possível em determinadas condições, embora especialistas ressaltem que construir uma cidade subterrânea totalmente autossuficiente e com dezenas de milhares de habitantes ainda represente um desafio técnico e financeiro enorme.

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