Smart TVs da LG espionam usuários? Recentemente, testes apontaram que os aparelhos coletavam e rastreavam dados de quem os usasse. O que repercutiu é que smart TVs da marca captavam sons e informações até quando estavam em modo de espera (stand-by, no jargão).
No sábado (12), a empresa publicou um comunicado no qual frisou que suas smart TVs “não gravam nem transmitem conversas de forma contínua”. “Algumas matérias recentes da mídia podem ter contribuído para concepções equivocadas sobre como funcionam as smart TVs da LG”, disse a companhia sul-coreana.
O Olhar Digital repercutiu este caso com Leandro Alvarenga, consultor de privacidade e segurança. O especialista apontou o que você precisa entender nesta história. E como a legislação brasileira ampara usuários quando o assunto é dispositivos eletrônicos que nos escutam.
Smart TVs da LG ouvem você? Entenda o caso
Uma investigação do canal Gamers Nexus com o Level1Techs e especialistas de segurança alegou que smart TVs OLED da LG: 1) procuravam dispositivos na rede local (como celulares e relógios); e 2) podiam gravar áudio até em modo de espera, guardando os arquivos para envio aos servidores quando a internet retornasse.
Em comunicado publicado no fim de semana, a fabricante informou que o microfone só é ativado quando o usuário pressiona o botão de voz no controle remoto ou fala a palavra de comando.

Além disso, a verificação da palavra de ativação ocorre de forma local dentro da TV, segundo a LG. Ainda de acordo com a empresa, se nenhuma instrução for identificada, o som é apagado sem ser transformado em texto, armazenado ou enviado para a internet.
A companhia também informou que cada sessão de comando dura no máximo 18 segundos (limite parecido ao do Live Recap – novo recurso controverso nos modelos mais recentes de Apple Watch).
Outro ponto importante: Recursos de Reconhecimento Automático de Conteúdo (ACR, na sigla em inglês) servem para identificar o programa exibido na tela. A LG ressaltou que essas funções vêm desativadas de fábrica. E que dados de áudio jamais são repassados para sua divisão de publicidade.
O que você precisa entender
“Primeiro, a gente precisa separar algumas coisas”, disse Alvarenga. “E não é só a televisão: diversos dispositivos hoje inteligentes, na casa inteligente, nos escutam o tempo todo.”
O problema não é escutar; o problema é quando essa conversa é armazenada numa nuvem e enviada para fora.
Leandro Alvarenga, consultor de privacidade e segurança, em entrevista ao Olhar Digital.
O especialista ressaltou que, hoje em dia, é comum falar para aparelhos fazerem coisas (como acender a luz, tocar uma música, despertar daqui alguns minutos). “Se o aparelho não estiver ouvindo, como ele vai obedecer ao comando? Isso vale para smart TVs também.”
Segundo Alvarenga, estar ouvindo para receber comandos em voz “é uma operação totalmente legal”. “A questão é: se a televisão manda esses dados para fora e esses dados são analisados, aí sim haveria abuso e mau uso.”

É isso que a LG disse não acontecer. De acordo com o comunicado, as smart TVs da marca não gravam, não armazenam e não enviam conversas do ambiente para fora. Segundo a empresa, o aparelho processa o áudio localmente. E não envia conversas da sua casa para a nuvem.
Outro ponto importante: consentimento. Sabe aqueles termos de uso que você provavelmente não leu e apertou um botão dizendo que os aceita para, finalmente, configurar seu aparelho novo? Ao aceitá-los, você consente com muita coisa.
No entanto, “não é pelo fato de o consumidor ter dado consentimento que ele é amplo e irrestrito, permitindo que a empresa faça o que quiser com isso”, disse Alvarenga. “O consentimento tem que ser informado, claro e aderente àquela finalidade de relacionamento. Se não for, ainda que tenha o consentimento, ele pode ser considerado nulo e abusivo. E a empresa pode pagar por isso.”
A LGPD nos protege, mas temos que ficar atentos.
Leandro Alvarenga, consultor de privacidade e segurança, em entrevista ao Olhar Digital.
Em casos como o de smart TVs e smartwatches que ouvem, a questão do consentimento é a seguinte: “Quem deu o consentimento para aquilo captar áudio? Foi a pessoa que comprou e fez a configuração. Agora, vamos dizer, por exemplo, na minha casa: eu fiz a configuração. Mas minha esposa não deu o consentimento. Os aparelhos vão captar o que ela diz? O consentimento não pode ser estendido para terceiros”, explicou o especialista.
“Enquanto esse smartwatch ou essa smart TV fica no mundo offline (ou seja, só o usuário que deu o consentimento está ali acessando aquelas informações para um benefício próprio e não há compartilhamento com terceiros nem com o fabricante), a situação é uma. Agora, a partir do momento em que você faz o compartilhamento com terceiros, eu não tenho o direito de dizer que o meu dispositivo pode coletar a voz de alguém”, disse Alvarenga. “O consentimento da pessoa só ela pode dar.”
Assista abaixo a entrevista completa com o consultor de privacidade e segurança:
O post Sua smart TV pode te ouvir até desligada! apareceu primeiro em Olhar Digital.