Super El Niño vai impactar o Brasil? Saiba o que esperar na sua região

Super El Niño vai impactar o Brasil? Saiba o que esperar na sua região

Menos de três anos depois de um dos períodos mais extremos da história recente do clima brasileiro, os cientistas voltaram a mirar o Oceano Pacífico. As águas da região equatorial estão aquecendo rapidamente e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) acaba de confirmar, nesta quinta-feira (11), a chegada do El Niño.

À primeira vista, a notícia pode parecer apenas mais uma atualização sobre um fenômeno climático conhecido. Mas, para muitos pesquisadores, a preocupação vai além. O último grande El Niño coincidiu com secas históricas na Amazônia, incêndios recordes em diferentes biomas e chuvas devastadoras que culminaram na maior tragédia climática já registrada no Rio Grande do Sul.

Agora, a possibilidade de um novo episódio forte surge em um planeta ainda mais quente do que aquele de poucos anos atrás. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há cerca de 80% de probabilidade de que condições de El Niño estejam presentes entre junho e agosto de 2026, com mais de 90% de chance de persistência durante a segunda metade do ano. Para os especialistas, a pergunta já não é se o fenômeno terá impacto sobre o Brasil, mas quais regiões sentirão seus efeitos com mais intensidade.

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Mapa da NOAA mostra anomalias da temperatura da superfície do mar entre maio e junho de 2026. As áreas em vermelho indicam águas mais quentes que a média, sinalizando o desenvolvimento e fortalecimento do El Niño no Pacífico Equatorial. – Crédito: NOAA/PSL

O problema não é apenas o El Niño

O El Niño é um fenômeno natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança altera a circulação atmosférica em escala global e afeta a distribuição de chuvas e temperaturas em diversas partes do planeta. O fenômeno ocorre há milhares de anos. O que mudou foi o contexto em que ele acontece.

Carlos Nobre, climatologista, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e uma das maiores referências mundiais em aquecimento global, afirma que os sinais observados nos últimos meses no Pacífico já indicavam um cenário de forte preocupação.

Segundo ele, os modelos climáticos da NOAA, da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para um fortalecimento ao longo dos próximos meses. “As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados”.

Mas a preocupação dos pesquisadores não se resume à força do fenômeno. Ela está relacionada ao momento em que ele surge.

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Carlos Nobre alerta que há alta probabilidade de um dos El Niños mais intensos já registrados, exigindo preparação para seus impactos. – Crédito: Divulgação / IEA

O último grande El Niño terminou há relativamente pouco tempo. Em 2023 e 2024, o Brasil enfrentou uma sequência de eventos extremos que expôs fragilidades em praticamente todas as regiões do país. Houve secas severas na Amazônia, incêndios em grandes proporções e chuvas históricas no Sul.

Para Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), a discussão mais importante não é exatamente se o próximo evento será o maior dos últimos 140 anos.

“Vamos esperar décadas para confirmar todos os detalhes dessa relação com o aquecimento global ou vamos agir diante dos riscos que já estão se apresentando? Essa é a pergunta mais importante”, afirma.

O Sul conhece bem esse roteiro

Nenhuma região brasileira costuma ser tão diretamente afetada pelo El Niño quanto o Sul do país. Historicamente, episódios fortes do fenômeno estão associados ao aumento das chuvas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. Dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) mostram que eventos de El Niño favorecem precipitações acima da média em grande parte da região, especialmente durante a primavera.

Essa característica já foi observada em diversos episódios históricos – e também apareceu recentemente.

Embora as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 não possam ser atribuídas exclusivamente ao El Niño, cientistas apontam que o fenômeno ajudou a criar condições favoráveis para chuvas excepcionais. A NASA destaca que eventos de El Niño costumam aumentar as precipitações desde o sul do Brasil até a Argentina e o Uruguai.

Nobre explica que o fenômeno modifica padrões atmosféricos capazes de intensificar sistemas meteorológicos já conhecidos. “O El Niño cria condições que podem intensificar fenômenos meteorológicos como os ciclones extratropicais, tornando-os mais fortes no Sul do Brasil”, afirma.

Mas existe um agravante. O Atlântico Sul também tem registrado temperaturas excepcionalmente elevadas nos últimos anos. Oceanos mais quentes significam maior evaporação de água. E mais vapor na atmosfera representa potencial para chuvas ainda mais intensas.

Mulher com água até o joelhos em enchente no Rio Grande do Sul
A enchente histórica no Rio Grande do Sul em 2024 pode ter sido influenciada pelo El Niño, embora o evento extremo tenha resultado da combinação de diferentes fatores climáticos e atmosféricos. – Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

A preocupação dos especialistas não está apenas no volume total de precipitação. Chuvas concentradas em poucos dias costumam provocar os maiores prejuízos, especialmente em cidades com problemas de drenagem urbana ou ocupação irregular de áreas de risco.

Por isso, a região Sul aparece como uma das principais áreas de atenção.

Enquanto isso, no Sudeste, uma ameaça diferente

O mesmo fenômeno que pode provocar excesso de chuva no Sul costuma produzir efeitos diferentes no Sudeste. A região não necessariamente ficará sem chuva. Mas diversos estudos mostram que episódios de El Niño favorecem temperaturas acima da média em boa parte do Brasil.

Em um país que já vem registrando recordes sucessivos de calor, essa perspectiva preocupa especialistas.

Nos últimos anos, cidades brasileiras enfrentaram ondas de calor históricas. Em alguns casos, a sensação térmica ultrapassou os 60°C. O problema é ainda mais grave em áreas urbanizadas, onde o concreto e o asfalto absorvem calor durante o dia e dificultam o resfriamento noturno.

Segundo Lucon, os impactos tendem a atingir principalmente as populações mais vulneráveis. “Pessoas que vivem em áreas periféricas, com pouca arborização e forte exposição ao calor, sofrem mais com as chamadas ilhas de calor.”

oswaldo lucon entrevista
Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Olhar Digital. – Crédito: Olhar Digital

Os efeitos vão muito além do desconforto térmico. Temperaturas elevadas aumentam a demanda por energia elétrica, ampliam o consumo de água e elevam os riscos à saúde de idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

O pesquisador também alerta para possíveis impactos econômicos. O calor excessivo afeta a produtividade no campo, pressiona sistemas de abastecimento e pode agravar crises hídricas em regiões que já enfrentam períodos prolongados de estiagem.

Na Amazônia, a preocupação é outra

Se no Sul a ameaça é o excesso de água, na Amazônia o temor é exatamente o oposto. Ao longo do tempo, eventos intensos de El Niño têm sido associados à redução das chuvas em grandes áreas da floresta amazônica. O fenômeno altera a circulação atmosférica tropical e dificulta a formação de sistemas responsáveis pelas precipitações na região.

Os impactos vão muito além da meteorologia. Quando os rios perdem volume, comunidades inteiras enfrentam dificuldades para transporte, abastecimento e acesso a serviços básicos. Em 2023, diversos rios amazônicos atingiram níveis historicamente baixos, afetando milhares de pessoas.

Nobre afirma que secas severas figuram entre os efeitos mais frequentes do fenômeno na região. “Em algumas regiões, provoca secas severas, como acontece frequentemente na Amazônia.” Mas o cenário atual traz uma preocupação adicional.

Secas históricas expõem risco de colapso na Amazônia
Secas históricas expõem risco de colapso na Amazônia – Crédito: Rich Carey / Shutterstock

O aquecimento global vem elevando as temperaturas médias da floresta. Com menos chuva e mais calor, aumenta o risco de incêndios e de degradação de ecossistemas que já enfrentam pressão do desmatamento.

Lucon chama atenção para a possibilidade de impactos irreversíveis.”Uma espécie extinta não retorna. Um ecossistema destruído dificilmente recupera suas características originais.”

A preocupação com os chamados pontos de não retorno deixou de ser um debate exclusivamente acadêmico. Para muitos pesquisadores, a Amazônia se aproxima de limites críticos capazes de alterar profundamente seu funcionamento ecológico.

O Nordeste pode voltar a sofrer com a seca

O Nordeste também aparece entre as regiões que exigem atenção especial. Os efeitos do El Niño variam de acordo com a localização geográfica, mas eventos intensos costumam estar associados à redução das chuvas em áreas do norte da região.

Para milhões de pessoas que dependem diretamente da agricultura familiar, isso pode representar um desafio considerável. Historicamente, algumas das secas mais severas registradas no semiárido ocorreram durante anos influenciados pelo fenômeno. Menos chuva significa menor recarga de reservatórios, dificuldades para produção agrícola e maior vulnerabilidade socioeconômica.

Segundo Nobre, esse padrão é conhecido pelos climatologistas há décadas. O problema é que a região entra nesse novo ciclo climático após anos marcados por extremos sucessivos. Em vez de alternar períodos relativamente estáveis, muitas localidades passaram a enfrentar secas mais severas e episódios de chuva intensa em intervalos cada vez menores.

Para os especialistas, isso aumenta a necessidade de políticas voltadas à segurança hídrica e à adaptação climática.

seca nordeste
Historicamente, o El Niño esteve associado a algumas das secas mais extremas do sertão nordestino – Crédito: Zoroasto – iStockPhoto

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Um país mais vulnerável do que antes

Existe uma razão pela qual os cientistas observam o possível El Niño de 2026 com mais atenção do que observavam fenômenos semelhantes algumas décadas atrás. 

O planeta mudou. A temperatura média global continua aumentando. Os oceanos estão mais quentes. A atmosfera retém mais energia. Para Nobre, esse contexto pode contribuir para eventos mais intensos. “No passado, um El Niño muito forte poderia ocorrer apenas uma vez a cada 20 ou 30 anos. Agora, é possível que eventos dessa magnitude aconteçam mais de uma vez por década.”

Lucon prefere evitar afirmações categóricas sobre a influência direta das mudanças climáticas em um evento específico. Ainda assim, ele destaca que a física do problema é conhecida. Mais gases de efeito estufa significam mais calor retido no sistema terrestre. “Mais energia significa maior movimentação de massas de ar, aquecimento dos oceanos e alterações nos padrões de circulação atmosférica e oceânica.”

Em outras palavras, o possível Super El Niño de 2026 não preocupa apenas porque pode ser forte, mas também porque chega a um país que já acumula cicatrizes recentes causadas por enchentes, secas, incêndios e ondas de calor.

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