Tadalafila e Viagra: especialistas alertam para riscos físicos e psicológicos do uso ‘recreativo’

Tadalafila e Viagra: especialistas alertam para riscos físicos e psicológicos do uso ‘recreativo’

A busca por desempenho chegou a mais uma fronteira: a vida sexual. Medicamentos desenvolvidos para tratar problemas de saúde, como a disfunção erétil e a hipertensão arterial pulmonar, passaram a fazer parte da rotina de homens jovens sem qualquer diagnóstico médico. Tadalafila e sildenafil (princípio ativo do Viagra) deixaram de ser vistos apenas como tratamentos e passaram a ser consumidos sem recomendação médica.

O crescimento do uso recreativo chamou atenção de órgãos de saúde. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostraram que as vendas de tadalafila dispararam nos últimos anos, saltando de 3,2 milhões de caixas em 2015 para quase 75 milhões em 2025.

Embora o levantamento não detalhe o perfil dos consumidores, médicos relatam um aumento expressivo de pacientes jovens que recorrem ao medicamento mesmo sem apresentar disfunção erétil.

Especialistas ouvidos pelo Olhar Digital apontaram que a popularização do medicamento criou a falsa impressão de que ele funciona como um suplemento para melhorar a performance – seja sexual, seja esportiva – e que, por isso, poderia ser usado sem consequências.

Na prática, a realidade é outra: além de não existirem evidências científicas que comprovem esses benefícios em pessoas saudáveis, o uso indiscriminado pode provocar efeitos adversos, favorecer uma dependência psicológica e, em situações específicas, levar a complicações graves.

Médicos alertaram que uso sem recomendação pode ter consequências clínicas e psicológicas – Imagem: samael334/iStock

Afinal, para que servem tadalafila e Viagra?

Embora tenham ficado conhecidos mundialmente pelo tratamento da disfunção erétil, nem o sildenafil nem a tadalafila nasceram com esse objetivo.

Segundo o urologista José Carlos Truzzi, do Fleury, ambos pertencem à classe dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), medicamentos capazes de promover vasodilatação em determinadas regiões do organismo. “Esses medicamentos foram desenvolvidos para tratamento de uma condição chamada hipertensão pulmonar”, destacou.

Foi apenas no fim da década de 1990 que o sildenafil passou a ser utilizado para tratar problemas de ereção, após pesquisadores observarem esse efeito durante estudos clínicos. Depois veio a tadalafila, pertencente à mesma classe terapêutica.

A vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), Dannyelle Marini, explicou que, atualmente, esses medicamentos possuem indicações médicas bem estabelecidas e não se restringem à saúde sexual masculina.

Ela lembra que o sildenafil começou a ser estudado para tratar angina (dor causada pela redução do fluxo sanguíneo para o coração) antes que o efeito sobre a ereção fosse descoberto.

Hoje, além da disfunção erétil, os medicamentos também podem ser utilizados em casos de hipertensão arterial pulmonar. A tadalafila ainda possui indicação para tratar sintomas relacionados à hiperplasia prostática benigna (aumento benigno da próstata).

A farmacêutica também fez questão de desfazer um dos principais mitos em torno desses medicamentos: eles não provocam ereção espontaneamente nem aumentam o desejo sexual. “Só há ereção se houver estímulo. Os medicamentos não funcionam se não ocorrer a primeira etapa, do estímulo sexual”, contou.

Na prática, explica Marini, os remédios apenas potencializam um mecanismo fisiológico que já acontece naturalmente durante a excitação sexual. Mas que, sem estímulo, não é ativado.

Essa é justamente uma das razões pelas quais especialistas criticam o uso recreativo. Em homens saudáveis, que já apresentam funcionamento normal da ereção, não existe indicação para utilizar o medicamento apenas para tentar melhorar o desempenho.

Segundo a Anvisa, os inibidores da PDE-5 são medicamentos de prescrição, destinados ao tratamento de condições específicas e cuja utilização deve ocorrer após avaliação médica individualizada. Fora dessas indicações, aumentam os riscos de reações adversas e de interações medicamentosas potencialmente perigosas.

Para Truzzi, o tratamento da disfunção erétil também vai muito além da simples prescrição de um comprimido.

Esses medicamentos correspondem à primeira linha de tratamento medicamentoso, desde que essas outras medidas não tenham surtido o efeito. Então, orientações da parte comportamental, de cuidados com a saúde de um modo geral, diminuição de situações de estresse, que com certeza podem ocasionar uma diminuição da qualidade da ereção… uma vez que essas medidas gerais não surtiram o efeito desejado, aí a medicação oral passa a ser a primeira linha.

José Carlos Truzzi, urologista do Fleury

Segundo o urologista, cada paciente precisa passar por uma avaliação individual para definir se realmente há indicação para o medicamento, qual princípio ativo utilizar e qual dosagem é a mais adequada. Esse acompanhamento também permite identificar possíveis contraindicações e evitar interações perigosas com outros remédios.

Anvisa registrou aumento no número de vendas da tadalafila na última década – magem: Sonis Photography/Shutterstock

Uso sem indicação preocupa especialistas

Apesar de serem medicamentos consolidados e considerados seguros quando utilizados corretamente, tadalafila e sildenafil deixaram de ser vistos apenas como tratamento para condições médicas específicas:

  • Segundo a Anvisa, o consumo recreativo dessas substâncias tem crescido no Brasil, impulsionado principalmente pelas redes sociais e pela busca por performance sexual e estética;
  • Em um alerta publicado neste ano, a agência reforçou que não existe aprovação para o uso desses medicamentos com o objetivo de aumentar força, rendimento físico ou ganho de massa muscular;
  • Também advertiu que a associação com outras drogas, medicamentos ou produtos irregulares pode aumentar significativamente o risco de eventos adversos.

Para o urologista José Carlos Truzzi, o problema não está no medicamento em si, mas na forma como ele vem sendo utilizado. “Quando você faz uso de um medicamento, você tem sempre que pensar que ele tem um efeito clínico desejável e um efeito adverso”, explicou.

Segundo ele, tanto o sildenafil quanto a tadalafila são potentes vasodilatadores. Isso significa que, ao mesmo tempo em que favorecem o aumento do fluxo sanguíneo necessário para tratar determinadas condições médicas, também podem provocar efeitos indesejados em quem faz uso sem necessidade clínica.

A pessoa que faz uso desse medicamento pode ter uma sensação de dor de cabeça mais acentuada. Pode ser um quadro só de rubor facial, às vezes a pessoa fica com o rosto vermelho. Pode ter hipotensão, dependendo da queda da pressão arterial, dependendo de qual é a condição clínica dela ou se ela faz uso de outros medicamentos que podem somar efeitos.

José Carlos Truzzi, urologista do Fleury

Esses sintomas costumam estar entre os efeitos adversos mais comuns descritos em bula. Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, também podem ocorrer congestão nasal, dores musculares, azia, náuseas e desconfortos gastrointestinais. Em situações menos frequentes, porém, as consequências podem ser muito mais graves.

Marini explica que um dos principais problemas é justamente a falsa percepção de segurança criada em torno do medicamento.

São medicamentos seguros, têm um bom perfil de segurança, quando prescritos de maneira correta para quem realmente precisa. Mas não significa que ele pode ser usado de maneira aleatória para quem não tem indicação.

Dannyelle Marini, vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP)

Segundo ela, muitos jovens acabam utilizando doses superiores às recomendadas e associam o medicamento a álcool, drogas recreativas ou outras substâncias estimulantes, aumentando consideravelmente os riscos.

Da queda de pressão ao risco de morte

Entre as complicações mais preocupantes está a hipotensão intensa. Como esses medicamentos promovem vasodilatação, a combinação com outras substâncias que também reduzem a pressão arterial pode provocar desmaios, arritmias e até situações potencialmente fatais.

Segundo a Anvisa, pacientes que utilizam medicamentos à base de nitratos (normalmente prescritos para doenças cardíacas) não devem fazer uso de sildenafil ou tadalafila devido ao risco de queda abrupta da pressão arterial.

Marini chama atenção para um fenômeno relativamente recente: a associação desses medicamentos com drogas recreativas utilizadas em festas e encontros sexuais.

Hoje eles associam com substâncias recreativas, prática conhecida como chemsex. Essas substâncias são vasodilatadoras. Se usar essas substâncias recreativas mais esses medicamentos, isso pode causar uma hipotensão fatal, a pressão cai demais, e a pessoa chega a falecer.

Danyelle Marini, vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP)

Ela afirma que a preocupação é semelhante à existente quando pacientes cardíacos recebem a prescrição desses medicamentos. “A gente está falando de risco de morte, não é nem de reação adversa”, destacou.

Outro hábito que preocupa especialistas é o consumo da tadalafila antes dos treinos. A ideia de que o medicamento aumentaria a vascularização dos músculos e, consequentemente, melhoraria a performance física ganhou força nas redes sociais, mas não encontra respaldo na literatura científica.

“Não há comprovação de que a pessoa terá um aumento na força muscular por causa da vasodilatação, ou ganho de massa, ou emagrecimento. Isso não existe”, explicou Marini.

Truzzi faz a mesma avaliação: “Não é uma indicação primária dessa medicação. Fazer uso com uma finalidade que não é aquela da indicação da bula sempre acarreta riscos”.

Fazer o uso de um medicamento só porque a pessoa deseja ter uma melhora do desempenho sexual não necessariamente é o melhor uso dele e pode, sim, ter os efeitos colaterais.

José Carlos Truzzi, urologista do Fleury
Tadalafila e viagra
Tadalafila não surgiu como medicamento para tratar disfunção erétil – Imagem: Sonis Photography/Shutterstock

Complicações graves podem exigir atendimento de emergência

Embora sejam menos frequentes, alguns efeitos adversos exigem atendimento médico imediato.

Dannyelle chamou atenção para o priapismo, condição em que a ereção permanece por mais de quatro horas e pode causar danos permanentes ao tecido peniano. Segundo a farmacêutica, outros sintomas que merecem atenção incluem perda súbita da visão, perda auditiva, zumbidos, vertigens e dores intensas no peito.

Para Truzzi, o acompanhamento médico é justamente o que reduz a possibilidade de complicações. O especialista lembra que, durante a consulta, o urologista avalia doenças pré-existentes, medicamentos em uso e fatores que poderiam contraindicar o tratamento.

“É o médico que vai identificar qual é a melhor forma de administração do medicamento e qual é a melhor medicação para esse paciente”, explicou.

Quando o remédio vira uma “muleta”

Se os riscos físicos preocupam médicos e farmacêuticos, há outro efeito do uso indiscriminado de tadalafila e sildenafil que costuma aparecer de forma mais silenciosa: a dependência psicológica.

Ao contrário da dependência química (que não é causada por esses medicamentos), o usuário pode passar a acreditar que só conseguirá ter uma relação sexual satisfatória se tomar o comprimido antes. Aos poucos, a confiança deixa de estar no próprio corpo e passa a depender da medicação.

Para a ginecologista e sexóloga Carolina Ambrogini, esse é um fenômeno que tem se tornado cada vez mais comum, principalmente entre homens jovens.

O uso recreativo da tadalafila e Viagra entre homens jovens difundiu-se na internet. Tem tido muito essa finalidade, porque o sexo entre homens jovens é muito performático. Tem-se a ideia de que, usando essas medicações, eles vão aguentar ter várias relações durante a noite.

Carolina Ambrogini, ginecologista e sexóloga

Segundo ela, a facilidade de acesso e a popularização desses medicamentos nas redes sociais ajudaram a consolidar uma ideia equivocada de que eles funcionariam como um “seguro” contra qualquer eventual falha durante o sexo.

Esse comportamento é alimentado por uma série de fatores, como a influência da pornografia, a pressão social por desempenho e a expectativa de que o homem esteja sempre pronto para o sexo – um cenário que acaba transformando a sexualidade em uma prova de performance. “A pornografia tem muita influência por conta desse sexo performático”, adicionou.

A especialista também explicou que o uso repetido pode criar um mecanismo de ansiedade que acaba funcionando justamente contra a ereção. Inicialmente, o homem toma o medicamento para ganhar confiança. Depois de algumas experiências, passa a acreditar que o desempenho depende dele. Quando tenta ter relações sem a medicação, surge o medo de falhar.

Esse medo desencadeia a chamada ansiedade de desempenho. “Como é uma medicação que favorece a ereção, muitos homens ficam com medo de, ao não tomar, não terem uma ereção natural e aí ficam dependentes da medicação”, contou.

Segundo Ambrogini, existe uma explicação fisiológica para isso:

Na ansiedade de desempenho você libera adrenalina, que é justamente o oposto da ereção. A adrenalina fecha os vasos, enquanto a ereção precisa ter uma abertura dos vasos pra entrada do sangue.

Carolina Ambrogini, sexóloga

Em outras palavras, o receio de não conseguir manter a ereção pode acabar produzindo exatamente esse resultado, fazendo com que o homem dependa ainda mais do medicamento para se sentir seguro.

Dannyelle Marini também observa esse fenômeno e afirma que estudos já apontam uma relação entre o uso recreativo e o desenvolvimento desse tipo de dependência.

Isso está gerando efeitos psicológicos. E a gente já tem estudos demonstrando que o uso recreativo favorece a ansiedade do desempenho e a dependência psicológica, fazendo com que um jovem só considere que vai conseguir ter uma relação sexual satisfatória se utilizar o medicamento.

Danyelle Marini, vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP)

Segundo ela, esse processo pode favorecer o aparecimento de uma disfunção erétil de origem psicológica em pessoas que antes não apresentavam qualquer dificuldade.

Para Carolina Ambrogini, o impacto não se limita ao momento da relação sexual.

Como muitos jovens ainda estão construindo suas primeiras experiências afetivas e sexuais, a utilização precoce desses medicamentos pode comprometer a autoconfiança e criar expectativas pouco realistas sobre o próprio desempenho.

“Vai minando a confiança desses jovens que já não têm muita experiência sexual e que usam o remédio como bengala”, afirmou. Ela explica que, em vez de fortalecer a autoestima, o uso recreativo acaba produzindo o efeito contrário: “Se não tem o remédio, não tem confiança.”

Homem sentado na cama
Especialistas destacaram falta de evidências científicas de que a tadalafila aumenta o desempenho sexual ou muscular – Imagem: tommaso79/Shutterstock

Quando procurar ajuda?

Segundo Ambrogini, um dos principais sinais de alerta é quando o homem acredita que só consegue manter relações sexuais depois de tomar o medicamento.

Nesses casos, o primeiro passo é procurar avaliação médica para verificar se existe, de fato, alguma condição clínica que justifique o tratamento. Caso não exista, o acompanhamento psicológico ou com um terapeuta sexual pode ajudar a compreender a origem da ansiedade e reconstruir a confiança.

A especialista afirma que conversar com a parceria também faz diferença. Ela explica que essa comunicação costuma diminuir a pressão e reduzir a ansiedade em torno do desempenho sexual.

Uso consciente continua sendo a principal recomendação

Embora tadalafila e sildenafil sejam medicamentos seguros quando utilizados corretamente, os especialistas entrevistados pelo Olhar Digital reforçam que eles não devem ser encarados como potencializadores de desempenho nem como suplementos para academia.

Seu uso continua indicado para condições clínicas específicas e deve ser feito após avaliação profissional, que leva em consideração o histórico do paciente, outras doenças, medicamentos em uso e a dose mais adequada para cada caso.

Fora dessas situações, o que parece uma solução simples pode trazer consequências físicas e emocionais que, muitas vezes, demoram mais para desaparecer do que a própria expectativa de desempenho que motivou o primeiro comprimido.

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