Tempo perdido: poderíamos ganhar um segundo extra esse ano, mas isso não vai acontecer

Tempo perdido: poderíamos ganhar um segundo extra esse ano, mas isso não vai acontecer

Já fazem quase dez anos que o dia não ganha um segundo extra. A última vez que os cronômetros digitais registraram 23:59:60 foi em 31 de dezembro de 2016. A próxima oportunidade, segundo o Serviço Internacional de Rotação da Terra e Sistemas de Referência (IERS), ficou para o final de 2026 — mas o órgão já confirmou que em junho deste ano não haverá ajuste. O que está acontecendo com a rotação do planeta?

Por que existe o segundo bissexto?

A resposta está na imprecisão do movimento terrestre. Enquanto os relógios atômicos medem o tempo com base em transições do átomo de césio-133 (9.192.631.770 oscilações por segundo), a rotação da Terra não é constante. A Lua, ao se afastar lentamente do planeta, freia o giro terrestre, tornando os dias ligeiramente mais longos — em média, 1,8 milissegundos por século.

Para que o tempo oficial (UTC) não se desconecte da posição real do Sol no céu, os cientistas inserem um “segundo bissexto” sempre que a diferença acumulada se aproxima de 0,9 segundo. Desde 1972, isso aconteceu 27 vezes, em intervalos irregulares.

A velocidade do movimento da Terra girando em torno do próprio eixo, chamado de rotação, é que define a duração dos dias. Crédito: Maulor / Creative Commons

A Terra voltou a acelerar

Mas, desde 2020, algo mudou. O planeta entrou em uma fase de rotação mais rápida — naquele ano, o recorde de dia mais curto foi quebrado 28 vezes. A tendência de desaceleração secular deu lugar a uma aceleração temporária, cujas causas ainda são debatidas. Entre os suspeitos estão o derretimento de geleiras (que redistribui massa) e o armazenamento de água em reservatórios no hemisfério norte, como a usina hidrelétrica de Três Gargantas, na China, cuja represa é capaz de alterar a rotação do planeta em 0,06 microssegundos.

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Eventos mais abruptos também influenciam o giro. O terremoto de magnitude 9,0 no Japão em 2011 deslocou a costa do país em até 4 metros e encurtou o dia em 1,8 microssegundo.

O dilema do segundo negativo

Com a aceleração recente, alguns cientistas chegaram a discutir a necessidade de um “segundo bissexto negativo” — ou seja, subtrair um segundo do calendário para realinhar o tempo. Mas a comunidade internacional considera a medida arriscada e, até agora, optou por não aplicá-la.

A ausência de ajustes desde 2016 não significa que o problema desapareceu. A rotação da Terra continuará a ser monitorada por entidades como o IERS. Quando a desaceleração secular retomar seu curso, os segundos bissextos voltarão a ser necessários — a menos que a humanidade decida, em algum momento, aboli-los de vez e aceitar a crescente discrepância entre os relógios atômicos e a posição do Sol. Até lá, o relógio do GPS e das transmissões financeiras continuará dependendo da precisão dos átomos de césio.

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