O tubarão kitefin, maior vertebrado bioluminescente conhecido, pode ter desenvolvido seu brilho não apenas para se camuflar nas profundezas do oceano, mas também para localizar alimento.
A hipótese surgiu a partir de análises realizadas com oito exemplares capturados como fauna acompanhante durante uma pesquisa na região de Chatham Rise, a leste da Nova Zelândia, e examinados por pesquisadores liderados pelo biólogo marinho Julien Claes, da Université Catholique de Louvain, na Bélgica.
Publicado na última sexta-feira (07) na revista iScience, o estudo indica que a luz emitida pelo animal apresenta características compatíveis com a camuflagem, mas também se espalha lateralmente de maneira que pode favorecer a procura por presas em um ambiente quase sem iluminação.
Luz que pode esconder e caçar

O fenômeno conhecido como contra-iluminação é utilizado por diversos animais marinhos para reduzir a própria silhueta diante da luminosidade que chega da superfície. Em vez de aparecer como uma forma escura para animais que observam de baixo, o corpo recebe uma iluminação capaz de se confundir com o ambiente.
No caso do tubarão kitefin, essa explicação ganhou força porque o tubarão não possui predadores naturais conhecidos. A descoberta da bioluminescência da espécie é relativamente recente, e a ausência de ameaças conhecidas levantou a possibilidade de que sua emissão luminosa cumpra funções além da defesa.
Os pesquisadores mediram a intensidade, a coloração e a direção da luz produzida pelos oito tubarões. Na região inferior do corpo, o brilho apresentou tonalidade azul esverdeada, com pico de emissão em 491 nanômetros.
A intensidade observada também coincidiu com as condições de luminosidade esperadas em profundidades entre aproximadamente 480 e 540 metros, faixa compatível com o ambiente em que a espécie vive. Esses resultados reforçam a interpretação de que a parte inferior do animal utiliza a luz como recurso de camuflagem.
A distribuição do brilho, porém, revelou uma característica que não se encaixa tão bem nessa explicação. Em vez de acompanhar principalmente o padrão da luz que desce da superfície, a emissão do kitefin se espalha para os lados em uma área mais ampla do que a observada em outros animais que utilizam contra-iluminação.
O efeito aparece com maior intensidade na região dianteira do corpo, incluindo o focinho, a mandíbula e as nadadeiras peitorais. Para os pesquisadores, uma possível explicação é que essa iluminação lateral funcione como uma espécie de farol biológico, permitindo ao tubarão enxergar melhor o fundo e detectar organismos próximos.
A ideia encontra paralelo em outros animais marinhos que recorrem à bioluminescência para localizar alimento, como o peixe-lanterna Anomalops katoptron e os peixes do gênero Malacosteus. No kitefin, contudo, a luz poderia desempenhar simultaneamente papéis diferentes.
A iluminação voltada para baixo ajudaria a reduzir a visibilidade do tubarão para organismos situados abaixo dele, enquanto a emissão lateral poderia ampliar sua capacidade de procurar presas ao redor. Essa combinação seria particularmente relevante para uma espécie conhecida por sua baixa velocidade de deslocamento.
O kitefin é descrito no estudo como o tubarão de natação mais lenta já registrado, com velocidade de apenas 13 centímetros por segundo. Ainda assim, sua alimentação inclui animais visualmente capazes e de deslocamento rápido, como lanternsharks e cefalópodes, o que torna uma estratégia baseada em aproximação discreta potencialmente vantajosa.
O mistério da nadadeira dorsal

Outra característica dificulta uma explicação baseada exclusivamente em camuflagem. A nadadeira dorsal também emite luz, embora com intensidade aproximadamente dez vezes menor que a região ventral.
Mesmo assim, esse brilho supera em cerca de cem vezes a luminosidade ambiente que sobe das profundezas. Para um animal observado lateralmente no ambiente bentônico, a nadadeira poderia se destacar como um ponto luminoso, o que não combina com a função de esconder o corpo.
Por isso, os pesquisadores consideram outras possibilidades para essa emissão, entre elas a comunicação entre indivíduos da mesma espécie ou a atração de possíveis presas. Essas interpretações, entretanto, ainda não foram demonstradas diretamente.
O estudo foi baseado em exames físicos de tubarões retirados do ambiente profundo e analisados a bordo de uma embarcação de pesquisa. Para confirmar como a luz é utilizada durante a vida natural do animal, seriam necessárias observações do comportamento da espécie em seu próprio habitat.
Os resultados, portanto, não encerram a questão sobre a função da bioluminescência do kitefin. Eles indicam, porém, que a contra-iluminação pode ter uma finalidade mais complexa do que simplesmente esconder um animal de seus predadores.
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