O aumento no preço dos celulares pode ganhar um novo impulso nos próximos meses. A Samsung estaria negociando uma nova alta de 7% a 10% nos preços de memórias DRAM e NAND, componentes fundamentais para smartphones, justamente em um momento em que a indústria já enfrenta uma forte pressão sobre os custos.
A causa dessa pressão vai muito além dos smartphones. A expansão acelerada da inteligência artificial está consumindo enormes volumes de memória para servidores e data centers, especialmente tecnologias como HBM, DRAM para servidores e SSDs corporativos. Com capacidade de fabricação limitada, os fabricantes estão direcionando cada vez mais recursos para produtos voltados à infraestrutura de IA, deixando o mercado de eletrônicos de consumo em uma posição menos confortável.
O cenário é particularmente interessante porque a Samsung Electronics fornece memória para empresas concorrentes, incluindo a Apple, e também para sua própria divisão responsável pelos smartphones Galaxy. Mesmo pertencendo ao mesmo grupo, a divisão mobile não necessariamente recebe os chips por preços privilegiados.
O que está por trás do novo aumento nos chips de memória
A nova rodada de negociações acontece sobre uma base que já está bastante elevada. Segundo relatos recentes, a divisão de semicondutores da Samsung pretende renegociar contratos de fornecimento de mobile DRAM e NAND Flash, buscando uma alta adicional de aproximadamente 7% a 10%. O percentual final pode variar de acordo com produto, volume contratado e duração dos acordos.
Isso não significa que todos os celulares ficarão automaticamente 7% ou 10% mais caros. A memória é apenas uma parte do custo de fabricação. As fabricantes podem absorver parte do aumento, reduzir margens, alterar configurações de armazenamento e RAM ou repassar o custo integralmente ao consumidor.
O problema é que essa nova pressão acontece depois de uma sequência de aumentos expressivos. A TrendForce projetou para o terceiro trimestre de 2026 altas de 13% a 18% nos preços contratuais de DRAM convencional e de 10% a 15% para NAND Flash.
A Counterpoint, por sua vez, estimou que a DRAM móvel subisse cerca de 10% no trimestre, enquanto o custo de componentes dos smartphones de entrada já havia aumentado significativamente em relação ao ano anterior.
Na prática, a indústria está tentando administrar uma situação em que chips de memória mais caros se tornaram uma parte cada vez mais relevante da conta.

A pressão sobre a Apple e concorrentes no mercado mobile
A Apple está entre as empresas potencialmente mais afetadas porque utiliza grandes quantidades de memória em sua linha de dispositivos e depende de uma cadeia de fornecedores bastante concentrada.
A situação não é exclusiva da empresa. Fabricantes como Samsung, Xiaomi, Motorola, Oppo, Vivo e outras marcas Android disputam a mesma capacidade global de produção de memória.
Isso cria um efeito particularmente complicado para os fabricantes de aparelhos mais baratos. Grandes empresas podem negociar contratos de longo prazo e absorver parte dos aumentos, mas fabricantes que trabalham com margens menores têm menos espaço para fazer isso.
A Counterpoint já apontou que a escassez de memória está atingindo especialmente os aparelhos de baixo custo, justamente porque os fabricantes de memória estão priorizando produtos de maior valor agregado destinados à infraestrutura de IA.
Por isso, o aumento no preço dos celulares pode não acontecer de maneira uniforme. Modelos premium conseguem repassar parte dos custos com mais facilidade, enquanto aparelhos básicos podem sofrer com preços maiores, redução de memória ou armazenamento e até diminuição da oferta.
Por que a linha Galaxy não escapa dos preços mais altos
Pode parecer estranho que a própria Samsung aumente o preço dos componentes utilizados pelos seus smartphones, mas a empresa possui divisões com objetivos comerciais distintos.
A Samsung Semiconductor, responsável pela produção de memórias, vende componentes para clientes externos e precisa maximizar o retorno sobre sua capacidade produtiva. Já a divisão Mobile eXperience (MX) compra componentes para fabricar os aparelhos Galaxy.
Não existe, portanto, garantia de que a divisão mobile possa simplesmente retirar memória da divisão de semicondutores a um preço artificialmente baixo.
Relatos anteriores já indicaram que a divisão Galaxy enfrentou esse problema diretamente. Em 2026, a memória chegou a representar uma parcela muito maior dos custos de componentes dos smartphones premium, enquanto o custo de DRAM e NAND também pressionou fortemente aparelhos mais baratos.
Isso explica por que o problema não é simplesmente uma disputa entre Samsung e seus concorrentes. A própria Samsung está exposta à inflação dos componentes que fabrica.
O papel da inteligência artificial no desabastecimento de componentes
A grande mudança na indústria de memória aconteceu quando os data centers de IA passaram a consumir quantidades gigantescas de componentes.
A HBM, ou memória de alta largura de banda, é essencial para aceleradores utilizados no treinamento e na execução de modelos de inteligência artificial. Além dela, os servidores precisam de grandes quantidades de DRAM convencional e armazenamento NAND, principalmente em SSDs corporativos.
A Samsung confirmou que seu negócio de memória registrou resultados recordes impulsionados pela demanda de IA e afirmou esperar que a procura por HBM, DRAM para servidores e SSDs corporativos continue forte no segundo semestre de 2026. A empresa também destacou que o mercado deve permanecer subabastecido mesmo com alguma moderação na demanda por PCs e dispositivos móveis.
O efeito é semelhante a uma disputa por espaço dentro das fábricas.
Quando uma fabricante consegue obter maior margem vendendo memória para servidores de IA, existe um incentivo econômico para direcionar capacidade para esse mercado. A construção e expansão de fábricas, por outro lado, leva anos e exige investimentos bilionários.
A TrendForce avalia que os servidores de IA continuarão pressionando a capacidade de DRAM e que o desequilíbrio entre oferta e demanda pode persistir até 2027.
É aí que a inteligência artificial começa a afetar diretamente um produto que, à primeira vista, parece não ter relação com data centers.
O smartphone não precisa utilizar HBM para ser afetado. Basta que a capacidade industrial necessária para produzir diferentes tipos de memória esteja disputada. A consequência é a redução da oferta disponível para aparelhos, seguida pelo aumento dos preços dos componentes.
O que esperar do mercado de eletrônicos no futuro próximo
O cenário aponta para uma indústria de smartphones mais pressionada durante os próximos trimestres. O aumento no preço dos celulares não depende exclusivamente da Samsung, mas a posição da empresa como uma das maiores fabricantes mundiais de memória torna qualquer mudança em seus contratos particularmente relevante.
Para o consumidor, isso pode significar smartphones mais caros, principalmente em lançamentos que utilizam grandes quantidades de RAM e armazenamento. Também pode haver mudanças menos evidentes, como versões com menos memória, menos opções de armazenamento ou maior distância entre aparelhos básicos e premium.
A situação já começa a aparecer no mercado. A TrendForce afirma que o custo elevado dos componentes está levando fabricantes a rever preços e estratégias de produção, enquanto aparelhos de entrada podem recorrer a materiais ou componentes de menor custo para manter alguma competitividade.
Existe ainda outro efeito importante: o consumidor pode começar a adiar a troca do aparelho. Se um celular atual ainda apresenta desempenho satisfatório, trocar de dispositivo em um cenário de preços elevados se torna menos atraente.
Isso pode favorecer o mercado de celulares usados, recondicionados e reparados, além de aumentar o interesse por aparelhos com maior longevidade e suporte de software.
Para quem acompanha hardware, o caso também revela uma mudança estrutural. A corrida pela IA não está apenas aumentando a procura por GPUs e aceleradores. Ela está reorganizando a própria cadeia de fornecimento de memória e armazenamento, componentes que durante anos foram tratados como itens relativamente previsíveis no custo de um smartphone.
A pergunta agora é quanto desse custo as fabricantes conseguirão absorver antes de repassá-lo ao consumidor.