O aumento no preço de smartphones deixou de ser um fenômeno isolado entre algumas fabricantes e começa a alterar a estrutura do mercado móvel. A Huawei acaba de colocar a linha Mate 90 à venda na China com preços significativamente superiores aos praticados pela geração anterior, em um momento no qual memória RAM e armazenamento estão mais caros e comprimem as margens das fabricantes.
O movimento chama atenção porque ocorre simultaneamente a reajustes envolvendo empresas como Apple, Samsung e Google, mostrando que a pressão sobre componentes não está restrita a um único fornecedor ou plataforma. A Samsung, por exemplo, elevou os preços da linha Galaxy S26 nos Estados Unidos, citando também o encarecimento da memória.
No caso da Huawei, o impacto é ainda mais evidente nos modelos premium. Richard Yu, responsável pelo negócio de consumo da empresa, afirmou que o aumento no custo das memórias acrescentou, em média, US$ 200 ao custo de cada smartphone, pressionando diretamente a margem de lucro. Segundo ele, a Huawei também precisou elevar preços, mas em ritmo menor que o aumento dos custos.
O aumento no preço de smartphones chega à linha Huawei Mate 90
A nova geração foi apresentada na China em 1º de outubro de 2026, com cinco configurações principais, incluindo o Mate 90, Mate 90 Pro, Mate 90 Pro Max, uma edição de colecionador e o Mate 90 RS Ultimate Design.
O Mate 90 básico parte de 5.999 yuans, enquanto o Mate 90 Pro começa em 6.999 yuans. Já o Mate 90 Pro Max chega a 9.499 yuans, e o RS Ultimate Design alcança 18.999 yuans na configuração mais sofisticada. Os preços oficiais divulgados pela Huawei confirmam a amplitude da nova faixa de valores.
Considerando a cotação aproximada de R$ 0,77 por yuan em 1º de outubro de 2026, os valores equivalem, sem impostos, frete ou margem de importação, aos montantes abaixo.

Valores da linha Huawei Mate 90
Os valores em reais são apenas conversões cambiais e não representam preços oficiais no Brasil.
A diferença fica mais clara quando se compara a geração anterior. O Mate 80 havia sido lançado a partir de 4.699 yuans, enquanto o Mate 90 começa em 5.999 yuans. No caso do Pro Max com 16 GB de RAM e 512 GB de armazenamento, o novo modelo custa 9.999 yuans em uma das configurações oficiais, cerca de 2.000 yuans acima do equivalente da geração anterior no lançamento.
O reajuste não pode ser explicado apenas por uma evolução de hardware. A Huawei está utilizando novos chips, telas e sistemas de câmera, mas Richard Yu deixou claro que a alta no preço das memórias representa uma parcela importante da pressão financeira.
Esse cenário é particularmente relevante porque a memória passou a representar uma fatia cada vez maior do custo de fabricação dos smartphones. A Counterpoint Research informou que os preços de memória para smartphones subiram mais de 80% em um trimestre de 2026, alterando significativamente a composição do custo dos aparelhos.
Por que o aumento no preço de smartphones ameaça os modelos básicos
O problema é mais grave nos aparelhos baratos. Em um smartphone premium, um aumento de dezenas de dólares em RAM ou armazenamento pode ser parcialmente absorvido pela fabricante ou repassado ao consumidor sem inviabilizar completamente o produto.
Em um celular de entrada, a situação é diferente. Memória, chipset e armazenamento representam uma parcela muito maior do custo total, enquanto a margem disponível para o fabricante é menor.
A Counterpoint Research prevê que o segmento de smartphones abaixo de US$ 200 encolha aproximadamente 40% entre 2025 e 2030, com mais de 230 milhões de aparelhos por ano deixando de fazer parte desse mercado. A consultoria atribui o movimento ao aumento dos custos de memória e chipsets, à elevação das especificações mínimas exigidas pelos sistemas modernos e à menor disposição das fabricantes para manter linhas pouco rentáveis.
Isso não significa necessariamente que os smartphones básicos desaparecerão por completo. O cenário mais provável apontado pela análise é uma combinação de preços maiores, migração para aparelhos intermediários, ciclos de troca mais longos e crescimento do mercado de usados e recondicionados.
Há ainda um efeito indireto. Recursos de inteligência artificial exigem mais memória, armazenamento e capacidade computacional. Ao mesmo tempo em que esses componentes são necessários para tornar os celulares mais inteligentes, a demanda de servidores de IA também disputa capacidade de produção de memória de alto valor.
O resultado é uma situação paradoxal: a IA ajuda a aumentar os recursos dos smartphones, mas também contribui para tornar mais caro produzir determinados aparelhos.
Inovações ousadas em meio à crise de mercado
Mesmo com a pressão sobre custos, a Huawei não reduziu sua ambição tecnológica. A linha Mate 90 aposta no Kirin 9050 Pro e na arquitetura chamada LogicFolding, que reorganiza parte das conexões internas do chip em uma estrutura tridimensional.
Segundo a Huawei, os modelos mais avançados alcançam até 31% mais desempenho que a geração anterior. A empresa também continua investindo no HarmonyOS 7, seu sistema operacional próprio, separado do Android.
A câmera também recebeu uma abordagem pouco convencional.
A Huawei apresentou a Ruiying Z10, ou XMAGE Z10 Modular Camera, um módulo externo que transforma o conjunto fotográfico do smartphone em algo mais próximo de uma câmera dedicada. O acessório utiliza um sensor RYYB de 1 polegada e 50 megapixels, além de lente equivalente a 24–240 mm e zoom óptico de até 10x.
O acessório pesa cerca de 346 gramas e custa 5.999 yuans na China. Ele é compatível com as versões mais sofisticadas do Mate 90, criando uma solução bastante diferente da estratégia tradicional de simplesmente aumentar o número de câmeras instaladas no telefone.
A proposta mostra que a Huawei está tentando justificar parte do posicionamento premium com recursos realmente diferenciados. Por outro lado, também evidencia uma tendência do mercado: quanto mais sofisticado fica o hardware, maior é a dificuldade de manter preços acessíveis.
Considerações finais e o cenário para o consumidor
O caso do Mate 90 representa mais do que um novo lançamento da Huawei. Ele funciona como um retrato de uma indústria na qual memória, armazenamento, chips e recursos de IA estão redefinindo o custo dos smartphones.
Apple, Samsung e outras fabricantes também enfrentam essa pressão, enquanto a Huawei decidiu repassar apenas parte do aumento aos consumidores. Ainda assim, o resultado é um Mate 90 significativamente mais caro que seu antecessor em várias configurações.
Para quem acompanha o mercado Android, o ponto mais preocupante está abaixo dos US$ 200. Se a previsão da Counterpoint se confirmar, haverá menos opções novas realmente acessíveis, e o consumidor poderá precisar escolher entre pagar mais por um intermediário, prolongar a vida útil do aparelho atual ou recorrer ao mercado de usados.
Enquanto isso, o segmento premium continua avançando em desempenho, câmeras e inteligência artificial. A questão é quanto desse progresso continuará chegando ao consumidor sem transformar a troca de smartphone em uma compra cada vez mais cara.