A Modular, empresa de infraestrutura de inteligência artificial recentemente adquirida pela Qualcomm por US$ 3,9 bilhões, anunciou durante a conferência ModCon 2026 a abertura total do código-fonte da linguagem Mojo e de suas ferramentas. O evento marcou também a disponibilização pública da plataforma Modular Cloud e a expansão oficial da pilha de software da empresa para uma nova classe de aceleradores dedicados, abrangendo arquiteturas do Google, AWS e da própria Qualcomm.
Essas movimentações confirmam a estratégia da Modular de criar uma camada horizontal agnóstica para o desenvolvimento e implantação de modelos de IA, permitindo que o código escrito pelos desenvolvedores não fique restrito ao ecossistema de apenas uma fabricante de hardware.
O que isso muda na prática
Para os desenvolvedores, o anúncio significa que a linguagem Mojo deixou de ter partes fechadas. O compilador, que era mantido sob controle da empresa, agora adota a licença Apache 2.0, permitindo que a comunidade estenda a linguagem ou crie aplicações baseadas nela sem restrições legais ou comerciais.
Além disso, equipes que precisam implantar inteligência artificial ganham flexibilidade de infraestrutura. Com a Modular Cloud e o suporte expandido, é possível rodar o mesmo modelo de IA tanto em uma GPU tradicional quanto em chips especializados como o Google TPU, reduzindo o custo total de operação e acabando com a dependência (lock-in) de uma única arquitetura.
O caminho do Mojo até o código aberto e o suporte ao Windows

O processo de abertura do Mojo ocorreu em etapas. A biblioteca padrão (standard library) foi aberta em 2024, seguida pelos kernels da plataforma MAX em 2025. Com o lançamento da versão 1.0, anunciado na semana passada com garantias de estabilidade sintática, a Modular deu o passo final ao liberar o compilador e todas as ferramentas associadas sob a licença Apache 2.0.
Outra mudança estrutural diz respeito aos sistemas operacionais. Historicamente, o Mojo rodava nativamente no macOS e em distribuições baseadas no Kernel Linux, enquanto usuários do sistema da Microsoft precisavam recorrer ao WSL (Windows Subsystem for Linux). Durante a ModCon, a empresa confirmou o desenvolvimento do suporte nativo ao Windows, um esforço construído em colaboração direta com a equipe do Microsoft Windows.
Modular Cloud e a expansão para novos hardwares
A plataforma Modular Cloud, que vinha operando de forma silenciosa para clientes de peso — sustentando, por exemplo, o tráfego da OpenRouter sob o nome de ModelRun e servindo o modelo multimodal M3 da MiniMax —, agora está disponível ao público em geral. A infraestrutura oferece tanto endpoints compartilhados (compatíveis com as APIs da OpenAI e precificados por token) quanto implantações dedicadas isoladas.
No entanto, o maior impacto técnico reside na flexibilização do hardware. A Modular expandiu a plataforma MAX para suportar nativamente aceleradores além das clássicas GPUs da AMD e NVIDIA. O sistema passa a rodar cargas de trabalho de IA no AWS Trainium, no Google TPU e nas plataformas Cloud AI 100 Ultra e Dragonfly, da Qualcomm. Segundo a Modular, trazer essas arquiteturas para a sua pilha exigiu uma fração do esforço de engenharia tradicionalmente necessário, graças à base de compilação heterogênea do MAX.
Licença MAX flexibilizada e Aliança Industrial
Como parte de sua integração à Qualcomm, a Modular deixou claro que o suporte a hardwares concorrentes não será descontinuado. Pelo contrário, a licença do MAX foi modificada e não possui mais restrições de uso baseadas no dispositivo em que o software é executado. A plataforma MAX será “source-available”, e uma aliança industrial de código aberto está sendo montada para convidar fornecedores de nuvem, provedores de data center e startups focadas em silício a construírem kernels e integrarem suas soluções à plataforma.
Empresas como a HTEC e a startup d-Matrix já começaram a trazer suporte aos seus próprios sistemas usando as ferramentas da Modular. Se o objetivo é transformar a inteligência artificial numa carga de trabalho modular e portátil, a aposta na quebra do modelo de pilha fechada ganha força como um dos principais movimentos da indústria de software em 2026.