A Canonical anunciou a retomada do desenvolvimento do Ubuntu Core Desktop, a versão imutável e atestável do sistema operacional. O projeto estava paralisado desde a liberação de uma prévia para desenvolvedores em 2023. Agora, uma equipe dedicada assumiu o trabalho com o objetivo de reestruturar a arquitetura do sistema e resolver as limitações técnicas da primeira versão.
O Ubuntu Core já é utilizado há quase uma década em plataformas comerciais de internet das coisas, robótica e sistemas embarcados. A transição dessa tecnologia para o ambiente desktop exige que todo o sistema operacional, incluindo o gerenciador de inicialização, o kernel, o ambiente gráfico e os aplicativos, seja empacotado no formato Snap.
Na prática, isso resulta em um sistema mais resistente a falhas e com atualizações mais seguras. A edição tradicional do Ubuntu Desktop continuará existindo, mas a meta de longo prazo da Canonical é tornar o Core a experiência padrão da distribuição.
A transição da base monolítica para módulos independentes
O principal problema da prévia de 2023 foi a sua estrutura. Para entregar um protótipo rápido, a equipe substituiu a base padrão do sistema por um componente monolítico que agrupava o gerenciador de login, a interface GNOME e o navegador Firefox em um único pacote. Essa abordagem violava o princípio de modularidade que justifica a existência do Ubuntu Core.
A nova arquitetura, que está sendo rebaseada no pacote core26, separa o desktop em componentes independentes com interfaces de comunicação bem definidas. O gerenciador de exibição, o ambiente de trabalho, os servidores multimídia e os serviços de rede passam a funcionar de forma isolada. Com isso, os desenvolvedores poderão atualizar partes específicas do sistema sem a necessidade de reconstruir a imagem completa do sistema operacional a cada pequena alteração.
Foco em desenvolvimento, web e dispositivos para jogos portáteis

Para testar os limites da nova implementação, a Canonical definiu três casos de uso iniciais que exigem comportamentos diferentes do sistema operacional.
O primeiro cenário abrange máquinas baseadas em navegação web. O Ubuntu já distribui navegadores como Firefox e Chromium no formato Snap há alguns anos, o que facilita o suporte a esse perfil de uso. O trabalho atual envolve o refinamento do sistema de permissões para garantir que o usuário tenha controle granular sobre o acesso dos navegadores à câmera e ao microfone.
O segundo caso foca em estações de desenvolvimento de software. Como o Ubuntu Core abandona a hierarquia tradicional de arquivos e permissões do Linux, a solução adotada será o uso do Canonical Workshop em conjunto com o gerenciador de contêineres LXD. Esse formato cria ambientes de desenvolvimento isolados, protegendo os arquivos do sistema hospedeiro. A abordagem também oferece uma camada de segurança extra para programadores que utilizam agentes de inteligência artificial, isolando essas ferramentas do sistema principal.
O terceiro cenário mira o mercado de consoles portáteis, como o Steam Deck e o Lenovo Legion Go. O suporte a jogos no Linux frequentemente exige combinações específicas do Proton, drivers de vídeo experimentais e versões modificadas da biblioteca Mesa. Em distribuições tradicionais, testar essas combinações pode inutilizar a inicialização do dispositivo. A modularidade do Ubuntu Core permite que esses componentes gráficos sejam trocados de forma independente e isolada, reduzindo o risco de quebrar o sistema operacional. O pacote do Steam já atende aos requisitos de confinamento exigidos pelo projeto.
Solução para aplicativos não confinados e pacotes alternativos
O Ubuntu Core exige que todos os softwares rodem sob confinamento estrito. Atualmente, a loja de aplicativos da Canonical possui milhares de pacotes compatíveis com essa regra. No entanto, programas populares que exigem acesso amplo ao sistema operacional, como o Visual Studio Code, são distribuídos com confinamento clássico e não funcionam nativamente no Ubuntu Core.
A Canonical planeja adotar uma abordagem semelhante ao Windows Subsystem for Linux (WSLg) para resolver essa restrição. A interface de aplicativos gráficos será projetada no desktop do usuário enquanto o processamento ocorre dentro de um contêiner isolado.
Essa mesma lógica de virtualização e uso de contêineres será a recomendação oficial para os usuários que precisarem instalar ferramentas via APT, Flatpak, Nix ou outros gerenciadores de pacotes não suportados nativamente pelo sistema imutável.
Controle de permissões via chamadas de sistema
Para gerenciar o acesso aos recursos da máquina, a equipe de engenharia desenvolveu um novo sistema de solicitação de permissões. A tecnologia opera diretamente no nível de chamadas de sistema do Linux, coordenando a comunicação entre o kernel, o AppArmor e o serviço snapd.
A principal vantagem desse mecanismo é que ele não exige modificações no código-fonte dos aplicativos para funcionar. O sistema identifica a tentativa de acesso a recursos sensíveis, como diretórios pessoais ou periféricos, e gera um alerta visual, permitindo que o usuário conceda ou bloqueie a ação.
Parceria com o projeto KDE
Para garantir que a nova arquitetura não fique restrita ao ecossistema GNOME, a Canonical retomou a parceria com a equipe do KDE Neon Core e a empresa enioka Haute Couture. O objetivo é assegurar que o Ubuntu Core Desktop ofereça interfaces genéricas o suficiente para suportar diferentes ambientes gráficos no futuro.
A infraestrutura de integração contínua do projeto já foi restabelecida e a Canonical planeja iniciar a compilação de imagens diárias do Ubuntu Core Desktop nas próximas semanas.