A história do USB: do cabo que só encaixa de um lado ao uso pelo iPhone

A história do USB: do cabo que só encaixa de um lado ao uso pelo iPhone

Existem algumas tecnologias na indústria de eletrônicos que já usamos há tanto tempo que, em alguns momentos, parece que elas sempre estiveram disponíveis nesses produtos. É o caso do USB, conjunto de cabos e conexões que permite a ligação de aparelhos com carregadores e outros dispositivos.

Essa invenção relativamente recente revolucionou o mercado ao facilitar a integração de eletrônicos com acessórios e é de longe o padrão das fabricantes de smartphones, consoles e mais. Porém, nem sempre o mercado foi assim e a adoção dele não foi unânime por anos. Ficou curioso? O TecMundo conta a seguir como foi a evolução dessa tecnologia.

Como era a indústria pré-USB

Antes da criação do padrão, é preciso apontar o caos em conectar acessórios ou periféricos no computador, como mouse, teclado ou impressora. Eram comuns as portas paralelas imensas e até com parafusos pra fixar no gabinete, ou a também grande porta serial, fora os conectores redondos coloridos PS/2 pra mouse e teclado.

Cada tipo de aparelho tinha uma conexão própria em formato, ou precisava de adaptadores. Algumas eram bem espaçosas e a incompatibilidade também acontecia a nível de software.

Um gabinete tradicional de desktop já com o USB, mas cheio de outras portas. (Imagem: Kannan Shanmugam/Wikimedia Commons)

Uma das primeiras tentativas de criar algum tipo de molde que poderia ser seguido por outras fabricantes veio em 1992. É quando nasce a primeira versão do padrão de barramento Peripheral Component Interconnect, o PCI,  para conectar placas a um computador.

Ele também era interessante por ser plug & play, ou seja, de configuração automática e que só exigia o encaixe no conector para começar a funcionar.

A criação de um padrão

Ajay Bhatt, um cientista da computação que trabalhava na Intel, achava que o computador ainda era complicado demais e resolveu agir. Ele começou a reunir colegas de trabalho e conversar com outras empresas sobre ter uma ideia parecia com a do PCI, mas para unificar ao máximo os conectores externos do PC.

O projeto começa chamado de Serial Box, ganha mais funcionários e passa de um conceito tecnológico para algo concreto ao reunir empresas interessadas, como IBM, Microsoft, DEC, Compaq e NEC. Em 1996, o padrão enfim estava finalizado e ganha o nome oficial: Universal Serial Bus, ou USB.

  • O “universal” é porque ele é um padrão desenvolvido para ser usado em praticamente qualquer periférico da época, além de transmitir tanto comandos quanto dados;
  • Já o “serial” significa que ele faz algo contínuo e frequente: neste caso, transmitir dados de pouco em pouco, o que torna ele também bastante confiável e barato;
  • Por fim, o "bus" é de barramento, os caminhos e sistemas usados para conectar acessórios a um aparelho principal, fora os sinais que circulam entre eles.

O USB 1.0 foi o primeiro lançado, com taxa de transferência de 12 Mb/s ou 1 Mb/s, dependendo do aparelho conectado e a exigência de dados.

Nesse ponto, já surge a primeira crítica: por que o conector só encaixa de um lado? A resposta está no custo: fazer a tecnologia reversível, com os dois lados iguais, teria dobrado o preço de cada unidade e ele ser barato no início era essencial para que a adoção fosse realmente padronizada.

Bhatt não recebeu dinheiro pela invenção do USB, mesmo com bilhões de unidades vendidas no mundo. A Intel e todo o consórcio mantiveram a tecnologia aberta e sem royalties, como uma espécie de bem público para o mercado.

A popularização do USB

Em 1998 nasce o USB 1.1, o primeiro com algum apelo comercial. É também nesse momento que nasce o USB Implementers Forum (USB-IF), uma corporação sem fins lucrativos fundada pelo consórcio da tecnologia para garantir suporte e ser uma iniciativa organizada na adoção desse padrão.

Nesse período, há também o lançamento do FireWire pela Apple. Esse era um conector mais caro de implementar inclusive porque exigia o pagamento de uma taxa de licença para a Maçã. Por isso, ele teve o uso mais restrito à companhia.

O iMac abandonou a entrada de disquetes pela USB. (Imagem: Divulgação/Apple)

Curiosamente, a Apple também adotou ele cedo: o primeiro iMac era um dispositivo que tinha esse tipo de conexão como um dos destaques. Além disso, 1998 é o ano de lançamento do Windows 98, o primeiro sistema da empresa que tinha compatibilidade padrão com o formato. Isso fez as fabricantes finalmente lançarem desktops com a entrada e os acessórios com ela começarem a surgir em larga escala, tipo mouses, teclados e por aí vai.

No ano 2000 sai o USB 2.0, ou Hi-Speed USB. Ele teve principalmente um ganho em velocidade na taxa de transferência, com até 480 Mb/s, e a agilidade foi especialmente bem vinda no período de febre das câmeras digitais compactas.

Outra novidade foi o padrão USB On-The-Go, que permitia que outros aparelhos móveis como celulares fossem o dispositivo principal, em vez do PC. Além disso, agora existiam variantes: os conectores Mini-A e Mini-B para aparelhos menores.

O ano também ficou marcado pelo lançamento e popularização dos pendrives, que nascem a partir da empresa israelense M-Systems. Ele combina a estabilidade da memória Flash com a conectividade e velocidade oferecidas pelo USB, com a tecnologia estreando no DiskOnKey de 8 MB de capacidade.

USB em todos os lugares

Em 2000, a Sony lança o PlayStation 2 com entradas USB para controles, a câmera EyeToy e outros acessórios, um padrão que mais tarde foi seguido também pela Microsoft.  Outra expansão importante veio em 2006, quando a montadora Kia foi a primeira a colocar entradas USB nos veículos para conectar aparelhos ao sistema de som e para recargas.

Outra expansão acontece em 2007, quando nascem os populares conectores microUSB — o que também complica um padrão que inicialmente era para ser mais simples.

A terceira geração do USB chega em 2008 e é chamada de SuperSpeed, com transferências de até 5 Gb/s e um conector interno normalmente em azul.

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Um cabo USB 3.0 em azul. (Imagem: Amazon/Reprodução)

Entre as melhorias técnicas, agora os aparelhos conectados não ficam verificando automaticamente se havia uma nova transferência na fila, além de ser retrocompatível com o USB 2.0. O rival dele sai em 2011 e é o Thunderbolt, uma nova interface desenvolvida pela Intel em parceria com a Apple. Como o nome indica, ele é focado em ser rápido em transferência de dados.

Voltando para o nosso padrão, em 2012 nasce o USB Power Delivery, um protocolo de recarga que permitia um melhor carregamento de dispositivos a partir de conexões padronizadas. Já em 2013 a novidade é o USB 3.1, mais um padrão que aumenta a velocidade máxima para 10 Gb/s.

O pedido atendido: surge um USB reversível

Tudo muda em 2014, quando o conector USB-C é apresentado oficialmente. Depois de tantos anos, agora finalmente temos um padrão de entrada reversível, ou seja, que encaixa direito independente do lado que você pluga.

Ele ainda tinha um tamanho pequeno, mas com ótima velocidade e era mais caro — o que atrasou um pouco a popularização, mesmo com a vantagem no encaixe.

O nome entrega ainda que já existiam outras duas variáveis: o USB tipo A, mais comprido e tradicional, ainda usado até hoje em muitos aparelhos, e o USB-B, com a ponta no formato de um quadrado e adotado em dispositivos como impressoras, escâners e algumas mídias externas.

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Em constante evolução, o USB 3.2 de 2017 manteve quase todas as características do padrão anterior, mas adicionou dois novos picos de velocidade já no novo formato.

Já o USB 4, de 2019, subiu de novo a taxa de transferências para 40 Gb/s, com recursos baseados no padrão Thunderbolt 3. Para você ter uma ideia da capacidade, esse padrão suporta até duas telas 4K e carregamento de até 100W. O padrão mais recente dessa tecnologia é o USB4 Versão 2.0, com taxas de transferência chegando a 80 Gb/s.

A lei que muda tudo

Outra mudança importante nessa tecnologia foi política. Em 2022, a União Europeia aprovou uma regra comercial exigindo que grandes empresas padronizassem os conectores em seus aparelhos e adotassem o protocolo mais utilizado em formato, que pra maioria dos casos seria uma entrada USB-C.

A ideia era reduzir a incompatibilidade de cabos, promover uma conscientização sobre a quantidade de lixo eletrônico gerada pelas trocas de dispositivos e facilitar a vida do consumidor.

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O iPhone 15 estreou o USB-C na linha de smartphones. (Imagem: Divulgação/Apple)

A Apple foi contra a ideia, mas promover uma mudança radical de design só em uma região seria inviável. Obrigada a trocar o padrão Lightning, usado no iPhone desde 2012, ela passa a adotar o USB-C como entrada principal do celular a partir do iPhone 15, de 2023.

Apesar de discreto, o engenheiro por trás disso tudo também teve o trabalho reconhecido. O Escritório Europeu de Patentes homenageou Bhatt, o idealizador do padrão, com o Prêmio Europeu de Inventores, com o USB sendo considerado um dos avanços computacionais mais significativos desde os microchips.

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