Empresas chinesas de tecnologia captaram cerca de US$ 217 bilhões em ações e títulos nos últimos dois anos para financiar a expansão do setor, segundo dados da Bloomberg divulgados no domingo, 9. O movimento ocorre enquanto Pequim amplia o uso dos mercados de capitais para financiar a corrida tecnológica com os EUA, especialmente na área de chips de inteligência artificial (IA). Mesmo assim, o valor levantado pelas companhias chinesas ainda é mais de seis vezes menor que o captado por empresas americanas no mesmo período.
A mudança ocorre em um momento em que Pequim tenta ampliar a capacidade doméstica de produção de semicondutores e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. De acordo com a Bloomberg, os mercados chineses de ações e títulos, avaliados em cerca de US$ 28 trilhões, passaram a ter papel mais relevante no financiamento de setores considerados estratégicos. A estratégia representa uma mudança em relação à tradicional dependência de subsídios, incentivos fiscais e investimentos diretos do Estado.
IPO da CXMT expõe nova estratégia de Pequim
Um dos principais exemplos dessa mudança foi a estreia da fabricante de chips de memória CXMT na Bolsa de Valores de Xangai. A empresa levantou 57,92 bilhões de yuans, cerca de US$ 8,6 bilhões, no maior IPO de uma companhia de semicondutores já realizado na China continental. No primeiro pregão, as ações subiram 466%, encerrando o dia a 49 yuans, ante os 8,66 yuans definidos na oferta.

A abertura de capital ocorreu após a CXMT participar de um projeto-piloto que permite aos reguladores analisar questões consideradas relevantes antes do pedido formal de IPO. O mecanismo reduziu para menos de oito meses o intervalo entre o início do processo e a entrada da empresa no mercado.
Dias antes da estreia, reguladores, fundos estatais e grandes investidores também atuaram para conter uma forte queda nas ações de tecnologia, em uma das maiores intervenções recentes de Pequim no mercado, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto ouvida pela Bloomberg.
O movimento não se limita ao mercado acionário. Empresas chinesas de tecnologia venderam pelo menos US$ 38 bilhões em títulos neste ano, o maior volume para o período desde 2016, segundo a Bloomberg. As companhias pagaram, em média, juros de 1,9% sobre essas emissões, mais de 300 pontos-base abaixo do custo médio enfrentado por suas concorrentes americanas, uma diferença que não era registrada desde antes de 2015.
A estratégia, porém, também traz riscos. As ações da CXMT são negociadas com prêmio em relação a empresas globais do setor de memória, enquanto políticas públicas e a oferta limitada de papéis podem estar influenciando os preços mais do que os fundamentos da companhia, segundo Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global Investments.
Outras empresas de IA, como Z.AI, MiniMax, Moonshot AI e DeepSeek, também avançam em planos de abertura de capital. "Na China, se o capital não vier do Estado, ele acaba tendo que vir do mercado", disse Hong Hao, diretor de investimentos da Lotus Asset Management.