Cientistas ganham Nobel de Química 2026 por resolverem ‘mistério químico’ de 1 século

Cientistas ganham Nobel de Química 2026 por resolverem ‘mistério químico’ de 1 século

Os cientistas Henri Kagan e Kenso Soai foram anunciados, nesta quarta-feira (7), como vencedores do prêmio Nobel de Química 2026. Eles descobriram “efeitos não lineares e autacatálise em sinteses orgânicas assimétricas”.

O anúncio foi feito pela The Royal Swedish Academy of Sciences, instituição que seleciona os vencedores em categorias científicas do Nobel.

“Henri Kagan e Kenso Soai apresentaram uma solução para um mistério químico com mais de um século: como a homoquiralidade pode surgir espontaneamente. As reações químicas que eles desenvolveram são espetaculares”, explicou Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química.

A quiralidade é um conceito químico que fala sobre moléculas que são espelhadas. Contudo, elas não podem ser sobrepostas perfeitamente. Enquanto isso, a homoquiralidade é quando um sistema biológico ou químico utiliza predominantemente apenas uma das duas versões das moléculas quirais. Os seres vivos são homoquirais e, portanto, só utilizam uma das partes dos aminoáciados “gêmeos”.

Felippe Colombari, que é doutor em Físico-Química e docente pesquisador da Ilum Escola de Ciência, a faculdade Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), pontua que a palavra quiralidade vem do grego “chiros”, que significa “mão”, e por isso a analogia de espelhamento. “Dentre estas moléculas estão os açúcares e os aminoácidos, blocos importantes para a formação de moléculas essenciais à vida”, afirma.

Mistério resolvido

O mistério químico que os pesquisadores se debruçavam é justamente como a homoquiralidade poderia surgir. Os acadêmicos experimentavam reações para formar somente uma parte das moléculas simétricas, mas elas sempre reagiam formando as proporções iguais. E a formação de somente uma parte era importante porque no desenvolvimento de remédios, por exemplo, apenas uma imagem teria o efeito desejado na interação com organismos de seres vivos.

Colombari comenta que Kagan e Soai foram laureados por descobrir como produzir as reações que geram apenas uma das imagens espelhadas, resolvendo o “enigma que confundiu gerações de químicos”.

Para resolver o impasse, primeiro, Kagan descobriu uma maneira de manipular reações químicas, o que fez com que ele criasse um excesso de imagens especulares, durante pesquisas em 1986.

Quase uma década depois, em 1995, Soai descreveu como projetar uma primeira reação química para que ela fosse homoquiral. Em 2003 ele foi além e apresentou uma reação em que apenas uma das imagens da molécula foi formada.

Luiz Gustavo Possato, professor do Departamento de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que as moléculas quirais são como se fossem nossa mão direita e esquerda, tendo um espelho entre elas.

“O que Kagan e Soai mostraram é que é possível quebrar essa simetria. E mais importante, amplificar a diferença, inicialmente muito pequena, entre essas duas moléculas”, diz.

Por que a descoberta é importante?

As descobertas feitas pelos químicos vencedores do Nobel 2026 são importantes principalmente para o setor farmacêutico.

Os seres vivos são homoquirais e, por isso, utilizam somente uma das moléculas idênticas. E os remédios possuem substâncias quirais, só que a outra imagem idêntica pode até provocar reações negativas no nosso corpo.

Com a descoberta sobre como resolver esse problema dos aminoácidos gêmeos, a indústria química acabou passando por uma revolução. O conhecimento produzido por Kagan e Soai fez com que fosse possível produzir de forma mais segura substâncias que interagem com seres humanos.

De acordo com a The Royal Swedish Academy of Sciences, esse é caso das indústrias de medicamentos, aromas, perfumes e produtos químicos agrícolas, por exemplo.

O docente pesquisador Felippe Colombari afirma que a descoberta da dupla de que a quiralidade é controlável e determinante se estende para além da síntese molecular.

“A natureza usa quiralidade para construir vida. Agora sabemos que podemos usá-la de forma racional para construir materiais com propriedades biológicas de precisão cirúrgica. O futuro dos medicamentos, das vacinas e da edição gênica pode residir não apenas em novas moléculas, mas em nanopartículas cujas ‘mãos’ aprendemos finalmente a desenhar e cumprimentar com o encaixe perfeito”, finaliza.

Sobre os vencedores

Os pesquisadores premiados com o Nobel de Química 2026 levarão um valor em dinheiro de 12 milhões de coroas suecas, o que equivale a aproximadamente R$ 6 milhões. O montante será dividido entre os dois igualmente.

Henri B. Kagan nasceu em 1930, em Boulogne-Billancourt, França. Ele é doutorado pelo Collège de France e professor emérito da Université Paris-Sud.

Já Kenso Soai nasceu em 1950 em Hiroshima, Japão. Ele é doutor pela Universidade de Tóquio e professor emérito da Universidade de Ciências de Tóquio.

Prêmio Nobel de Química em 2025

Em 2025, o Nobel de Química foi concedido aos pesquisadores Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar M. Yaghi pelo desenvolvimento de estruturas metalorgânicas, materiais porosos tridimensionais formados por íons metálicos conectados a ligantes orgânicos.

Os acadêmicos foram laureados por terem criado construções moleculares que permitem a captura e armazenamento de gases e outros produtos químicos. As moléculas, que são chamadas de as “mais importantes do século XXI”, podem capturar CO2 da atmosfera para amenizar o efeito do aquecimento global, por exemplo.