Criminosos e grupos de espionagem estatais utilizaram o modelo de inteligência artificial (IA) Claude, da Antropic, para automatizar e acelerar ataques digitais em larga escala. As ofensivas atingiram desde aplicativos para celular até sistemas corporativos e órgãos governamentais.
A dona da ferramenta revelou essas ações em relatório publicada na quinta-feira (10) e confirmou o bloqueio das contas ligadas aos abusos. Os sistemas internos de defesa foram atualizados para barrar novos desvios e os alvos identificados receberam alertas, de acordo com a empresa.
Segundo a investigação, as tentativas de mau uso ocorreram entre dezembro de 2025 e agosto deste ano. As violações envolveram operações de espionagem internacional, campanhas de influência política, vigilância contra cidadãos e a extração não autorizada do raciocínio lógico dos próprios modelos.
“Como os modelos se tornam cada vez mais capazes, seus riscos aumentam, a menos que os desenvolvedores de inteligência artificial e os defensores da sociedade ajam para torná-los mais seguros”, alertou a Anthropic, em documento técnico.
Casos de destaque
Um dos casos mais expressivos envolveu afiliados do grupo ShinyHunters, conhecido por roubo de bases de dados e extorsão financeira. Um dos operadores montou uma estrutura automatizada que baixou 1,8 milhão de arquivos de aplicativos Android de diferentes lojas virtuais. O sistema vasculhou o código dos programas em busca de senhas, credenciais e chaves de acesso esquecidas pelos programadores. Os dados localizados serviram de porta de entrada para invadir novos ambientes corporativos.
O uso da tecnologia mudou o ritmo e o alcance das invasões. Em um ataque contra uma empresa fornecedora de sistemas em nuvem, agentes de IA fizeram quase todo o trabalho operacional. Em cerca de 34 horas, os invasores coletaram mais de 2,1 mil conjuntos de dados de autenticação pertencentes a mais de 40 organizações clientes. Em outro episódio, o criminoso precisou de apenas três horas para sair de um único token roubado e assumir o controle administrativo total do ambiente corporativo.
A espionagem militar também incorporou as ferramentas generativas. O grupo russo Midnight Blizzard recorreu ao modelo para automatizar a criação de códigos maliciosos, gerenciar disparos de mensagens falsas e manter controle remoto de aparelhos invadidos. A equipe russa estruturou um mecanismo autônomo que reprogramava o código nocivo sempre que algum antivírus detectava a ameaça, o que permitia escapar de bloqueios sem depender da intervenção humana a cada tentativa.
Mais de 20 entidades tornaram-se alvos diretos dessa operação, com foco prioritário em diplomatas, ministérios e fabricantes de peças para drones militares ligados à Ucrânia. Em uma das táticas para atingir viajantes estratégicos, o grupo adulterou conexões de internet oferecidas por hotéis, redirecionando o tráfego de hóspedes para servidores sob controle dos invasores.
Mais descobertas
A investigação da Anthropic também detectou campanhas de espionagem ligadas a operadores de língua chinesa identificados como “GTG-10007?. O grupo manteve fluxos automatizados de busca por vulnerabilidades que funcionavam de forma contínua, mesmo na ausência física dos operadores.
A estrutura descobriu falhas inéditas em softwares de segurança de grande porte e desenvolveu métodos de invasão contra dezenas de instituições de ensino, redes de varejo e agências governamentais no Oriente Médio, Europa e Sudeste Asiático.
Além dos ataques a terceiros, a infraestrutura da IA tornou-se alvo preferencial. Invasores desviaram chaves de acesso de clientes corporativos para rodar suas próprias ferramentas sem custo e disfarçar a autoria das ofensivas. Ao mesmo tempo, laboratórios de tecnologia usaram redes de contas falsas para extrair em massa as etapas internas de raciocínio da ferramenta, tentando replicar sua eficiência em sistemas próprios.
A companhia afirmou que as invasões não violaram os servidores centrais da marca, já que as credenciais pertenciam aos clientes que as deixaram expostas. Após mapear os métodos operacionais, a desenvolvedora reforçou os filtros de comportamento, cortou o acesso das redes fraudulentas e compartilhou indicadores técnicos com autoridades e empresas de cibersegurança para mitigar os prejuízos.
Por falar em segurança no universo digital, o Brasil registrou 3 golpes por segundo no primeiro semestre de 2026, segundo uma pesquisa. Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.