De onde veio o sinal de rádio captado pela primeira vez fora do Sistema Solar? Entenda

De onde veio o sinal de rádio captado pela primeira vez fora do Sistema Solar? Entenda

Pesquisadores detectaram, pela primeira vez, sinais de rádio provenientes de um planeta além do Sistema Solar chamado Beta Pictoris b. A descoberta foi realizada por especialistas do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, em um artigo publicado na plataforma arXiv em meados de setembro.

Usando o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, os cientistas captaram as emissões de rádio vindas do gigante gasoso localizado a cerca de 63 anos-luz de distância da Terra, onde orbita uma jovem estrela. O material detectado incluía rajadas rápidas e repetidas em frequências de 0,85 a 3,5 GHz, observadas entre fevereiro de 2025 e maio de 2026.

Em busca da fonte dos sinais

Quando essas ondas de rádio foram detectadas, os pesquisadores tinham apenas uma certeza: elas vinham do sistema Beta Pictoris. Além da estrela que tem o mesmo nome, ele é formado pelos planetas Beta Pictoris b, Beta Pictoris c e Beta Pictoris d.

  • Inicialmente, não se sabia se os sinais eram da própria estrela ou de um dos planetas que a orbitam;
  • Para solucionar a dúvida, a equipe comparou imagens de rádio com posições precisas de quasares de fundo distantes e traçou as posições de cada objeto celeste;
  • Sobrepondo as imagens registradas pelo radiotelescópio a este mapa, foi possível determinar Beta Pictoris b como a fonte dos sinais;
  • Descoberto em 2008, o exoplaneta tem aproximadamente 10 vezes a massa de Júpiter e uma intensidade de campo magnético de pelo menos 1.250 gauss na área em que os sinais se originaram, outra novidade anunciada pelo estudo.

Sinais de rádio de exoplanetas são procurados desde que eles foram descobertos, em 1990. Algumas detecções indiretas e provisórias chegaram a acontecer, mas até então nenhuma pesquisa havia conseguido distinguir se elas vinham da estrela ou do planeta que a orbitava fora do Sistema Solar.

“Nenhuma detecção de rádio foi anteriormente localizada de forma inequívoca em um planeta extrassolar em vez de sua estrela hospedeira”, observaram os autores. É válido destacar que o estudo ainda será revisado por pares.

Extraterrestres tentando contato?

Assim que foi anunciado o registro do primeiro sinal de rádio de um planeta além do Sistema Solar, muitas pessoas ficaram empolgadas com a possibilidade de se tratar da tentativa de comunicação de uma civilização extraterrestre. Mas os cientistas não demoraram a descartar essa hipótese.

Para os participantes do estudo, as emissões de rádio pulsando em Beta Pictoris b são resultado de uma aurora, provavelmente. O fenômeno natural, que também é visto na Terra e em outros planetas do Sistema Solar, ocorre quando partículas de alta energia de uma estrela interagem com a atmosfera superior do planeta.

Com as informações captadas pelo radiotelescópio, os cientistas também concluíram que o exoplaneta tem um campo magnético extremamente forte, o que coincide com modelos teóricos para planetas jovens e massivos. Eles acreditam que a emissão seja alimentada pela rápida rotação de Beta Pictoris b, capaz de completar a órbita em 8 ou 9 horas.

Segundo a professora de astrofísica da Universidade de Oxford (Inglaterra), Suzanne Aigrain, outro processo natural que pode gerar as emissões de rádio em exoplanetas é a reconexão magnética, descartada no estudo. Isso acontece quando o campo magnético do planeta interage diretamente com o da estrela, devido à proximidade de ambos.

Já os sinais de rádio artificiais, que não são o caso desta análise, estão entre os principais alvos das iniciativas de busca por vida alienígena. Eles funcionam como uma “tecnoassinatura”, podendo ter surgido a partir de tecnologias desenvolvidas por civilizações inteligentes.

A importância da descoberta

Com a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um exoplaneta proporcionada durante a pesquisa, o estudo pode se tornar um marco nas investigações de planetas distantes e de vida fora da Terra. Isso se deve ao papel vital dos campos magnéticos na proteção das atmosferas planetárias.

Essas medições ajudam a entender melhor o funcionamento das magnetosferas dos planetas e como a intensidade delas é controlada. Esses sistemas são essenciais para a criação de condições favoráveis à vida.

Usando os dados obtidos agora, os autores planejam observar outros sete exoplanetas gigantes, distribuídos entre cinco sistemas estelares próximos. A ideia é usar o mesmo método para analisá-los, porém aproveitando avanços tecnológicos.

“Uma melhoria de aproximadamente 5 a 7 vezes na sensibilidade dos instrumentos, esperada dos radiotelescópios de próxima geração, os tornará detectáveis”, afirmaram.

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Com informações de arXiv, BBC, Live Science, ScienceAlert, ScienceNews, Phys.org e Wired.