É difícil contestar que a Capcom é, no momento, a empresa “de fora” da Nintendo que melhor sabe trabalhar com o hardware do Nintendo Switch 2, tendo adaptado seus principais lançamentos para o híbrido numa qualidade que não deve nada às versões de outras plataformas. Uma sequência histórica de acertos, eu diria.
A bruxaria que a Capcom vem fazendo precisa ser estudada. De Resident Evil 9: Requiem a Onimusha: Way of the Sword, com Monster Hunter Wilds virando a esquina, parece não haver limites para a RE Engine, tecnologia proprietária da desenvolvedora japonesa, que faz os jogos rodarem bem mesmo em especificações mais modestas.
Os ports recentes também mostram que o Switch 2 não precisa viver só de exclusivos e indies. A chegada de jogos third-party mais ambiciosos corrige justamente uma das maiores limitações do primeiro Nintendo Switch. Quem diria que o Switch 2 teria o melhor de todos os mundos e se tornaria uma opção tão atraente até para quem sempre teve outro console como plataforma principal?
Mais um milagre da Capcom
Quando Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen foi revelado para o Switch 2, confesso que franzi as sobrancelhas em tom de desconfiança. Como joguei o segundo capítulo da saga em um PlayStation 5 Pro e passei perrengue em termos de desempenho na época do lançamento, este, para mim, seria o primeiro deslize dos ports recentes da Capcom.
Felizmente, eu estava errado. Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen não só roda de forma satisfatória no portátil como também prova que o céu é o limite para o console, desde que o game não tenha sido desenvolvido na Unreal Engine 5. Estamos falando de um RPG de mundo aberto de grande escala, reativo às ações e decisões do jogador, cuja estrutura “cobra”, naturalmente, mais poder de fogo.
Antes de qualquer coisa, as minhas impressões serão focadas nos elementos técnicos e, sobretudo, na experiência de poder jogar o game onde quer que seja, inclusive largado no sofá (o melhor jeito, vale dizer). A novidade, por si só, é poder jogar Dragon’s Dogma 2 em um console portátil, com o bônus de uma expansão complementar à história, que pretendo abordar em um conteúdo dedicado no futuro.
De antemão, adorei passar esse tempo com o jogo, já que, por render centenas de horas, ele se beneficia como ninguém da portabilidade do console e permite sessões curtas de jogatina. Você pode avançar um pouco, sem pressa, sempre que tiver um espaço sobrando na agenda, até porque é possível salvar o progresso em qualquer lugar do mapa.
Para entender melhor o que é Dragon’s Dogma 2 e o motivo pelo qual o segundo jogo abocanhou nota máxima aqui no VOXL, sugiro a leitura da análise original, publicada em 2024, na ocasião do lançamento, e redigida pela Luciana Anselmo, uma pessoa com vasta bagagem em RPGs do estilo.
O grande diferencial da série em relação a outros RPGs de mundo aberto sempre foi o trajeto da jornada, isto é, o que acontece entre o ponto A e o B. Enquanto outros games do gênero se esforçam para desenvolver narrativas densas ao chegar ao destino, Dragon’s Dogma é sobre vivenciar experiências únicas ao longo do caminho.
Visual e desempenho surpreendentes, mas com concessões
Por ser um jogo com foco na exploração, meu receio era de que a versão de Nintendo Switch 2 não conseguisse se sustentar em áreas abertas, o que seria um problemão, já que explorar o mundo acaba sendo o cerne de sua proposta. Para minha surpresa, a performance se sobressai, ainda que não alcance os 60 fps “reais”.
Reais assim, entre aspas mesmo, pois a taxa nativa fica limitada a 30 fps, mas existe um recurso para ativar a geração de quadros, o que, na prática, simula uma fluidez próxima dos 60 fps. Independentemente do modo escolhido, o mais importante é que o jogo se mantenha estável e não pareça estar preso por um nó de barbante prestes a se desfazer a qualquer instante.
Tendo experimentado Dragon’s Dogma 2 em um PlayStation 5 Pro, creio que posso afirmar com certa propriedade que as experiências, ao menos no que diz respeito à performance, não estão tão distantes assim. O frame generation realmente faz milagre no Switch 2 e proporciona uma jogatina confortável aos olhos e à lombar, agora que dá para curtir deitado, com as costas esticadas.
Como eu sempre falo (e a essa altura já dá pra virar bordão), não sou o Digital Foundry, então não consigo afirmar a resolução nativa de renderização, mas o DLSS faz o que precisa ser feito para reconstruir a imagem. No modo portátil, a resolução de saída parece buscar os 1080p, o máximo que a telinha suporta, enquanto, na TV, o upscaling almeja uma qualidade maior, tamanha a clareza da imagem.
Como já se imaginava, a Capcom precisou fazer várias concessões para que o jogo pudesse encarar o desafio de rodar em um Switch 2. A qualidade gráfica, das texturas à iluminação, foi comprometida, com perdas nítidas na densidade e na nitidez da vegetação, perceptíveis, por exemplo, em certas árvores e nos tufos de grama, cujos contornos parecem mais irregulares.
Meu maior incômodo, no entanto, foi a limitação imposta à distância de renderização. Por ser um jogo de mundo aberto em que é preciso identificar pontos de interesse no horizonte, a falta de definição em objetos distantes pode atrapalhar a imersão de quem gosta de se perder em games com essa pegada sandbox.
Vale a pena?
Dando continuidade à série de acertos da Capcom, Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen é mais um port competente no Switch 2, apesar das concessões necessárias para rodar, mérito que, convenhamos, também passa pelo empurrãozinho de alguns macetes tecnológicos, ou seja, não foi só uma boa otimização.
O pacote ainda vem acompanhado de uma expansão de história, que introduz a região de Norgan e acrescenta mais 30 horas de conteúdo, isso sem contar a quantidade homérica de tempo que o jogo base já oferece. Então, sim, vale cada centavo, desde que você entre com a expectativa certa e tenha ciência dos sacrifícios técnicos feitos para viabilizar o port.
Nota do VOXL: 85
Pontos positivos (Prós):
- Mais um port milagroso da Capcom para a conta
- Técnicas modernas de aprimoramento gráfico e de performance
- Continua sendo um grande RPG: é mais sobre jornada do que destino
- Localização impecável para o português do Brasil
Pontos negativos (Contras):
- Perdas notáveis em certas composições visuais
Uma cópia de Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen foi gentilmente cedida pela Capcom para o propósito de análise no Nintendo Switch 2. O jogo também está disponível para PS5, Xbox Series X|S e PC.