Investidor do Shark Tank chama semana de 4 dias de ‘estúpida’, mas dados indicam avanço

Investidor do Shark Tank chama semana de 4 dias de ‘estúpida’, mas dados indicam avanço

A crítica do investidor Kevin O'Leary à semana de trabalho de quatro dias reacendeu um debate que vem ganhando força em empresas e governos ao redor do mundo. Conhecido por seu perfil duro no programa Shark Tank, o empresário classificou o modelo como “a ideia mais estúpida” em entrevista à Fox News, ao defender que, na economia digital, “não existe mais semana de trabalho”.

No entanto, pesquisas recentes e experiências práticas em diferentes países apontam justamente para o caminho contrário: menos horas de trabalho têm sido associadas a ganhos de produtividade, saúde mental e retenção de funcionários.

Durante a entrevista, O'Leary afirmou que jornadas reduzidas poderiam comprometer a competitividade econômica. O investidor também ironizou experiências europeias, especialmente da França, que já possui limite legal de 35 horas semanais. Apesar do tom crítico, o próprio empresário reconheceu que o modelo tradicional de expediente fixo perdeu espaço após a pandemia, sobretudo com o avanço do trabalho remoto e da gestão baseada em entregas.

Na prática, porém, empresas que testaram a semana de quatro dias relatam resultados diferentes dos previstos pelo investidor. Dados da organização internacional 4 Day Week Research mostram que 92% das empresas participantes decidiram manter o modelo após os testes. Entre os funcionários, 39% relataram menos estresse, enquanto 55% disseram ter aumentado a capacidade de trabalho. O estudo também mostrou queda de 65% nos afastamentos por problemas de saúde entre os funcionários.

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Fonte: Gety Images

Os resultados também apareceram no Brasil. Em um projeto-piloto liderado pela 4 Day Week Brazil e pela consultoria Reconnect Happiness at Work, 19 empresas concluíram um período de testes com cerca de 280 funcionários em 2024. Segundo o relatório, 87% dos trabalhadores disseram ter mais energia para concluir tarefas, enquanto 60% apontaram melhora no engajamento. Outros 52% relataram avanço no cumprimento de prazos, um dos principais argumentos usados por executivos contrários à redução da jornada.

Produtividade e saúde mental no centro do debate

A relação entre produtividade e bem-estar também vem sendo reforçada por estudos acadêmicos. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica Nature Human Behaviour analisou dados de 2.896 funcionários em 141 organizações de países como Reino Unido, EUA, Canadá e Austrália. O estudo concluiu que a semana de quatro dias sem redução salarial levou à melhora da saúde mental, da satisfação no trabalho e da saúde física dos funcionários, além de reduzir sintomas de burnout.

Os pesquisadores identificaram ainda que a redução da fadiga e dos problemas de sono ajudou diretamente no desempenho das equipes. O resultado contrasta com a visão de que menos horas significariam necessariamente menor produtividade. Em muitos casos, as empresas reorganizaram reuniões, automatizaram tarefas repetitivas e diminuíram processos considerados improdutivos para compensar o tempo reduzido.

Outros levantamentos chegam a conclusões semelhantes. Uma pesquisa da Gallup de 2023 mostrou que 77% dos trabalhadores acreditam que uma semana de quatro dias teria impacto positivo no bem-estar. Já um estudo da KPMG de 2024 apontou que cerca de 30% dos CEOs de grandes empresas americanas avaliam mudanças na jornada tradicional, incluindo semanas de quatro ou quatro dias e meio de trabalho.

Entre empresários, o debate sobre novas relações de trabalho vem ganhando espaço. Outros investidores do Shark Tank têm comentado mudanças no ambiente corporativo, como pedidos públicos de demissão e negociações salariais mais agressivas. 
O avanço dessas discussões mostra que, apesar da resistência de parte do mercado, a redução da jornada deixou de ser apenas uma proposta experimental e passou a integrar estratégias adotadas por empresas que buscam reduzir desgaste e aumentar produtividade.