Investigação amorosa: mulheres usam IA para filtrar agressores antes de sair de casa

Investigação amorosa: mulheres usam IA para filtrar agressores antes de sair de casa

Aos 37 anos, a engenheira Mariana Bonfim* conheceu um rapaz que afirmava ter retornado a Brasília para atuar como funcionário público. O contato inicial evoluiu para um envolvimento afetivo, porém a aproximação chegou ao fim após uma busca no Plinq, ferramenta criada para cruzar antecedentes masculinos. O sistema apresentou um processo por contravenção penal no nome dele. A confirmação veio logo em seguida, quando a brasiliense acessou o portal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) e descobriu que o pretendente havia feito um acordo judicial por fingir ser funcionário público.

Essa busca rápida é resultado de uma nova onda de plataformas como Plinq, Puft.IA e Checki. Essas ferramentas utilizam modelos de Inteligência Artificial (IA) para varrer, em tempo real, registros públicos como Diários Oficiais e andamentos processuais em todo o país. O objetivo é oferecer, em segundos, uma camada de proteção preventiva para mulheres que pretendem marcar encontros presenciais e consolidar fichas que, de outra forma, exigiriam horas de pesquisa manual, de acordo com criadores desses sistemas.

“Assim que descobri, terminei o quase relacionamento imediatamente. Hoje, sempre investigo antes. Consigo os dados de forma sutil durante a conversa: pergunto o signo para saber o aniversário, vejo a idade no aplicativo e testo o telefone como chave Pix para conferir o nome completo. Dessa forma, reúno as informações necessárias”, relata Mariana.

O que a engenheira descreve é, na prática, uma forma cotidiana de Open-source Intelligence (Osint), ou Inteligência de Fontes Abertas, em português. Ao utilizar dados públicos disponíveis na internet para investigar o passado de alguém, usuárias como Mariana estão aplicando técnicas de inteligência para garantir a segurança.

A cautela é uma resposta coletiva diante do avanço da violência de gênero. O Brasil registrou, em 2025, um recorde no número de feminicídios desde a criação da tipificação penal do crime, em 2015. Foram contabilizados 1.571 assassinatos: um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos de 2024, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Especialistas em Segurança e Proteção de Dados ouvidas pelo TecMundo/Estadão asseguram que a utilização dessas ferramentas é lícita, desde que consultem dados públicos e que não estejam sob segredo de justiça. Para a professora de Direito Digital Rubia Ferrão, o uso desses mecanismos de autodefesa é um reflexo direto da necessidade de proteção.

“Toda cautela é pouca quando o assunto é o nosso bem maior, a vida, ou de outros direitos de grande importância, como a reputação, a privacidade e a intimidade. As mulheres devem fazer o que for necessário para se proteger e expor situações de violência para que a mensagem seja clara”, avalia.

O peso da hipervigilância na saúde mental

Essa mudança comportamental tem reflexos diretos na forma como as mulheres se relacionam. A psicóloga e psicanalista Lívia Boaretto observa que a busca pela autoproteção, embora necessária, cobra um preço alto da saúde mental feminina.

“Normalmente, o comportamento natural de um relacionamento seria deixar fluir. Ninguém gostaria de ir a um encontro pensando na necessidade de puxar a ficha criminal de alguém. As relações humanas não foram feitas para isso”, lamenta ela, que estuda sobre violência de gênero.

Segundo Lívia, a necessidade de estar sempre em alerta transforma momentos que deveriam ser leves em processos investigativos. “É frustrante precisar checar antecedentes antes de sair com alguém, quando o ideal seria a descoberta espontânea do outro. Contudo, se essa é a ferramenta disponível para autoproteção, as mulheres vão utilizá-la. Esse comportamento não é exagero no contexto atual”, reflete.

Mais da metade das brasileiras afirma ter sofrido violência de gênero

A urgência dessa blindagem é corroborada pelas estatísticas. Apenas 11% dos homens que se relacionaram com mulheres reconhecem ter cometido algum tipo de violência contra a parceira, o que contrasta drasticamente com a realidade feminina. Segundo a pesquisa “20 anos da Lei Maria da Penha”, realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, 54% das mulheres declaram ter sofrido agressões físicas, psicológicas, sexuais, morais ou patrimoniais ao longo da vida. O número corresponde a 47,7 milhões de brasileiras.

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(Fonte da Imagem: TecMundo)

O temor pelos mesmos riscos levou a estudante Jéssica Guimarães*, 19 anos, a checar o histórico de um pretendente antes de vê-lo em um show. Com a expectativa de “não encontrar nada”, a universitária descobriu que ele respondia a uma medida protetiva requerida por uma ex-companheira desde 2022. O encontro foi cancelado no mesmo instante.

O modelo por trás das ferramentas

O mercado nacional conta com diferentes serviços voltados a esse segmento, a exemplo de Checki, Plinq e Puft.IA. O modelo de negócios dessas ferramentas opera por meio da cobrança por relatório individual ou pela compra de pacotes de créditos.

O Plinq foi lançado em junho de 2025 e reúne, atualmente, mais de 70 mil usuárias. A plataforma centraliza dados de tribunais de Justiça e Diários Oficiais em uma interface simplificada, de acordo com Sabrine Matos, fundadora e CEO da startup.

“O sistema faz a busca em fontes distintas em tempo real e consolida a ficha. Se uma decisão foi publicada hoje no Diário Oficial ou no tribunal, o registro já aparece na consulta”.

O projeto surgiu após o assassinato da jornalista Vanessa Ricardi, morta pelo ex-noivo com 11 facadas em Mato Grosso em fevereiro de 2025. O agressor acumulava antecedentes criminais públicos, mas de difícil localização manual.

“Existiam serviços de checagem voltados ao mercado de trabalho e crédito. Criamos o Plinq exclusivamente para mulheres, com foco em segurança feminina. Atingimos três mil usuárias logo no primeiro dia”, relembra a executiva.

Sabrine relata que o principal gargalo técnico residiu na “higienização da base”. Lidar com a inconsistência dos dados judiciais exigiu filtros rigorosos para estruturar os algoritmos e entregar um resultado claro às usuárias, sem acessar processos sob segredo de justiça. Com a visibilidade do negócio, a executiva revela que a equipe também passou a ser alvo de ataques concentrados de homens ligados ao setor de tecnologia.

A plataforma exibe processos em andamento e o status das ações. Contudo, a fundadora rebate críticas sobre invasão de privacidade: “O objetivo não é emitir juízo de valor ou rotular alguém, mas oferecer acesso a dados públicos que as mulheres têm o direito de conhecer e que muitas vezes permanecem inacessíveis pela burocracia dos sistemas judiciais”, reforça.

Na mesma linha, o Puft.IA, idealizado e administrado por Gianluca Terro, centraliza registros de varas cíveis e criminais de diferentes esferas federativas. A plataforma mapeia ações judiciais, além de endereços e contatos vinculados publicamente aos nomes consultados, para diminuir o tempo de checagem manual.

“Muitas mulheres iniciam relacionamentos sem saber que o parceiro possui histórico de violência doméstica ou ameaça. Se tivessem esse dado antes, a decisão sobre manter o contato seria outra. A ferramenta existe para suprir essa assimetria de informação”, afirma Terro.

Limites da legislação e proteção de dados

Apesar da adesão de milhares de brasileiras, a expansão dessas ferramentas gerou reações e questionamentos legais. Os criadores relatam o recebimento frequente de notificações extrajudiciais e contatos de homens que exigem a exclusão dos registros com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além de ameaças de processos.

“Em grande parte dos pedidos de remoção, identificamos registros de violência doméstica, injúria ou ameaça. São tentativas de ocultar antecedentes de novos contatos. Não excluímos dados públicos de forma voluntária, pois a supressão dessas informações poderia colocar usuárias em risco direto”, sustenta o CEO do Puft.IA, Gianluca Terro.

Juridicamente, o debate é complexo. A advogada Gisele Truzzi explica que o “direito ao esquecimento” não é absoluto no Brasil. A exclusão de antecedentes criminais segue regras específicas, como o artigo 202 da Lei de Execução Penal (LEP), que determina o sigilo para fins civis da condenação após o cumprimento da pena.

A LGPD, portanto, não funciona como um salvo-conduto para apagar o passado. A norma impõe limites ao uso de informações pessoais, todavia não autoriza a supressão arbitrária de registros públicos.

“O que a lei prevê é a eliminação de dados tratados em desconformidade. A exclusão de antecedentes antigos decorre do sigilo da LEP, não de uma prerrogativa ampla de apagar a história”, ressalta Gisele.

A professora e advogada Rubia Ferrão acrescenta que a legislação impõe regimes específicos de publicidade para determinados delitos. Assim ocorre com a Lei nº 15.035/2024, que autorizou a consulta pública a nome e CPF de condenados em primeira instância por crimes contra a dignidade sexual, e da Lei nº 14.069/2020, que criou o Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Crime de Estupro. A checagem desses dados pode ser feita diretamente nos sites dos Tribunais estaduais (por meio da consulta processual) e na plataforma oficial do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A profissional explica que a legalidade da atuação das ferramentas passa diretamente pela precisão técnica na apuração. “A LGPD não impede a consulta a fontes públicas abertas, desde que respeitados os limites da legalidade, a exatidão das informações e a finalidade legítima. Se a plataforma opera com dados desatualizados, processos sob segredo de justiça ou informações incorretas, responderá pelos danos causados”, enfatiza Rubia.

Diante da falta de mecanismos estatais rápidos de prevenção à violência, a tecnologia ocupa, atualmente, o papel de guardiã. Como pontua Sabrine Matos, CEO e criadora do Plinq: “Enquanto o poder público não garante meios eficazes de prevenção, as próprias cidadãs estão criando, na tecnologia, a sua rede de segurança”, finaliza.

*Os nomes e dados pessoais foram alterados para preservar a identidade das entrevistadas

Por falar em violência de gênero no universo digital, a Meta promoveu anúncios de app que promete criar falsas fotos íntimas de mulheres com IA. Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.