Empresas que substituem profissionais em início de carreira por inteligência artificial (IA) podem comprometer a formação de talentos e perder uma vantagem competitiva no futuro. O alerta é do pesquisador Andrew McAfee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que defende que a automação excessiva de funções de nível básico reduz as oportunidades de aprendizado prático e dificulta a preparação dos futuros líderes das organizações.
McAfee, que co-lidera a Iniciativa para a Economia Digital do MIT, afirma que os cargos de entrada cumprem um papel importante na formação de profissionais qualificados. Em entrevista concedida à Harvard Business Review em abril, ele disse que a experiência adquirida nessas funções é essencial para o desenvolvimento de habilidades mais complexas.
"De que outra forma as pessoas vão aprender a fazer o trabalho, senão por meio de aprendizado prático e treinamento em regime de aprendizagem? É assim que se aprende a realizar trabalhos intelectuais complexos: ajudando alguém que é bom nisso com as tarefas rotineiras. E quando automatizamos demais essas tarefas muito rapidamente, perdemos essa escada de aprendizado", afirmou.
Segundo o pesquisador, reduzir a contratação de jovens profissionais também significa abrir mão de uma geração mais familiarizada com ferramentas de IA. Um estudo da Deloitte, publicado em novembro de 2025, mostrou que 76% da geração Z utilizam ferramentas independentes de IA, a maior proporção entre todas as faixas etárias analisadas. Para McAfee, essa característica pode acelerar a adoção da tecnologia nas empresas.

Mercado de trabalho mais competitivo
O especialista também relaciona a redução das contratações ao envelhecimento da força de trabalho. "Há um grande declínio demográfico. À medida que as pessoas envelhecem, tendem a ficar mais apegadas aos seus hábitos e menos dispostas a experimentar coisas novas e ousadas como a IA", disse. "Portanto, se você está reduzindo suas contratações para cargos de nível inicial, provavelmente está sacrificando oportunidades futuras de aprendizado e os profissionais qualificados do futuro. Você também está fechando a torneira dos usuários mais entusiasmados com a IA em sua organização", acrescentou. Além do MIT, McAfee é cofundador da Workhelix, empresa que auxilia organizações a medir o retorno sobre investimentos em IA.
O cenário ocorre em um momento de maior dificuldade para jovens ingressarem no mercado de trabalho. Segundo o relatório Class of 2026 Network Trends, as vagas para profissionais em início de carreira caíram 2% na comparação anual e permanecem 12% abaixo do período anterior à pandemia. Já o FED estima em 5,6% a taxa de desemprego entre graduados universitários de 22 a 27 anos. Pesquisa da Monster aponta ainda que quase nove em cada dez estudantes da turma de 2026 temem que a IA substitua cargos de entrada, acima dos 64% registrados em 2025.
Apesar das preocupações, análises recentes indicam que profissionais mais jovens tendem a se adaptar com maior facilidade às mudanças tecnológicas. Um estudo do Goldman Sachs concluiu que trabalhadores com ensino superior sofrem perdas salariais menores após o desemprego e costumam migrar para ocupações complementares às novas tecnologias.
Ao mesmo tempo, algumas empresas ampliam a contratação desse público. A IBM informou que pretende triplicar as admissões de profissionais em início de carreira, enquanto a Salesforce anunciou a contratação de mil recém-formados e estagiários para atuar no desenvolvimento de sistemas de IA. A Amazon também pretende manter seu programa de formação de talentos, com a previsão de contratar 11 mil estagiários de engenharia de software em 2026.